POR QUE ESCOLHEMOS A TIRANIA DA FÉ E DO ESTADO?
A inquietação que percorre o espírito do nosso tempo não é meramente política ou econômica; é uma crise de profundidade existencial. Observa-se, com uma frequência cada vez mais alarmante, um recuo coletivo em direção a certezas absolutas, a bandeiras ideológicas incontestáveis e, sobretudo, a dogmas religiosos que oferecem um conforto barato à complexidade da condição humana. Este movimento não é orgânico, mas sim uma fuga. Uma fuga do peso esmagador de uma liberdade que não sabemos mais como carregar.
Jean-Paul Sartre, em sua obra monumental, afirmou que estamos “condenados a ser livres”. Esta condenação não é um presente, mas uma sentença que muitos se recusam a cumprir. A liberdade sartriana exige que nos reconheçamos como únicos autores de nossos valores e ações, sem a muleta de um deus, de uma tradição ou de um manual político que pense por nós. Assumir essa autoria é angustiante. É mais fácil, infinitamente mais cômodo, delegar essa responsabilidade a uma entidade superior ou a um líder carismático que prometa um caminho reto e iluminado, livre da penumbra das dúvidas.
É neste vácuo de coragem existencial que o fanatismo religioso encontra seu solo fértil. Ele não surge do nada; é cultivado pelo medo do vazio, pelo pavor de encarar o silêncio do universo e perceber que nossas perguntas podem ecoar sem resposta. Krishnamurti alertava constantemente contra a organização da crença, pois toda organização do sagrado inevitavelmente se transforma em prisão. A religião, quando institucionalizada e dogmatizada, deixa de ser uma busca interior e intransferível para se tornar um instrumento de poder, de controle e, finalmente, de segregação.
Ora, o que é o fanático senão aquele que, incapaz de suportar a incerteza sobre o próprio ser, projeta no outro – o infiel, o herege, o diferente – toda a sombra de sua própria insegurança? Sua violência é, em última análise, dirigida contra a parte de si mesmo que ele se recusa a encarar. A fé cega torna-se uma armadura contra o self, um modo de não ter de enfrentar a própria mediocridade, o próprio vazio ou os próprios conflitos não resolvidos. É uma identidade pronta para vestir, que dispensa a árdua tarefa de construir uma.
Este mesmo mecanismo de entrega da liberdade opera no envolvimento acrítico com os governos. Transferimos a potência da nossa vontade coletiva para a figura de um salvador, um messias político, na esperança infantil de que ele resolverá os problemas que nós mesmos nos recusamos a enfrentar. Abrimos mão do direito de questionar, de criticar, de participar verdadeiramente, em troca da promessa de segurança e ordem. Tornamo-nos, nas palavras de Sartre, em “má-fé”, fingindo para nós mesmos que não somos livres para assim evitar o fardo dessa liberdade.
Krishnamurti via nisto a raiz de toda desgraça social: a preguiça mental. A aceitação passiva de autoridade, seja ela religiosa ou estatal, é a negação total da inteligência. A inteligência, para ele, reside justamente na capacidade de duvidar, de investigar sem medo, de não se apegar a conclusões. Um governo que exige obediência inquestionável e uma religião que demanda fé cega são duas faces da mesma moeda: a negação da capacidade humana de discernir por si mesma.
A perigosa simbiose entre ambos é o cenário mais sombrio. Quando o Estado se alia a certos segmentos religiosos, ou quando a religião busca o poder temporal, a liberdade individual é a primeira vítima. As leis divinas, imutáveis e inquestionáveis, são então traduzidas em leis terrenas, criando uma teocracia disfarçada onde o dissidente é não apenas um criminoso, mas um pecador. Esta é a armadilha final: a justificativa moral para a opressão política.
Por que a sociedade, de modo geral, se torna vítima? Porque é mais fácil ser vítima do que ser autor. A vítima pode culpar o outro, o sistema, o destino ou até mesmo Deus. O autor, aquele que assume sua liberdade, não tem a quem culpar senão a si mesmo. Esta responsabilidade total aterroriza. A sociedade prefere o conforto do cativeiro ao caos criativo da liberdade.
Não se trata, é claro, de condenar a fé ou a política em si, mas sim a atitude com que nos relacionamos com elas. Uma fé madura é questionadora, humilde, pessoal. Uma política saudável é participativa, crítica e vigilante. O problema nunca foi um Deus ou um Governo; o problema é a nossa renúncia à soberania da nossa própria consciência.
A saída, como apontavam ambos os pensadores, não está em outro dogma, em outra ideologia salvadora. Está no exercício doloroso e glorioso de se libertar de todos os quadros de referência externos e começar a olhar para dentro. É na negação de todas as certezas herdadas que se encontra o único terreno fértil para uma verdadeira revolução interior – a única que pode, de fato, transformar o mundo.
Portanto, a questão central não é “por que há fanatismo?”, mas “por que nós o permitimos?.” Por que trocamos a complexidade libertadora do não-saber pela certeza aprisionante do dogma? A resposta reside no espelho. Enquanto buscarmos a resposta para perguntas que só podem ser respondidas dentro de nossa própria existência, seremos reféns de todo aquele que se oferecer para pensar e crer em nosso lugar.
O engajamento real começa com a recusa. A recusa a ser infantilizado, a ser entretido, a ser guiado. É um trabalho silencioso e solitário de reconstruir a própria mente, livre do medo e da ânsia por respostas prontas. Só então, talvez, possamos nos relacionar com o sagrado e com o político não como fanáticos ou súditos, mas como seres humanos verdadeiramente livres e, portanto, verdadeiramente responsáveis
Ref.:
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 1997.
KRISHNAMURTI, Jiddu. A Libertação dos Condicionamentos. São Paulo: Cultrix, 2014.
CAMUS, Albert. O Homem Revoltado. Rio de Janeiro: Record, 2017.
FROM, Erich. O Medo à Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém. São Paulo: Cia. das Letras, 2011.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. São Paulo: Editora 34, 2017.
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A liberdade assim como o tempo, plumas que pesam toneladas.
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