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A SOMBRA DO DIVINO: OS DEUSES ABANDONARAM A NOSSA INFELICIDADE?

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Em tempos imemoriais, o trovão era a voz irada de um deus, e a seca, seu castigo silencioso. Hoje, diante dos cataclismos que acontecem no mundo, o céu parece não mais um trono, mas um abismo indiferente. A pergunta sussurra na alma atormentada pela infelicidade coletiva: por onde andam os deuses na infelicidade humana? Talvez eles nunca tenham habitado o Olimpo ou o firmamento, mas sim o vazio primordial que precede a própria criação. Anaximandro de Mileto postulava que a origem de tudo era o Ápeiron , o Ilimitado, “o princípio das coisas que são […] donde vem a geração às coisas que são, e para onde tendem também a destruição, segundo a necessidade” (DK 12 A 9). Neste princípio infinito e impessoal, a infelicidade não é um desvio, mas uma parte intrínseca do ciclo de geração e corrupção, um débito que todas as coisas pagam à ordem cósmica pela sua existência individual. A procura por uma resposta nos leva a interrogar se a infelicidade é a prova da ausênci...

O VAZIO QUE TENTAMOS PREENCHER COM INSENSATEZ

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Há um momento, quase imperceptível, em que nos damos conta de que estamos a interpretar um papel num palco cujo cenário desmorona a cada fala.  Percebemos que a maior parte da energia humana é despejada na construção de degraus frágeis para sustentar o que já ruiu por dentro: as nossas certezas, os nossos deuses, os nossos sentidos emprestados. Somos os únicos animais que pagam para comprar a própria jaula, e depois chamamos de templo. Vivemos obcecados com a busca de um manual de instruções que nunca foi incluído na embalagem. Esta ânsia por um sentido pré-fabricado é o que move a nossa mais profunda insensatez. Atiramo-nos de cabeça para narrativas que nos prometem um final feliz, um spoiler cósmico que justifique toda a dor, todo o tédio, toda a absurdidade de acordarmos todos os dias para repetir, com variações mínimas, os mesmos rituais. Schopenhauer talvez risse deste nosso frenesi: condenados a ser a manifestação de uma vontade cega, saltamos de desejo em desejo, como um ...