O PÓ, O SILÊNCIO E AS PEQUENAS VIDAS EM GAZA

Quando o sol surge no horizonte e atravessa aquele caldo de poeira e fumaça em Gaza, já se foi a bela  paisagem de sempre. O que ele clareia agora é só destroço. Montanhas de concreto triturado que, não faz nem tanto tempo assim, eram casas, escolas, pequenos mercados e hospitais. Onde antes tinha vida – buzina, criança correndo, vizinho gritando no portão - agora virou cemitério a céu aberto, um atrás do outro. Agora, o vento que vem do mar só carrega cheiro de pólvora e fumaça.

E tudo isso não caiu do céu do nada – tem uma origem sangrenta, bem marcada: os ataques violentos do Hamas contra civis israelenses lá em 7 de outubro. Aquele dia foi puro terror, morte sem critério, gente sequestrada. A partir dali, apertaram o botão de destruição. A dor das famílias israelenses, que é real, de cortar o coração, virou munição pra justificar uma resposta militar descomunal, sem limite, sem diferença entre quem fez ou quem só  estava ali tentando viver. Honestamente? Perdeu-se qualquer noção.

Eu nem sei por onde começar. No meio desse pesadelo todo, tem uma coisa que grita mais alto que qualquer discurso: o massacre das crianças palestinas. É impossível engolir isso como se fossem só dados frios de algum gráfico. Não são porcentagens, não são estatísticas. São crianças de verdade. Têm nomes, têm aqueles sorrisos tortos, têm brinquedos que sumiram no meio dos escombros, têm pesadelos que ninguém vai conseguir abraçar até sumirem, têm futuros que evaporaram num estalo. Cada número que jogam na tela é tão absurdo que parece piada de mau gosto, mas atrás dele tem sempre uma história interrompida, uma família que nunca mais vai ser inteira.

E, olha, por mais que a violência do Hamas tenha detonado tragédias enormes em Israel – e detonou mesmo, ninguém está negando – quem ficou no olho do furacão em Gaza foram justamente as crianças que não têm nada a ver com isso tudo. Inocentes, jogadas no meio de uma tempestade de bombas e tiros, como se fossem peças descartáveis de um jogo perverso. Isso aí não dá pra explicar, não dá pra justificar. É só uma ferida aberta, latejando, que ninguém tem ideia de como vai cicatrizar.

Imagine acordar todos os dias sabendo que o simples ato de existir, de estar dentro de suas próprias paredes, é um risco mortal. É essa a realidade para as famílias em Gaza. Não há fronteiras seguras, não há abrigos infalíveis quando a potência de fogo despejada é tão avassaladora. Bombas de grande porte, explosivos que nivelam quarteirões inteiros, não discriminam entre combatente e criança dormindo em sua cama. A lógica da "resposta" ao Hamas transformou bairros residenciais inteiros em alvos legítimos. A noção de "dano colateral" torna-se obscena quando os "danos" são bebês desmembrados, meninas e meninos enterrados vivos sob toneladas de entulho ao lado de suas famílias inteiras.

Os hospitais, outrora santuários de cura, transformaram-se em cenários de horror indizível. Corredores inundados não de água, mas de sangue. Salas de cirurgia operando no chão, sem anestesia, sob luzes de celulares. O choro de crianças feridas, muitas vezes órfãs, ecoando em corredores superlotados, competindo com o ronco dos geradores à beira da falência. Médicos e enfermeiros, exaustos física e emocionalmente, enfrentam escolhas impossíveis: qual criança salvar primeiro quando os recursos são menos do que mínimos? Ver uma criança morrer por falta de um antibiótico básico ou de uma bolsa de sangue é uma tortura diária para esses profissionais. O cerco implacável, intensificado após outubro, impede a entrada de suprimentos médicos essenciais, condenando os feridos.

E o que dizer dos que sobrevivem fisicamente? O trauma infligido à uma geração inteira é uma catástrofe dentro da catástrofe. Crianças que viram pais, mães, irmãos, amigos serem esmagados, despedaçados, desaparecerem. Que passam noites em claro, tremendo a cada estrondo, mesmo longe da linha de frente. Que desenham tanques e aviões em vez de flores e casas. Que perderam não apenas a infância, mas a capacidade de sentir segurança, confiança, ou mesmo esperança. O medo está cravado em seus olhos, uma sombra que pode durar uma vida inteira. O trauma do 7 de outubro em Israel é real, mas a resposta gerou um trauma coletivo e massivo em Gaza que moldará negativamente incontáveis futuros.

