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CIORAN E O ABISMO QUE NOS OLHA

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Quando a história grita, depois vem aquele silêncio pesado.  Não é paz, é um buraco mesmo, tipo o eco do que sobrou depois do caos. E aí, bem no meio da bagunça que a gente faz as desculpas mal contadas, aparece Cioran com aquele olhar seco, sem dó, jogando realidade na nossa cara. Não tá ali pra salvar ninguém, só pra esfregar a sujeira que a gente tentou esconder debaixo do tapete. No tal do Breviário de Decomposição , Cioran basicamente destrói essa conversa de que o mal é só uma ideia abstrata. Pra ele, fazer besteira é rotina, é quase instinto. Todo ser vivo, de algum jeito, pisa no outro, mata, usa, abusa. Não é teoria de bar, é só olhar em volta. Rousseau  estava lá sonhando com humanidade boazinha, utopia de comercial de margarina, enquanto Cioran já enxergava a sociedade como um circo louco, onde todo mundo mostra o pior de si. Lembra do Voltaire querendo que a razão resolvesse tudo depois do terremoto em Lisboa? Cioran ri disso. Ele não pergunta “por que existe o m...

POR QUE EU SOU EU E NÃO O OUTRO? O ESPELHO SEM REFLEXO

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Há perguntas que surgem nos momentos mais improváveis, não é mesmo? Aquela quietude no trânsito, o silêncio da madrugada quando o sono te abandona, ou simplesmente ao olhar no espelho e se deparar com um estranho familiar.  De onde vem essa sensação íntima e ao mesmo tempo tão vasta de ser quem se é? Por que esta consciência, estes pensamentos, este ‘eu’ habitam este corpo e não o seu, ou o de qualquer outra pessoa que cruza a rua?   Não se preocupe, não tenho a resposta definitiva. Ninguém tem. Mas a jornada para tentar esbarrar nela talvez seja o que nos torna mais humanos.  Voltem os olhos para onde tudo começou, muito antes de Freud ou dos manuais de auto ajuda. Os pré-socráticos, aqueles primeiros filósofos gregos, já mastigavam essa angústia primordial. Parmênides, por exemplo, afirmava que o ser é, e o não-ser não é. Parece óbvio, mas é profundo: a simples existência do ‘eu’ é um fato incontornável, a primeira e mais verdadeira de todas as certezas. É o pont...

QUANDO AGARRAR-SE DEMAIS NOS CONSOME

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Vivemos grudados. Nas coisas que acumulamos, nas pessoas que idealizamos, nas certezas que construímos tijolo por tijolo – como se fossem muralhas contra o caos. Esse apego, ah, parece tão natural... um porto seguro, um ponto fixo num mundo que não para de girar. Mas e se esse porto for uma ilusão? E se, ao nos agarrarmos com unhas e dentes, estivermos apenas cavando mais fundo a nossa própria armadilha? Figuras tão distintas quanto o sombrio Schopenhauer , o cáustico Cioran e os antigos sábios budistas, cada qual a seu modo, martelam numa ideia incômoda: o sofrimento que tanto lamentamos brota, com frequência, desse nosso agarrar-se desesperado. Dessa ânsia de possuir, controlar, eternizar o que é, por natureza, fugidio. Schopenhauer via o coração da vida como uma "Vontade". Não uma vontadezinha qualquer, mas uma força cega, insaciável, um monstro faminto morando dentro de nós. Essa Vontade é o motor. Ela nos empurra, sem descanso, na direção do desejo: mais dinheiro, mais...

