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A mostrar mensagens de novembro 30, 2025

O MAL DISCRETO DA ESTUPIDEZ MODERNA

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Há momentos em que a estupidez humana aparece não como um acidente, mas como um modo de ser do mundo - uma vibração subterrânea que percorre as estruturas sociais e os nervos individuais. Não se trata do erro, que ainda carrega a dignidade de um desvio humano, mas de outra coisa: uma espécie de desatenção ontológica, como se parte da humanidade tivesse desistido de olhar para si, preferindo o conforto de respostas prontas à inquietação de pensar. Pascal já advertira: a miséria do homem decorre de sua incapacidade de permanecer sozinho em seu quarto (PASCAL, 2005). Talvez porque ali, no silêncio, somos obrigados a ouvir o rumor de nossa própria finitude, e a estupidez surge justamente como o mecanismo que tenta nos poupar desse encontro. O século XXI intensificou essa tendência ao oferecer um cardápio infinito de distrações, onde as opiniões, desprovidas de lastro, circulam com a velocidade dos impulsos elétricos. Arendt viu na banalidade do mal não uma monstruosidade extraordinári...

QUANDO O CULTO À PERSONALIDADE SABOTA A RAZÃO COLETIVA

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O século XXI parece ter acordado com pressa - e nunca mais saiu desse estado febril. A informação se atropela, as opiniões surgem antes de serem pensadas e, curiosamente, apesar de toda essa hiperconsciência, continuamos presos a algo profundamente antigo. Celebramos o fim dos grandes relatos como quem se liberta de um jugo, mas logo nos ajoelhamos diante de figuras públicas com a mesma devoção que nossos antepassados dirigiam aos seus deuses domésticos. Isso não é exatamente novo; o que é novo é a fulminante velocidade com que fabricamos e destruímos esses ídolos políticos e culturais. O mais inquietante é que parece não ser o líder a questão, mas o vazio que nos leva a buscá-lo. Será que a política contemporânea é apenas um palco atualizado para rituais pagãos que nunca abandonamos de verdade? Não posso deixar de envolver Emil Cioran , que nunca teve medo de tocar na ferida humana, percebeu esse impulso com precisão desconfortável. Em Breviário de Decomposição (1949), ele insiste:...

DO SOL INVICTO AO FILHO DE DEUS: OS CAMINHOS PARA O DIA DE NATAL

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A celebração do Natal em 25 de dezembro parece uma verdade tão arraigada quanto os próprios costumes que a acompanham. No entanto, esse dado aparentemente simples esconde um dos maiores mistérios da tradição cristã. Um mergulho nas fontes mais antigas revela um silêncio desconcertante: os Evangelhos, que narram com detalhes a paixão e a ressurreição, não fazem a menor menção à data do nascimento de Jesus. Esse vazio inicial é o ponto de partida de uma jornada fascinante pela história, pela astronomia e pela política de uma época em que o Cristianismo dava seus primeiros passos em um mundo dominado por outros deuses. A primeira pista documental que associa explicitamente o nascimento de Cristo ao dia 25 de dezembro surge em um antigo calendário romano, o Chronograph do ano 354 E.C., produzido por um escritor romano chamado Fúrio Dionísio Filócalo. Este registro, porém, é tardio. Ele aparece quando o Cristianismo, outrora uma seita perseguida, já se havia transformado na religião ofici...