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A mostrar mensagens de setembro 14, 2025

O ABISMO DA REPRESENTAÇÃO: QUANDO QUEM GOVERNA ESQUECE QUEM REPRESENTA

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Vou ser sincero: tá difícil acreditar. A gente vota, espera, e o que acontece? Quem a gente elege parece sumir num labirinto de interesses que a gente nem consegue entender. E o pior: quando aparecem, é mais pra se defender do que pra nos representar. Cadê a tal da democracia que deveria ser do povo? A verdade é que muitos dos nossos representantes acabam vivendo num mundo paralelo, muito particular. Enquanto muita gente se "vira nos trinta" pra pagar conta, eles brigam por cargos, benefícios e vantagens que nem passam pela nossa cabeça. O mandato, que era pra ser uma prestação de serviço para o povo, vira trampolim para projetos pessoais. E nós? Ficamos lá, assistindo bem de longe. Rousseau já alertava sobre isso no século XVIII: não adianta entregar nossa voz a outros e esperar que nos representem de verdade . No Do Contrato Social, ele é categórico: “a soberania não pode ser representada pela mesma razão que não pode ser alienada” (ROUSSEAU, 1762/2001, p. 89). A vontade...

QUANDO OS LÍDERES VIRAM PERSONAGENS E O POVO PLATÉIA

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O mundo parece ter mergulhado de cabeça num daqueles romances distópicos que a gente lê com um certo distanciamento cômodo, convencidos de que aquela realidade nunca chegaria às nossas portas. Mas eis que ela não só chegou como bateu com força, não com um estrondo, mas com um tuít e. A ascensão de figuras como Donald Trump não foi um acidente histórico, mas o sintoma de uma doença muito mais profunda, que corrói as entranhas das democracias modernas . É o culto à personalidade elevado à enésima potência, onde o ego do líder deixa de ser um traço de personalidade para se tornar a própria estratégia de governo. Esses líderes, veja bem, não governam – eles atuam.  A especialidade é construir realidades paralelas, um mundo onde os fatos são moeda de troca e a verdade não passa de um incômodo a ser eliminado. O grande tabuleiro das relações internacionais, que sempre demandou racionalidade e um mínimo de previsibilidade, foi reduzido a um reality show grotesco, onde humilhar um aliad...

DECIDIMOS TUDO SOZINHOS? A ILUSÃO DA AUTONOMIA HUMANA

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Vivemos tempos estranhos. A promessa de uma conexão infinita, que um dia soou como libertação, hoje se assemelha mais a uma teia invisível que nos aprisiona sem que percebamos os fios. As telas que nos unem são também os muros que nos separam, criando uma solidão barulhenta, cheia de notificações, mas sem nenhum sentido. A promessa de conexão total se mostrou uma grande farsa. Estamos o tempo todo ocupados, conversando com dez pessoas ao mesmo tempo, mas no fundo é um deserto. Você já parou para calcular o que estamos trocando por essa suposta conveniência? Me Lembra uma ideia do filósofo Paul Ricoeur que sempre me assombra. Em "O Si-mesmo como um Outro" (1991), ele defende que quem "nós somos é construído no espelho que é o outro ." Nossa narrativa pessoal é uma história que se escreve a duas mãos, na troca de palavras, olhares e presença. A tecnologia, ao intermediar e muitas vezes substituir esse encontro cara a cara, nos empurra para uma armadilha: a de começa...