DEUS DO ANTIGO TESTAMENTO E O VERDADEIRO DEUS

Muitas pessoas frequentam templos para adorar, cantar hinos e buscar forças para o dia a dia. Isso é bonito. Mas é importante lembrar que a essência da fé não está apenas no culto, mas principalmente no serviço ao próximo - em sair de um templo e fazer o melhor que pudermos para ajudar o outro. Infelizmente, o que vemos com frequência são religiosos que se dizem cristãos, mas vivem longe dos ensinamentos de amor, perdão e compaixão ensinados pela figura de Jesus, na sua historicidade.

Ao longo da história, em nome da religião, cometeram-se muitos crimes. Pessoas como a filósofa e astrônoma Hypatia de Alexandria foram brutalmente mortas por cristãos fanáticos. Giordano Bruno foi queimado vivo por defender ideias científicas e espirituais que contrariavam o poder da Igreja. Galileu foi condenado por dizer que a Terra girava em torno do Sol. Ou seja: muitos que dizem servir a deus - que ao que parece, é um deus do "povo escolhido", acabaram, na prática, lutando contra a luz do conhecimento.

E há uma questão que precisa ser abordada com coragem: a imagem que muitos fazem de deus vem, principalmente, do Antigo Testamento - onde encontramos um deus que escolhe um povo para ser seu e despreza os demais, que manda matar homens, mulheres e crianças, que exige sacrifícios, que se mostra ciumento, colérico e vingativo. Esse deus era temido e seu nome, em certas culturas, nem mesmo podia ser pronunciado (façamos um paralelo com os deuses da antiga Grécia em se tratando de emotividade e comportamento).

Mas será que esse é o deus verdadeiro?

Segundo os antigos pensadores gnósticos — grupos que buscavam o conhecimento espiritual além da letra fria das escrituras —, o deus descrito no Antigo Testamento não era o deus supremo, mas sim uma espécie de "deus menor", conhecido como demiurgo - do grego δημιουργός, "artesão." Esse ser poderoso, mas limitado e autoritário, teria criado o mundo material e imposto regras duras, se apresentando como o único deus. Para os gnósticos, o verdadeiro deus é puro amor, luz e consciência — algo que está muito mais próximo do que Jesus revelou em seus ensinamentos, como assim está nos escritos bíblicos.

Jesus, em se provando sua historicidade, ao contrário do deus guerreiro, ciumento e genocida do Antigo Testamento, - “...Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver; e não lhes perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos.” (1 Samuel 15:3). “Porém, das cidades destas nações (Israel, entre elas?) que o Senhor teu Deus (deus de quem?) te dá por herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Antes destrui-las-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos ferezeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor teu Deus.” (Deuteronômio 20:16-17) falou de amor aos inimigos, de perdão sem medida, de misericórdia acima da lei. Ele desafiou os rituais do templo, se aproximou dos marginalizados e pregou um deus que é pai - não um senhor de exércitos.

Isso nos faz pensar: será que não houve, ao longo do tempo, uma grande confusão (ou um propósito) entre o deus que liberta e o "deus" que domina?

A fé verdadeira não deve ter medo de fazer perguntas. Ela não se ofende com o questionamento sincero. Conhecer as origens da Bíblia, os contextos históricos e as interpretações ao longo do tempo é essencial para não se cair em fanatismos ou cegueiras espirituais.

Se deus é amor  (o "deus do povo judaico" ao que parece), como diz o apóstolo João — então tudo o que promove o ódio, a exclusão ou a violência precisa ser revisto. Fé que não se transforma em compaixão e serviço ao próximo é apenas religiosidade vazia. O mundo não precisa de mais adoradores em rituais, mas de mais servidores em ação.

A análise precisa ser crítica. Se não for, então, que "...as mulheres que continuem subjugadas ao seus maridos", que "...apedrejem a adúltera (e não ao adúltero", entre outros descalabros. Mas, como está escrito: "...e Deus se arrependeu de haver feito o homem (Gênesis 6:6), porém para logo em seguida afirmar: "...Deus não é homem para que se arrependa" (Números 23:19). 

Ah, o contraditório...


Texto do autor 


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