O VAZIO QUE TENTAMOS PREENCHER COM INSENSATEZ
Há um momento, quase imperceptível, em que nos damos conta de que estamos a interpretar um papel num palco cujo cenário desmorona a cada fala. Percebemos que a maior parte da energia humana é despejada na construção de degraus frágeis para sustentar o que já ruiu por dentro: as nossas certezas, os nossos deuses, os nossos sentidos emprestados. Somos os únicos animais que pagam para comprar a própria jaula, e depois chamamos de templo.
Vivemos obcecados com a busca de um manual de instruções que nunca foi incluído na embalagem. Esta ânsia por um sentido pré-fabricado é o que move a nossa mais profunda insensatez. Atiramo-nos de cabeça para narrativas que nos prometem um final feliz, um spoiler cósmico que justifique toda a dor, todo o tédio, toda a absurdidade de acordarmos todos os dias para repetir, com variações mínimas, os mesmos rituais. Schopenhauer talvez risse deste nosso frenesi: condenados a ser a manifestação de uma vontade cega, saltamos de desejo em desejo, como um burro a correr atrás de uma cenoura presa à própria testa.
A fé cega, seja ela religiosa, científica ou ideológica, é a muleta preferida para quem se recusa a aceitar que se pode dançar sem saber os passos. É menos aterrador acreditar num conto de fadas divino ou numa utopia política futura do que encarar a possibilidade gritante de que o único sentido é aquele que inventamos no calor do momento, entre um gole de café e a notícia seguinte do apocalipse. Preferimos a cilada da resposta fácil à liberdade angustiante da pergunta permanente.
E vem Nietzsche e nos alertar para o perigo de olharmos para o abismo e o abismo olhar de volta. Mas a nossa tendência é pior: olhamos para o abismo e rapidamente pintamos nele um arco-íris, ou então crucificamos alguém à beira do precipício para nos distrair da vertigem. A necessidade de criar bodes expiatórios, de encontrar culpados para o mal-estar da existência, é talvez o nosso espetáculo mais grotesco. A ignorância não é a falta de conhecimento; é a recusa ativa de saber, porque saber exige que sejamos responsáveis.
E assim, vendemos a nossa autonomia por uma promessa de conforto. Entregamos o nosso pensamento crítico a gurus, a algoritmos, a líderes carismáticos que nos sussurram exatamente o que desejamos ouvir: que somos especiais, que o universo conspira a nosso favor, que há um plano. A preguiça mental é o pecado capital da modernidade. É mais fácil aderir a um dogma do que suportar o peso da própria liberdade, como bem disse Sartre. Estamos condenados a ser livres, e por isso inventamos novas e mais criativas formas de nos algemarmos.
A publicidade não vende produtos; vende identidades. A religião não vende paz; vende significado. A política não vende governação; vende inimigos. Tudo é um paliativo para o desespero mudo que nasce da pergunta: “E se nada disto importar?”. Corremos em círculos, compramos coisas, mudamos de parceiro, mudamos de ideologia, atuamos nas redes sociais, na esperança de que o ruído externo abafe o silêncio interno que sussurra a verdade mais perturbadora: a de que estamos sozinhos neste barco.
Até o nosso ócio se tornou uma forma de produção. Meditamos para sermos mais eficientes no trabalho, lemos livros de autoajuda para otimizarmos a nossa tristeza, praticamos mindfulness para melhor suportarmos a pressão de um sistema que nos esmaga. Até a fuga se tornou mercadoria. Nós apropriamos de tradições milenares, como o budismo, e transformamos em mais uma ferramenta para anestesiar o sintoma, em vez de confrontar a doença: a ilusão do eu.
Pois é isso que está no cerne de tanto desvario: a crença inabalável na solidez deste “eu” que pensa, que sofre, que deseja. Os ensinamentos budistas há milénios que nos tentam alertar: este “eu” é uma construção transitória, um agregado de sensações, memórias e desejos em constante fluxo. Nós apegamos a ele como se fosse uma entidade fixa, eterna que é a fonte de todo o sofrimento. E no entanto, erguemos impérios, travamos guerras e destruímos o planeta em nome da defesa e glorificação desta miragem.
O absurdo, então, não é que a vida não tenha um sentido. O absurdo é que insistimos em procurar um sentido grandioso e externo, quando a única coisa que se apresenta é a possibilidade de estarmos presentes na nossa própria experiência, por mais mundana que seja. A beleza está no efémero, não no eterno. A aceitação não é resignação; é a coragem de ver o mundo como ele é, sem os óculos cheio de cores da negação.
O desespero humano é, paradoxalmente, a nossa mais bonita característica. Ele é o sintoma de que conseguimos vislumbrar um horizonte de possibilidade para lá das prisões que construímos. O problema não é o desespero; é a vontade de o silenciar rapidamente com qualquer certeza que se apresente, por mais tóxica que seja. A maturidade espiritual e intelectual começa não quando encontramos as respostas, mas quando perdemos a fé nas respostas simples.
Aceitar o vazio não é cair no niilismo. Pelo contrário. É só a partir do vazio que algo verdadeiramente novo pode surgir. É a partir do silêncio que uma nova música pode ser composta. Encher o vazio com dogmas é como encher de cimento uma semente prestes a germinar. A impedimos de crescer, mas ganhamos a ilusão de controle sobre a terra.
A verdadeira revolução é interior. É a coragem de desmantelar, um a um, os ídolos que erguemos dentro de nós. É questionar tudo, especialmente aquilo em que mais desejamos acreditar. É abraçar a perplexidade e a dúvida não como inimigas, mas como as únicas companheiras honestas numa viagem sem mapa.
No fim, talvez sejamos como aqueles personagens de Beckett, à espera de um Godot que nunca virá. A insensatez está em esperar por ele. A sabedoria pode estar em perceber que a peça de teatro interessante não é a sua chegada, mas o que fazemos uns com os outros enquanto esperamos. As conversas, os conflitos, os momentos de ternura absurda e de raiva infundada. Isso é real. O resto é conversa fiada.
Não há salvação. Não há iluminação final. Há apenas este momento, com a sua crueza e o seu potencial. A escolha é sempre a mesma: afogarmo-nos no ruído das nossas próprias construções mentais ou aprendemos a caminhar no silêncio. Tudo o resto é, como diria o outro, conversa para boi dormir. E nós somos os bois e os criadores da conversa. Vamos acordar!
Ref.:
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Lisboa: Livros do Brasil, 2020.
SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2021.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Porto: Porto Editora, 2019.
HANH, Thich Nhat. O Milagre do Mindfulness. Alfragide: Lua de Papel, 2017.
BECKETT, Samuel. À Espera de Godot. London: Faber & Faber, 2006.
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Lisboa: Livros do Brasil, 2018.

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