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A mostrar mensagens de novembro 9, 2025

DEUSES, ESTADO, HIPOCRISIA E O FIM DA NOSSA LIBERDADE

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O vento sopra, mas não limpa mais o ar. Há um cheiro estranho pairando sobre nossas cidades, uma mistura de incenso e decretos, de água benta e de vontades alheias sendo vertidas sobre o corpo social . Não é um odor novo. É uma névoa antiga, que pensávamos dissipada pelos ventos da Razão e do Iluminismo. Estávamos enganados. Ela apenas se recolheu, esperou, e agora regressa, vestida com o terno impecável do político, carregando um "livro sagrado" numa mão e a caneta da lei na outra. Observamos, quase atônitos, um fenômeno peculiar do nosso tempo: a fusão silenciosa entre o Estado Laico e os altares da fé. Não se trata mais da religião como um refúgio íntimo, um norte moral pessoal. Trata-se de seu projeto de poder, ambicioso e totalizante, buscando moldar a sociedade à sua imagem e semelhança, ignorando o mosaico plural de crenças e de descrenças que compõem a nação. O púlpito tornou-se tribuna, e o sermão, discurso de posse. É um movimento sutil, uma coreografia paciente. P...

A SOMBRA DO DIVINO: OS DEUSES ABANDONARAM A NOSSA INFELICIDADE?

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Em tempos imemoriais, o trovão era a voz irada de um deus, e a seca, seu castigo silencioso. Hoje, diante dos cataclismos que acontecem no mundo, o céu parece não mais um trono, mas um abismo indiferente. A pergunta sussurra na alma atormentada pela infelicidade coletiva: por onde andam os deuses na infelicidade humana? Talvez eles nunca tenham habitado o Olimpo ou o firmamento, mas sim o vazio primordial que precede a própria criação. Anaximandro de Mileto postulava que a origem de tudo era o Ápeiron , o Ilimitado, “o princípio das coisas que são […] donde vem a geração às coisas que são, e para onde tendem também a destruição, segundo a necessidade” (DK 12 A 9). Neste princípio infinito e impessoal, a infelicidade não é um desvio, mas uma parte intrínseca do ciclo de geração e corrupção, um débito que todas as coisas pagam à ordem cósmica pela sua existência individual. A procura por uma resposta nos leva a interrogar se a infelicidade é a prova da ausênci...

QUANDO O CÉU FICOU MUDO: A ASTROLOGIA ENTRE O MITO E A RAZÃO

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Há um silêncio peculiar, um vazio ressonante, que só a nossa era moderna foi capaz de forjar: o silêncio do céu. Durante incontáveis séculos, o ser humano ergueu os olhos e encontrou muito mais do que um punhado de pontos luminosos suspensos no escuro - ele encontrou destino, advertência e um sentido profundo. As constelações não eram meros desenhos aleatórios; eram narrativas épicas em movimento constante, dramas celestes que contavam as histórias dos deuses e dos nossos próprios medos e aspirações. Os planetas, por sua vez, eram entendidos como mensageiros velozes de um idioma invisível, portadores de influências e humores cósmicos. O cosmos, em sua totalidade, falava. E a astrologia, em sua essência primordial, era a tentativa humilde e poética de traduzir essa voz ancestral. Quando a razão científica começou a sua ascensão inexorável, o firmamento sofreu uma transformação radical. Ele deixou de ser um livro aberto, uma linguagem a ser decifrada, e tornou-se uma mera paisagem, um ce...