TRAUMA, MEDO E AUTORITARISMO: UMA LEITURA PSICANALÍTICA DA CRISE NA POLÍTICA
Nem toda crise política começa como uma simples disputa por poder ou recursos. Muitas vezes, o que se rompe primeiro é o sentido compartilhado que sustenta a vida coletiva. Quando instituições perdem credibilidade e discursos antes estáveis deixam de convencer, instala-se algo mais profundo que a divergência: uma espécie de desorientação sobre quem somos e que futuro ainda podemos imaginar juntos. É nesse ponto que a psicanálise se torna uma ferramenta fértil de leitura, pois nos lembra que a política não é movida apenas por cálculos racionais, mas também por afetos, fantasias e medos que nem sempre reconhecemos como nossos. Desde cedo, Sigmund Freud percebeu que os vínculos sociais não se sustentam apenas por ideias, ele mostrou que os grupos se organizam a partir de identificações afetivas, frequentemente centradas em uma figura de liderança ou em um ideal compartilhado. Essa intuição continua atual quando observamos fenômenos como o populismo contemporâneo, em que líderes carismát...