GAZA, O MUNDO E A ESPIRAL DO SILÊNCIO

Alguns conflitos… ah, eles não desaparecem com o tempo. Não mesmo. Eles apenas se aprofundam. E não estão apenas no território - estão na gente, na cabeça, no coração. Tornam-se familiares, quase invisíveis, e a pergunta que muitas vezes nem ousamos fazer é simples: afinal, o que ainda está em jogo? Por que um governo insiste em caminhos cada vez mais isolados? E o que isso diz sobre nós, quando assistimos à tragédia se desenrolar lentamente, ano após ano, entre condenações vazias e uma falta de ação que, se pudesse gritar, ensurdeceria qualquer explosão?

O problema vai muito além das disputas territoriais. É como estar num laboratório onde forças humanas primordiais - medo, poder, fé e ideologia - se chocam com a frágil arquitetura do direito internacional. As resoluções da ONU, nesse cenário, mais parecem notas à margem de um livro de horror, ignoradas por quem dita o roteiro, guiado por uma lógica própria que o mundo insiste em não compreender… ou mais simples ainda: não queira enfrentar.

Zygmunt Bauman, com sua visão perspicaz, criou o termo “modernidade líquida” para descrever nossa era, um tempo em que instituições, empregos, laços comunitários se dissolvem, tornando tudo instável e profundamente inseguro (BAUMAN, 2001, p.7). Nesse terreno movediço, nasce o medo líquido, um temor difuso, sem rosto, que se infiltra silencioso por todos os cantos da vida, muitas vezes sem que percebamos.

Para Israel, Estado marcado pelo trauma e pela memória da perseguição, administrar esse medo tornou-se obsessão. Os ataques a Gaza, justificados como defesa, revelam uma tentativa desesperada de solidificar fronteiras em um mundo sem garantias. É a busca por uma solução concreta para um medo que, por natureza, é difuso e impalpável - mas que, ironicamente, tem nome, endereço e muitos corpos.

Será apenas o medo que move essa máquina de guerra? Friedrich Nietzsche nos lembra que devemos desconfiar das narrativas oficiais e procurar a vontade de poder que se oculta por trás de toda moral (NIETZSCHE, 2007, p.45). Sob essa lente, a retórica da “guerra justa” começa a ruir. Quando hospitais, escolas, água potável se tornam alvo, não se trata mais de defesa, mas de dominação.

Essa dominação se apresenta nua e crua, como uma afirmação de soberania: “nossa segurança vale qualquer preço… mesmo que seja o outro a pagar.” A retórica oficial não consegue mais disfarçar a brutalidade. Para alguns, a vida alheia tornou-se apenas uma variável na equação do poder.

E é nesse ponto que a palavra genocídio emerge, carregada de um peso histórico que não suportamos. Hannah Arendt nos lembra que o mal profundo pode brotar de uma burocracia insensível, daquelas que passo a passo cria condições para a destruição (ARENDT, 2018, p.352). O cerco a Gaza, o controle minucioso de cada comida, cada litro de água, cada medicamento, seguido de bombardeios sistemáticos, não é apenas guerra. É administração do sofrimento, negação da vida, antítese da pluralidade humana.

E o mundo… onde está? A comunidade internacional, longe de neutra, torna-se cúmplice por omissão. Resoluções se transformam em sugestões, apelos à moderação soam hipócritas diante do estrondo das explosões, e a ONU, esvaziada de poder coercitivo, observa seu papel se reduzir a pó, junto com os escombros de Gaza. Não é falha do direito internacional; é prova de que, sem vontade política, ele é quase nada.

Fico tremendamente chocado ao perceber que, em meio a tudo isso, setores de evangélicos brasileiros não apenas apoiam, mas celebram a carnificina. Desconectados da realidade e guiados por leituras distorcidas de textos tidos como sagrados, transformam pessoas reais em peças de um jogo divino. Palestinos tornam-se danos colaterais; judeus, atores de um roteiro cujo final não controlam. Esse apoio nasce da ignorância, do fanatismo, e alimenta moralmente a máquina de guerra: “sigam em frente, Deus está com vocês.”

O que se destrói em Gaza não são apenas edifícios; é o futuro. Gerações crescem marcadas pelo trauma e pelo ódio, tornando qualquer solução política de coexistência cada vez mais distante. Bauman indicaria que se trata de fuga para soluções definitivas e violentas, num mundo que exige diálogo, flexibilidade e coragem (BAUMAN, 2001).

A pergunta que ecoa, silenciosa e pesada, é: até quando? Até quando um projeto nacional se sustentará sobre a ruína de outro povo? Até quando a vontade de poder, vestida com roupas de segurança e abençoada por fé distorcida, ditará o ritmo de uma tragédia que envergonha nossa humanidade?

A resposta não está nos palácios da diplomacia. Está soterrada sob os escombros de Gaza, nos olhos das crianças que nascem sob bombardeios. Está no julgamento da história, que não será generosa com aqueles que, tendo poder, optaram por virar o rosto.

Gaza não é apenas um conflito; é um teste. Um teste à nossa capacidade coletiva de dizer “basta”. E, até agora, estamos falhando de forma monumental. A inação prolongada transforma o sofrimento em rotina e corrói a nossa consciência.

O cerco a Gaza não é apenas militar, é também psicológico e moral. Cada restrição, cada bloqueio, cada destruição organizada atua como instrumento de dominação e controle, mostrando que o sofrimento pode ser sistematizado, medido e administrado. É uma tragédia que não se resolve com acordos diplomáticos superficiais; exige reflexão, coragem e ação.

Por fim, a responsabilidade recai sobre todos nós. A comunidade global, os líderes mundiais, e até nós, cidadãos atentos ou indiferentes, somos testados pela magnitude dessa crise. O que acontece em Gaza não é apenas uma guerra; é um espelho de nossa humanidade - e até agora, mostra que estamos longe de sermos generosos, corajosos e justos o suficiente.


Imagem: MSF Brasil


Ref.:

NIETZSCHE, Friedrich. On the Genealogy of Morality. Cambridge University Press, 2007.
ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. Companhia das Letras, 2013.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Zahar, 2001.
PAPPÉ, Ilan. A Limpeza Étnica da Palestina. Editora Sundermann, 2017.


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