O MAL QUE HABITA AO LADO - INÉRCIA E OPRESSÃO
A pergunta pela origem do mal não é um mero exercício teológico ou filosófico para ser debatido em torres de marfim. Ela ecoa nos nossos silêncios constrangidos, nas pequenas traições do dia a dia, na frieza com que às vezes ignoramos o sofrimento alheio. De onde vem essa capacidade, tão humana, de causar dor? Será que o mal é uma força externa e sobrenatural, ou algo que brota de dentro de nós, um produto amargo da nossa própria condição?
Há séculos, Sócrates balançou Atenas com uma ideia desconcertante: ninguém faz o mal voluntariamente. Para ele, todo ato prejudicial é, em sua raiz última, um erro de cálculo. A pessoa que pratica o mal sofre de uma profunda ignorância, não de fatos, mas do que verdadeiramente é o bem. Ela confunde seu interesse imediato, seu prazer ou sua segurança com a verdadeira felicidade. Nessa visão, o malfeitor é, antes de tudo, um tolo, um ignorante que precisa ser educado, não apenas punido. É uma visão muito generosa, mas será suficiente para explicar os horrores da nossa história?
Alguns milênios para frente e nos deparamos com Hannah Arendt, uma pensadora que foi obrigada a revisitar a questão de Sócrates diante do Holocausto. Ela observou o julgamento de Adolf Eichmann, um dos, se podemos chamar assim, arquitetos burocráticos da Solução Final. O que ela viu não foi um monstro demoníaco, um ser de maldade radiante e inteligente. Viu um homem terrivelmente normal, medíocre, preocupado com promoções e com a opinião de seus superiores - faz você lembrar de algo semelhante hoje em dia? Eichmann não era um ignorante no sentido estrito do ideário socrático; ele sabia perfeitamente as regras do sistema em que operava. Seu mal era a incapacidade de pensar, de se colocar no lugar do outro, de ver além das ordens e dos papéis.
Arendt cunhou a expressão "a banalidade do mal". O mal, para ela, pode surgir não da malícia pura, mas de uma ausência chocante de pensamento crítico, de uma obediência automática e de uma preocupação patológica com a própria carreira e status dentro de um sistema. É o mal cometido por quem nunca parou para imaginar a realidade do outro, para quem o mundo exterior é uma abstração. Essa é uma das chaves para entender como pessoas comuns, vizinhos aparentemente normais, podem se tornar agentes de atrocidades.
A empatia morre aqui. A empatia não é um botão que se aperta; é um músculo que precisa ser exercitado através da reflexão e da coragem de sentir o desconforto alheio. A mentalidade burocrática e obsequiosa descrita por Arendt é o antídoto perfeito para a empatia. Ela substitui a conexão humana por regras, estatísticas e jargões. O sofrimento de milhares ou talvez milhões, vira "solução de um problema logístico". O outro deixa de ser um alguém para ser um "caso".
Essa erosão da empatia não acontece apenas em regimes totalitários. Ela ocorre silenciosamente nos nossos relacionamentos. Quantas vezes escolhemos ter razão em uma discussão, seguindo rigidamente o "manual" do nosso próprio ego, em vez de nos conectarmos com a dor da pessoa à nossa frente? Quantas vezes nos blindamos com clichês e jargões – "é assim mesmo", "ele que se vire" – para não precisarmos nos envolver com a complexidade e a vulnerabilidade do outro? Esta é a semente do totalitarismo íntimo que cultivamos.
E é exatamente essa semente que os regimes totalitários regam com voracidade. Eles não inventam a falta de empatia; eles a exploram e a amplificam em escala industrial. Eles institucionalizam a "banalidade do mal", criando sistemas onde a obediência é virtude, a questionamento é traição, e o outro é sistematicamente desumanizado através da propaganda. O governo totalitário é a externalização do nosso pior eu: aquele que prefere a segurança da obediência cega ao risco caótico da liberdade e da compaixão.
O grande pensador que foi Jiddu Krishnamurti ofereceu uma perspectiva complementar e profundamente perturbadora. Para ele, o mal – ou o sofrimento – não é um problema a ser resolvido por uma filosofia externa, mas sim o produto direto do nosso próprio egoísmo, da nossa fragmentação interior. O "eu", com seus medos, seus desejos possessivos, suas lealdades tribais, é o centro do conflito. Nós projetamos nossas próprias sombras no mundo, criando inimigos e divisões que justificam nossa violência.
Ele, Krishnamurti, nos desafia a uma revolução interior radical: a liberdade em relação ao conhecido, ou seja, de todo o condicionamento passado – nacional, religioso, cultural – que nos separa uns dos outros. Sem essa libertação, nossa empatia será sempre seletiva e condicional: amo os meus, mas desconfio dos seus. Um governo que prega o "nós contra eles" encontra terreno fértil em mentes já condicionadas a pensar assim.
Portanto, a origem do mal não está em um demônio mítico, mas na nossa relutância em olhar para dentro. Está na nossa preguiça mental, na nossa escolha diária pelo conforto do preconceito em vez do trabalho duro do diálogo. O mal floresce no vácuo do pensamento crítico e da auto investigação.
O antídoto, então, é tão difícil quanto necessário. É o caminho socrático do "conhece-te a ti mesmo". É a coragem de Arendt de pensar sem corrimãos, de julgar por nós mesmos mesmo quando é perigoso. É a revolução interior que Krishnamurti propõe, exigindo que observemos nossas próprias mentes sem julgamento, removendo as barreiras que nós mesmos criamos.
No final, a luta contra o mal não é feita em grandes batalhas, quer sejam elas épicas ou não, mas nos pequenos atos cotidianos. É na escolha de ouvir de verdade um colega, de questionar uma fofoca maldosa - ou, como atualmente, as fake news, de desconfiar de uma simplificação que vilipendia um grupo. É no exercício diário de uma empatia radical que se recusa a ver qualquer ser humano como uma abstração. É uma luta que começa e termina dentro de cada um de nós, e talvez o exercício da empatia seja sempre nosso último fio de humanidade. A escolha sempre está em nossas mãos.
Ref.:
ARENDT, HANNAH. A Report on the Banality of Evil. Penguin Classics, 2006.
KRISHNAMURTI, JIDDHU. The First and Last Freedom. HarperOne, 1975.
PLATÃO. Protágoras; Ménon. Editorial Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

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