TRAUMA, MEDO E AUTORITARISMO: UMA LEITURA PSICANALÍTICA DA CRISE NA POLÍTICA
Nem toda crise política começa como uma simples disputa por poder ou recursos. Muitas vezes, o que se rompe primeiro é o sentido compartilhado que sustenta a vida coletiva. Quando instituições perdem credibilidade e discursos antes estáveis deixam de convencer, instala-se algo mais profundo que a divergência: uma espécie de desorientação sobre quem somos e que futuro ainda podemos imaginar juntos. É nesse ponto que a psicanálise se torna uma ferramenta fértil de leitura, pois nos lembra que a política não é movida apenas por cálculos racionais, mas também por afetos, fantasias e medos que nem sempre reconhecemos como nossos.
Desde cedo, Sigmund Freud percebeu que os vínculos sociais não se sustentam apenas por ideias, ele mostrou que os grupos se organizam a partir de identificações afetivas, frequentemente centradas em uma figura de liderança ou em um ideal compartilhado. Essa intuição continua atual quando observamos fenômenos como o populismo contemporâneo, em que líderes carismáticos catalisam frustrações difusas e oferecem uma narrativa simples para um mal-estar complexo. O discurso político pode parecer racional na superfície, mas é atravessado por correntes emocionais que o sustentam - ou o desestabilizam.
A ideologia, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um conjunto de crenças equivocadas. Ela funciona como uma estrutura que dá forma às angústias e organiza o caos da experiência social. Slavoj Žižek insiste que a ideologia não encobre a realidade como um véu; ela molda o modo como a própria realidade é percebida, estruturando nosso desejo e até mesmo nosso gozo. Não é por acaso que certas paixões políticas parecem extrair satisfação da exclusão ou da humilhação do outro. Há algo de pulsional nessas dinâmicas que não pode ser reduzido a interesses objetivos.
A história fornece inúmeros exemplos de como grandes acontecimentos políticos são também tentativas de elaborar traumas. A Revolução Francesa, a queda do Muro de Berlim ou as jornadas de junho no Brasil não podem ser entendidas apenas por suas causas imediatas. São momentos em que uma tensão acumulada encontra uma via de expressão simbólica. No entanto, quando faltam canais de elaboração, ou seja, quando não há espaço para que a palavra circule, a violência pode ocupar esse lugar, repetindo o trauma em vez de transformá-lo.
Embora o conceito de inconsciente coletivo esteja mais associado a Carl Jung, o próprio Freud, aventou a hipótese de que experiências traumáticas poderiam deixar marcas transmitidas entre gerações. Sem recorrer a explicações místicas, é possível reconhecer que sociedades desenvolvem padrões defensivos que atravessam o tempo, incorporados em mitos, rituais e instituições. Erich Fromm, ao analisar o medo da liberdade, mostrou como a emancipação moderna pode gerar angústia suficiente para levar indivíduos a buscar proteção em formas autoritárias de pertencimento.
Em O Medo à Liberdade, escrito no contexto da ascensão do nazismo, Fromm descreve como a solidão e a insegurança do homem moderno criaram terreno fértil para a submissão a líderes fortes. A adesão ao nazismo não se explica apenas por fatores econômicos ou políticos; havia também uma disposição psíquica que projetava em Hitler a figura do salvador e elegia inimigos a serem eliminados. A política, nesse cenário, torna-se uma defesa contra o desamparo.
No Brasil, os efeitos de uma história marcada por colonização e escravidão continuam visíveis. As hierarquias sociais, o racismo estrutural e a violência cotidiana não desapareceram com mudanças legais. Eles persistem como traços de um passado não elaborado. Autores como Jessé Souza apontam como privilégios são naturalizados sob o discurso do mérito individual. A psicanálise acrescenta que tais privilégios não são apenas interesses materiais: eles estão investidos de satisfação simbólica, o que torna sua renúncia particularmente difícil.
Maria Rita Kehl, ao refletir sobre o ressentimento na cultura brasileira, descreve um afeto marcado pela sensação de exclusão. Quando essa exclusão não encontra linguagem política adequada, pode se converter em hostilidade contra grupos percebidos como beneficiários indevidos de direitos. O ódio, nesse caso, mascara uma experiência de impotência.
