DEUS, RIQUEZA E GENOCÍDIO: OS CRIMES DO MUNDO QUE SE DIZ CIVILIZADO
Em alguns casos, tem um certo homem te olhando de dentro da sua carteira, se você tem alguns dólares. Talvez você nunca tenha reparado. Talvez nunca tenha se perguntado por quê. O rosto é duro, sério, quase antipático: Andrew Jackson. Presidente, general, símbolo da expansão dos Estados Unidos. O rosto dele virou sinônimo de valor. Dinheiro. Estabilidade. Confiança. Mas quase ninguém pergunta quanto isso custou, e a quem.
Jackson assinou, em 1830, a Lei de Remoção Indígena. O nome parece técnico, neutro. Não é. Foi a autorização legal para expulsar povos inteiros de suas terras. À força (a famigerada ameaça de sempre). O que veio depois ficou conhecido como a Trilha das Lágrimas. Cerca de quinze mil nativos Cherokees foram obrigados a caminhar. Quatro mil morreram no caminho. Frio, fome, doenças. Não é uma metáfora. É literal. E mesmo assim, o rosto dele continua ali, circulando de mão em mão.
Em algum momento, aprendemos a achar isso normal. Ou, pelo menos, aceitável. Aprendemos a chamar violência de progresso. Roubo de destino histórico. Não começou com armas modernas nem com discursos explícitos de ódio. Começou com palavras bonitas. “Ordem”. “Civilização”. “Conversão”. Palavras que organizam o caos, desde que o caos seja sempre o outro.
O projeto colonial nunca foi só militar. Foi simbólico, religioso, linguístico. Antes de matar, foi preciso desumanizar. O princípio mais básico, que é o valor da vida, foi descartado cedo. Não por acidente, mas por conveniência.
Os números são tão grandes que quase perdem o sentido. Frei Bartolomé de Las Casas tentou evitar isso. No século XVI, escreveu o que viu. Não fez esforço para suavizar. Falou de massacres, torturas, apostas com corpos humanos. Calculou que milhões de indígenas haviam sido mortos em poucas décadas. Milhões. Não por uma catástrofe natural, mas por um sistema organizado de exploração. Isso foi denunciado na época. Não é ignorância posterior. É escolha.
E havia uma justificativa moral. Talvez seja isso o mais perturbador. Em 1630, John Winthrop falou da famosa “Cidade sobre uma Colina”. Um exemplo para o mundo. Mas, se a terra era um presente divino, então quem já vivia nela não podia ser dono legítimo. Virava obstáculo. Problema a ser resolvido. Às vezes com catequese. Muitas vezes com violência direta.
A cruz sempre andou junto da espada. Mas houve algo ainda mais eficiente: as doenças. A varíola, principalmente. Quando os espanhóis foram expulsos de Tenochtitlán, capital do império asteca, em 1520, não foi o fim da conquista. Foi só uma pausa. O vírus chegou logo depois. Um cronista indígena descreveu corpos empilhados, ruas vazias. A sociedade asteca entrou em colapso. Não foi exatamente uma guerra. Foi um esmagamento lento e inevitável.
Isso se repetiu. Não uma vez, mas muitas. No vale do Mississippi, povos inteiros desapareceram antes mesmo de serem plenamente descritos. Cidades, agricultura, comércio, tudo virou vestígio arqueológico. Não porque eram frágeis, mas porque foram desestruturados por guerras, escravidão, fome e epidemias. Um processo longo, não um evento isolado.
Depois disso, sobra a história oficial. A história dos vencedores. Estátuas. Nomes de ruas. Homenagens. A violência vira detalhe. O genocídio vira pano de fundo. Andrew Jackson passa a ser lembrado como líder forte, não como responsável por uma limpeza étnica. É assim que funciona.
E continua funcionando. Só trocamos as palavras. Hoje não se fala em destino manifesto. Fala-se em intervenção humanitária ou mudança de regime. Não se diz mais terra vazia. Diz-se área estratégica. Deus saiu da equação, entraram o mercado, o crescimento, os indicadores econômicos. O raciocínio, porém, é o mesmo: algumas vidas podem ser sacrificadas.
Basta olhar para os conflitos atuais por mineração, petróleo, madeira. Povos deslocados. Lideranças assassinadas. Rios contaminados. Tudo em nome do desenvolvimento. Povos indígenas seguem sendo tratados como entrave, como atraso. A lógica não mudou. Só ficou mais sofisticada.
Hoje, o extermínio raramente é rápido. Ele pinga. Mercúrio nos rios. Agrotóxico na terra. Poluição no ar. Doenças crônicas. Mortes que não viram manchete. Um genocídio diluído no tempo, mais difícil de apontar, mais fácil de negar. Muitas vezes com a assinatura de Estados que, no papel, defendem direitos humanos.
A memória não é neutra. Nunca foi. Escolher quem vira herói é escolher quem pode ser esquecido. Uma estátua não é só decoração. É um recado. Diz quem manda. Diz quem importa.
Talvez a recusa em olhar venha do medo. Reconhecer o genocídio fundador desmonta narrativas nacionais inteiras. Obriga a admitir que muita riqueza nasceu de um cemitério. Que o chamado “Novo Mundo” foi, para milhões, o fim do mundo.
Autores como David Stannard ajudam a ver o todo. O que aconteceu nas Américas não foi uma soma de tragédias desconectadas. Foi um processo contínuo, intercontinental. Um genocídio em escala massiva. Usar a palavra “holocausto” não é exagero retórico. É tentativa de precisão.
No Brasil, vozes como Ailton Krenak e Davi Kopenawa falam do presente. Não de um passado distante. Denunciam um genocídio que ainda acontece, agora, na Amazônia. Mudaram os nomes, não os interesses. Terra, riqueza, poder. A psicanálise chama isso de negação. Um mecanismo de defesa diante do que é difícil demais de encarar. Talvez sociedades inteiras façam isso. A negação aparece nos livros didáticos, nos monumentos defendidos com fervor, nos feriados que celebram invasões como encontros pacíficos.
Voltamos, então, ao início do texto, aquele homem da nota de vinte dólares. Em 2016, anunciaram que Harriet Tubman ocuparia aquele espaço. A decisão foi adiada, empurrada, esquecida. Trocar um rosto parece simples, mas não é. Significa admitir que o herói era um carrasco. E isso incomoda.
O que fazer com essa herança? Talvez começar escutando. Lendo quem foi silenciado. Questionando o que aprendemos como natural. E agindo no presente, porque o colonialismo não acabou. Ele só aprendeu a se disfarçar melhor.
Da próxima vez que você segurar uma nota ou passar por uma estátua de um “desbravador”, pare um segundo. Pergunte quantas vidas estão ali escondidas. Que silêncio sustenta aquele símbolo.
O passado não foi embora. Ele está nas cidades, nos rios contaminados que ainda carregam nomes indígenas, no desprezo cotidiano pelos mais frágeis. Fingir que não ouvimos não o faz desaparecer. Admitir a ferida não resolve tudo, mas é o único começo possível.
Ref.:
STANNARD, David E. American Holocaust: The Conquest of the New World. Oxford: Oxford University Press, 1992.
LAS CASAS, Bartolomé de. Brevíssima Relação da Destruição das Índias. Porto Alegre: Editora Fi, 2019.
KEHL, Maria Rita. O Tempo e o Cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2010.
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
VALENTIM, Alexandre (Org.). Tudo o que você queria saber sobre o colonialismo português e nunca ousou perguntar. Lisboa: Editora Tigre de Papel, 2021.

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