QUANDO DEUS SOBE NO PALANQUE

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A religião sempre foi um espelho deformado da condição humana . Ela promete sentido no caos, consolo na dor, um fio de luz na escuridão que nos envolve desde o nascimento. Mas quando esse espelho é erguido nos palcos da política, ele distorce a realidade. O que deveria libertar se transforma em corrente; o que deveria iluminar se converte em sombra. Cioran descreveu a fé como um anestésico para a consciência, um bálsamo que nos permite suportar a dor de existir. Mas toda anestesia tem preço. Um povo anestesiado pelo conforto de ilusões torna-se dócil, facilmente guiado por mãos que sabem misturar promessa divina e autoridade humana. O governo que fala em nome de Deus não governa cidadãos; governa fé disfarçada de poder. Nietzsche foi ainda mais direto: o cristianismo é a moral dos escravos. Ensina resignação, subordinação e paciência diante da injustiça. A política, consciente dessa docilidade, usa a fé como muleta. Quanto mais o povo espera recompensas em outro mundo, menos ele ques...

A RELIGIÃO INCULTA PERVERTIDA NO PALCO DO ABSURDO

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 A sensação de desarranjo parece pairar no ar, mais densa a cada manhã. Não são apenas crises pontuais, aquelas que os livros de história registram como capítulos isolados. É como se o próprio chão da normalidade tivesse rachado, e agora pisamos em terreno movediço, onde o absurdo se disfarça de cotidiano. As notícias, um cortejo interminável de conflitos e catástrofes, já não causam espanto, apenas um cansaço mudo. Schopenhauer talvez visse nisso a confirmação sombria de seu mundo como pura Vontade, cega e insaciável, devorando-se a si mesma num espetáculo sem sentido. O palco global parece refletir essa luta cega, onde a razão é a primeira vítima. Em meio a essa turbulência, velhas ferramentas de consolo se transformam em armas contundentes. A religião, que para alguns ainda guarda um refúgio de transcendência, é frequentemente sequestrada por discursos de ódio e exclusão. Assistimos, atônitos ou já anestesiados, a atrocidades cometidas em nome do sagrado. Como Cioran ironizar...

ACORDAR CHORANDO PORQUE AINDA NÃO ENTENDE COMO DESAPARECER

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Esta frase não está nos livros de autoajuda . Nunca se falou tanto em autocontrole, serenidade, aceitação. Seja forte, dizem, respira fundo, não reaja, não reclame. Engole seco e siga. É o mantra do nosso tempo. A verdade é, nem todo mundo consegue suportar a vida com compostura. E talvez não devesse mesmo. Quantas vezes você já viu alguém quebrar em mil pedaços e ouvir: "Você precisa ser forte". Quantas vezes alguém perdeu o filho, foi traído, humilhado, destruído? E a resposta foi: aceite, você não controla o mundo, só suas reações. Parece justo, parece sábio, mas é real? Você deve olhar pro horror e dizer: "Sim, isso é insuportável e que isso seja o bastante." Dizer a alguém em luto: "aceite", é da vida." É o mesmo que dar um copo de água a alguém que está se afogando. É o tipo de consolo que alivia quem diz, nunca quem ouve, porque há dores que não cabem em molduras filosóficas.  Há uma arrogância disfarçada de serenidade em quem tenta transformar...

A ESTUPIDEZ HUMANA - PEQUENAS PALAVRAS

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Afinal, porque ainda cometemos todos os mesmos erros? Por que decisões estúpidas voltam a se repetir e se repetir nos governos, religiões, empresas e, até mesmo, dentro de casa? A resposta, é claro, é: a estupidez . Mas aqui você precisa entender, estamos falando sobre burrice, no sentido literal da palavra, ou sobre algo específico? Tentarei responder a perguntas e discutirei, em parte, as ideias de estupidez de três dos maiores pensadores do conhecimento moderno - Emil Cioran , Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche .  Se o filósofo romeno, Emil Cioran, conhecido por seu extremo pessimismo estiver certo, a consciência é um castigo. Quando pensamos em demasia, sofremos demasiado. Quando nem mesmo paramos para pensar e vivemos automaticamente, não nos intimidamos e paramos de nos questionar, parecemos mais leves, mais “adaptados” ao absurdo dessa vida . Mas aqui também, talvez seja a razão. Afinal, esses “adaptados” chegam ao poder. E aqui está o perigo -  a estupidez é...