De modo semelhante, Christian Dunker tem analisado o mal-estar contemporâneo no Brasil como um processo de fragmentação dos laços sociais. Ele sugere que vivemos algo próximo de um “autismo social”, no qual a dificuldade de reconhecimento mútuo impede a construção de experiências comuns. A política, então, degenera em competição de narrativas de vitimização, enfraquecendo o espaço democrático.
A ascensão recente de lideranças de extrema direita em diferentes países também pode ser lida por essa chave. Não se trata apenas de propostas econômicas, mas de discursos que tocam feridas narcísicas e prometem restaurar uma grandeza perdida. O slogan “Make America Great Again” mobiliza justamente essa nostalgia de um passado idealizado. A psicanálise reconhece aí um mecanismo próximo à melancolia: identifica-se com um objeto perdido e transforma-se a frustração em agressividade.
O psicanalista Vamik Volkan cunhou a expressão “trauma escolhido” para explicar como certos episódios históricos dolorosos passam a integrar a identidade de um grupo. Esses traumas, transmitidos de geração em geração, alimentam narrativas de vitimização e justificam conflitos. O que importa não é apenas a precisão factual do evento, mas sua força simbólica.
Algo semelhante foi observado por Alexander e Margarete Mitscherlich, ao analisarem a Alemanha do pós-guerra. Eles identificaram uma dificuldade coletiva de elaborar o passado nazista, substituída por uma corrida à reconstrução econômica. A negação, nesse caso, funcionava como defesa contra a culpa e a vergonha. O mesmo mecanismo pode ser reconhecido em outros contextos onde o negacionismo histórico prospera.
O que a psicanálise oferece à política não é um programa pronto, mas uma disposição ética: a de escutar o que se expressa para além das palavras. Ela convida à suspeita diante de promessas totalizantes e lembra que todo projeto coletivo carrega ambivalências. Escutar o sofrimento que se manifesta nas demandas políticas, mesmo quando ele assume formas distorcidas que é condição para qualquer transformação consistente.
Experiências como a reforma psiquiátrica brasileira mostram que mudanças institucionais podem nascer dessa escuta. Inspirada por práticas italianas, ela buscou substituir o isolamento manicomial por uma rede territorial de cuidado. Nesse caso, política e clínica se encontraram na tentativa de reconhecer a singularidade do sofrimento sem reduzi-lo a mero desvio biológico.
Num cenário de polarização e fragilidade dos vínculos sociais, o desafio talvez seja sustentar a palavra como meio de mediação. A democracia não se resume a regras formais; depende de sujeitos capazes de conviver com o conflito e a diferença. Isso exige reconhecer que o mal-estar não será eliminado, apenas transformado.
Pensar nas próximas gerações implica perguntar que heranças psíquicas estamos transmitindo. Quais traumas permanecem sem elaboração? Que medos moldam nossas escolhas coletivas? A psicanálise não oferece respostas definitivas, mas ajuda a formular melhor as perguntas. Ao lembrar que amor e ódio, desejo e defesa atravessam a política, ela nos convida a uma forma de responsabilidade que não ignora essas forças.
O inconsciente não comparece às urnas, mas influencia escolhas e discursos. Reconhecer sua presença talvez seja um passo para não sermos inteiramente conduzidos por ele. Uma democracia madura não é aquela que promete harmonia, mas a que consegue lidar com suas feridas sem negá-las - e sem transformá-las em armas contra si mesma.
Ref.:
FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu. Rio de Janeiro: Imago, 1921/1976.
FREUD, Sigmund. Moisés e o Monoteísmo. Rio de Janeiro: Imago, 1939/1975.
FROMM, Erich. The Fear of Freedom. London: Routledge & Kegan Paul, 1942.
VOLKAN, Vamik. The Need to Have Enemies and Allies: From Clinical Practice to International Relationships. Northvale: Jason Aronson, 1988.
KEHL, Maria Rita. Ressentimento. São Paulo: Boitempo, 2020.
DUNKER, Christian. Mal-estar, Sofrimento e Sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015.
MITSCHERLICH, Alexander; MITSCHERLICH, Margarete. Die Unfähigkeit zu trauern: Grundlagen kollektiven Verhaltens. München: Piper, 1967.
SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

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