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O ENGODO COLETIVO DOS MITOS NA DEMOCRACIA

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A sensação que fica, muitas vezes, é a de que acordamos em um país diferente daquele que aprendemos a amar nos livros de história. Observamos, entre um gole de café e a leitura das manchetes, uma transformação silenciosa que vai além das disputas partidárias comuns. Parece que a política deixou de ser o espaço do debate de ideias sobre como gerir a saúde, a educação ou a economia. Ela se tornou uma espécie de altar, onde figuras específicas são entronizadas não pelo que propõem, mas por aquilo que representam de forma quase mística. E o mais angustiante nisso tudo é perceber que essa entronização não veio de um golpe militar barulhento ou de uma invasão estrangeira; ela foi gestada dentro das próprias engrenagens da democracia, usando as ferramentas da liberdade para, lentamente, corroer a própria ideia de liberdade coletiva. É estranho perceber como um sistema que preza pela alternância de poder e pela igualdade perante a lei consegue gerar figuras que se colocam acima da lei. O cult...

O FEITIÇO DO PODER: QUANDO A ADMIRAÇÃO VIRA SUBMISSÃO

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Às vezes me pego pensando naquela sensação estranha quando uma figura pública parece ter todas as respostas que nos faltam. É um alívio momentâneo, como entregar o volante do carro em uma estrada escura. A gente suspende a desconfiança, esquece que políticas públicas são mais complexas que discursos, e se entrega ao conforto de seguir. Sempre me lembro de uma passagem de Platão   - nunca me saiu da cabeça. Não sei se foi na A República ou em outro diálogo, mas ele fala desse momento preciso em que a democracia adoece - quando a saudade de um pastor supera o medo do lobo. A gente troca a liberdade complicada pela obediência tranquila. O que Jan-Werner Müller chamaria de "povo verdadeiro" nessa história toda? No seu O que é o populismo? (2016, Editora Perspectiva, 2019) ele descreve essa lógica perversa onde o líder não erra porque encarna uma vontade coletiva. A gente vê isso acontecer diariamente nas redes, essa fusão perigosa entre pessoa e pátria que sufoca qualquer deba...

QUANDO OS LÍDERES VIRAM PERSONAGENS E O POVO PLATÉIA

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O mundo parece ter mergulhado de cabeça num daqueles romances distópicos que a gente lê com um certo distanciamento cômodo, convencidos de que aquela realidade nunca chegaria às nossas portas. Mas eis que ela não só chegou como bateu com força, não com um estrondo, mas com um tuít e. A ascensão de figuras como Donald Trump não foi um acidente histórico, mas o sintoma de uma doença muito mais profunda, que corrói as entranhas das democracias modernas . É o culto à personalidade elevado à enésima potência, onde o ego do líder deixa de ser um traço de personalidade para se tornar a própria estratégia de governo. Esses líderes, veja bem, não governam – eles atuam.  A especialidade é construir realidades paralelas, um mundo onde os fatos são moeda de troca e a verdade não passa de um incômodo a ser eliminado. O grande tabuleiro das relações internacionais, que sempre demandou racionalidade e um mínimo de previsibilidade, foi reduzido a um reality show grotesco, onde humilhar um aliad...

OS FANTASMAS QUE NOS ASSOLARAM, REGRESSAM

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Vivemos tempos estranhos e contraditórios. De um lado, nunca estivemos tão conectados, com tanta tecnologia ao nosso alcance. De outro, parece que velhos fantasmas do passado estão regressando, vestidos com roupagens modernas. Não são golpes militares clássicos como outrora, com tanques nas ruas e generais declarando lei marcial na televisão. A ameaça atual é mais silenciosa, mais sorrateira. É uma erosão lenta, um desmonte paciente das engrenagens que sustentam a democracia. Se olharmos para as ditaduras do século XX, na América Latina ou na Europa, a tomada de poder era geralmente brutal e abrupta. A violência era explícita, a censura óbvia, e a opressão, um fato inquestionável da vida cotidiana. Era um mundo de preto e branco, onde o medo era o instrumento principal de controle. Todos sabiam onde estava a linha que não podia ser cruzada. O jogo agora é diferente. O manual do autoritário moderno foi reescrito. Ele não precisa dar um golpe; basta ganhar uma eleição. Uma vez lá, co...