A fome, companheira cruel da guerra, também escolhe suas vítimas mais vulneráveis. Crianças definham à vista de todos, barrigas inchadas, ossos salientes, fraqueza extrema. A desnutrição severa não apenas enfraquece o corpo contra doenças, mas compromete irreversivelmente o desenvolvimento cerebral. Mesmo que a guerra termine amanhã, o legado de fome crônica assombrará o futuro de Gaza por décadas, condenando sobreviventes a deficiências físicas e cognitivas. Ver um pai implorar por um pão, uma lata de leite em pó, para ver seu filho não morrer de fome, é uma humilhação que dilacera a alma. O bloqueio, radicalizado após os ataques do Hamas, transformou a insegurança alimentar em fome deliberada como arma de guerra.

O mundo assiste. Vê as imagens chocantes que, por vezes, escapam do bloqueio de comunicação. Assiste aos números de mortos subirem, dia após dia, com uma parcela obscena sendo sempre crianças. E, ainda assim, o fluxo de armas que alimenta a máquina de morte continua sem parar. As condenações em fóruns internacionais soam cada vez mais vazias, cínicas, enquanto os caminhões de ajuda humanitária essencial são bloqueados ou têm seu acesso severamente restrito. A sensação de abandono, de que a vida palestina, especialmente a vida das crianças palestinas, vale menos, é esmagadora e desumanizante. A violência do Hamas é citada incessantemente para justificar ou silenciar diante da carnificina atual, como se uma atrocidade apagasse a outra.

Há pais que já não choram. Acabou-se o pranto. O desespero transformou-se numa apatia gelada, um mecanismo de sobrevivência diante de perdas tão numerosas e brutais. Segurar o corpo minúsculo e sem vida de um filho, envolto num lençol ou num pedaço de plástico qualquer, porque caixões são um luxo do passado, é uma experiência que destrói algo fundamental dentro de uma pessoa. A normalidade é um conceito extinto. O luto é coletivo, constante e interrompido pela luta diária pela sobrevivência básica. O trauma inicial de outubro reverbera agora na dor infinita de milhares de famílias palestinas que nada tinham a ver com os ataques.

Tudo caiu por terra, sem dó nem piedade. Arrasaram escolas, universidades, bibliotecas - tudo aquilo que deveria segurar o futuro em pé virou pó. Onde era pra ter criança aprendendo tabuada ou lendo poesia, só restou escombro, poeira, e aquele cheiro horrível de destruição. Não precisa ser gênio pra entender o recado: não tão só acabando com quem tá ali agora, mas estão detonando qualquer chance de amanhã ser melhor. Educação? Sonho de outra vida.

A comunidade internacional falha. Falha redondamente. Os repetidos apelos por um cessar-fogo humanitário duradouro, pela proteção incondicional de civis, pelo livre acesso de ajuda, são ignorados ou sabotados por interesses geopolíticos e alianças estratégicas. O direito internacional humanitário, concebido após horrores passados para proteger exatamente os mais vulneráveis em conflitos, é pisoteado diariamente com impunidade. A impotência das instituições criadas para manter a paz e a segurança é patente e condenável. A condenação universal ao Hamas não se traduziu em ação eficaz para travar a matança de inocentes em Gaza.

O cerco implacável, que precede o atual banho de sangue, já havia colocado Gaza sob enorme pressão. A atual ofensiva multiplicou essa pressão exponencialmente, transformando o enclave numa prisão a céu aberto onde o bombardeio é constante e a fuga, impossível. As pessoas estão encurraladas, sem para onde correr. As ordens de evacuação, quando dadas, são frequentemente contraditórias ou levam a zonas igualmente bombardeadas. É uma armadilha mortal sem saída. A resposta militar, usando o ataque do Hamas como justificativa total, criou uma situação de cerco e bombardeio onde civis, especialmente crianças, são presas fáceis.

O ataque a Rafah, o último reduto onde mais de um milhão de deslocados se amontoavam em condições desumanas, mostrou que não há limite para o sofrimento que pode ser infligido. Ameaças de uma operação terrestre em larga escala nessa área superlotada geram um terror prévio inimaginável. Onde exatamente essas famílias, já deslocadas múltiplas vezes, já tendo perdido tudo, deveriam ir? O mar? O deserto? É a negação final de qualquer refúgio seguro. A busca pelos responsáveis pelo massacre de outubro não pode significar a aniquilação de uma população refém.


Por trás de cada criança morta, há uma história de amor interrompida. Há pais que sonhavam em vê-las crescer, formarem-se, casarem-se. Há potenciais médicos, professores, artistas, engenheiros, agricultores, líderes comunitários que jamais existirão. A perda é individual e coletiva. É uma ferida profunda na humanidade de todos nós. Cada vida perdida diminui nosso mundo coletivo. O assassinato de civis israelenses em outubro foi um crime hediondo. A morte em massa de crianças palestinas desde então é outro crime hediondo. Nenhum justifica ou apaga o outro. O assassinato em massa de inocentes, especialmente crianças, não pode ser validado por nenhuma causa, nenhuma estratégia, nenhuma retórica política ou de segurança. É barbárie. Ponto!

