O MAL DISCRETO DA ESTUPIDEZ MODERNA
Há momentos em que a estupidez humana aparece não como um acidente, mas como um modo de ser do mundo - uma vibração subterrânea que percorre as estruturas sociais e os nervos individuais. Não se trata do erro, que ainda carrega a dignidade de um desvio humano, mas de outra coisa: uma espécie de desatenção ontológica, como se parte da humanidade tivesse desistido de olhar para si, preferindo o conforto de respostas prontas à inquietação de pensar. Pascal já advertira: a miséria do homem decorre de sua incapacidade de permanecer sozinho em seu quarto (PASCAL, 2005). Talvez porque ali, no silêncio, somos obrigados a ouvir o rumor de nossa própria finitude, e a estupidez surge justamente como o mecanismo que tenta nos poupar desse encontro. O século XXI intensificou essa tendência ao oferecer um cardápio infinito de distrações, onde as opiniões, desprovidas de lastro, circulam com a velocidade dos impulsos elétricos. Arendt viu na banalidade do mal não uma monstruosidade extraordinári...