O silêncio ensurdecedor e as justificativas mornas, de muitos líderes mundiais diante desse massacre, será julgado pela história. As gerações futuras olharão para trás e perguntarão: o que foi feito quando as crianças de Gaza eram soterradas vivas, morriam de fome sob os olhos do mundo, eram tratadas como dano colateral aceitável em nome de uma "resposta" que perdeu qualquer ancoragem na defesa ou na humanidade? A compaixão seletiva é uma forma de cumplicidade. A inação diante do mal evidente é uma escolha moral.

Enquanto as bombas continuarem a cair, enquanto as crianças continuarem a morrer por desidratação, infecção ou sob os escombros, enquanto o mundo permitir que isso aconteça em nome de vingar um horror com outro horror ainda maior, todos perdemos um pouco da nossa humanidade. Gaza grita. Grita pelo luto insuportável. Grita pela fome. Grita pelo medo. Grita pela justiça que teima em não chegar. Mas acima de tudo, Gaza grita pelas suas crianças. Pelas pequenas vidas apagadas antes mesmo de florescerem, vítimas de um ciclo de violência que começou com um massacre e se transformou numa carnificina sem fim. 

Ouviremos esse grito? Ou continuaremos a nos abrigar no conforto distante da indiferença, das desculpas vazias e da perigosa lógica de que o sangue de uns inocentes lava o sangue de outros? O peso dessa resposta recai sobre a consciência de cada um de nós. Tudo desmorona. Mas o choro de uma criança por seu pai, por sua mãe, por um pedaço de pão, por um pouco de paz, esse ecoa para sempre. E exige resposta.


Sites consultados em 07 de agosto de 2025:


Relatório de Situação mais recente: https://www.ochaopt.org/
Dados sobre Vítimas Civis (Dashboard): https://www.ochaopt.org/data/casualties
Alertas sobre Fome em Gaza: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9vdpvz0mgro
Relatório IPC - Integrated Food Security Phase Classification: https://www.ipcinfo.org/ipcinfo-website/alerts-archive/issue-71/en/ 
Declarações sobre Gaza: https://www.ohchr.org/en/press-releases/2024/03/gaza-un-experts-appeal-international-community-prevent-genocide-against
Atualizações sobre Gaza: https://www.icrc.org/en/where-we-work/middle-east/israel-and-occupied-territories
Sobre DIH e Proteção de Civis: https://www.icrc.org/en/document/gaza-israel-hamas-hostilities-must-spare-civilians
Relatos e Notícias de Gaza: https://www.msf.org/ghf-run-food-distributions-gaza-are-sites-orchestrated-killing
Crise em Gaza:: https://www.savethechildren.org/us/about-us/media-and-news/2025-press-releases/gaza-nearly-every-single-child-risk-famine
Relato de 6 meses em Gaza: https://www.savethechildren.net/blog/bisan-6-months-war-gaza
Israel/OPT: https://www.amnesty.org/en/latest/news/2025/07/israel-opt-israeli-organizations-conclude-israel-committing-genocide-against-palestinians-in-gaza-in-another-milestone-for-accountability-efforts/
Página sobre Israel/Palestina: https://www.hrw.org/middle-east/n-africa/israel/palestine
Relatório sobre Uso de Fome como Arma: https://www.hrw.org/news/2023/12/18/israel-starvation-used-weapon-war-gaza
Avaliação Preliminar de Danos em Gaza: https://brasil.un.org/pt-br/68349-gaza-onu-precisa-de-620-milh%C3%B5es-de-d%C3%B3lares-para-reparar-casas-e-abrigar-palestinos-durante
B'Tselem  - Centro de Informação Israelense para Direitos Humanos nos Territórios Ocupados: 
https://www.btselem.org  
Ataques do Hamas em 7 de outubro: https://www.csis.org/analysis/hamass-october-7-attack-visualizing-data

Importante: alguns dos sites citados podem estar desatualizados ou fora do ar.





Todos os textos são de propriedade intelectual do autor; do contrário a autoria original será atribuída. Você pode distribuir todos os textos livremente, sem alterações, desde que citada a fonte, com os devidos créditos

Licença Creative Commons

Comentários

Mensagens populares deste blogue

MEU MAIOR ERRO FOI DEIXÁ-LA. MINHA ÚNICA VERDADE É TRAZÊ-LA DE VOLTA

DEUS, RIQUEZA E GENOCÍDIO: OS CRIMES DO MUNDO QUE SE DIZ CIVILIZADO

GAZA, O MUNDO E A ESPIRAL DO SILÊNCIO

DEUS DO ANTIGO TESTAMENTO E O VERDADEIRO DEUS