POR QUE EU SOU EU E NÃO O OUTRO? O ESPELHO SEM REFLEXO
Há perguntas que surgem nos momentos mais improváveis, não é mesmo? Aquela quietude no trânsito, o silêncio da madrugada quando o sono te abandona, ou simplesmente ao olhar no espelho e se deparar com um estranho familiar.
De onde vem essa sensação íntima e ao mesmo tempo tão vasta de ser quem se é? Por que esta consciência, estes pensamentos, este ‘eu’ habitam este corpo e não o seu, ou o de qualquer outra pessoa que cruza a rua?
Não se preocupe, não tenho a resposta definitiva. Ninguém tem. Mas a jornada para tentar esbarrar nela talvez seja o que nos torna mais humanos.
Voltem os olhos para onde tudo começou, muito antes de Freud ou dos manuais de auto ajuda. Os pré-socráticos, aqueles primeiros filósofos gregos, já mastigavam essa angústia primordial. Parmênides, por exemplo, afirmava que o ser é, e o não-ser não é. Parece óbvio, mas é profundo: a simples existência do ‘eu’ é um fato incontornável, a primeira e mais verdadeira de todas as certezas. É o ponto de partida de tudo.
No entanto, Heráclito sussurrava do outro lado do rio, aquele que nunca se repete. Se tudo flui, se tudo está em constante transformação, o que dizer desse ‘eu’? Será ele uma ilusão, um instante fugaz entre infinitas mudanças? Essa é a primeira grande fissura na nossa certeza.
Talvez sejamos apenas um processo, um verbo se passando por substantivo. Essa inquietação nos assombra até hoje.
Avançando séculos, encontramos Jean-Paul Sartre, com seu existencialismo ácido e libertador. Para ele, a existência precede a essência. Não nascemos com um manual, um propósito pré-definido. Somos lançados ao mundo e, a partir dali, somos condenados a ser livres.
Condenados porque essa liberdade é pesada; somos inteiramente responsáveis por criar quem somos a cada escolha, por mais ínfima que seja. O ‘eu’ não é uma descoberta, mas uma construção incessante e solitária.
E é justamente nessa solidão radical que a pergunta ganha seu tom mais agudo. Se eu me construo, por que não posso me construir como o outro?
Por que sinto esta dor que é só minha e não a sua? Paul Tillich, um teólogo-filósofo, ofereceu um conceito reconfortante: a “coragem de ser”. Ele entende que o não-ser – o nada, a ansiedade da inexistência – nos ameaça constantemente. A coragem é a afirmação do próprio ser, apesar dessa ameaça. É dizer ‘sim’ para si mesmo, aceitando a própria finitude e contingência.
Mas e quando falta essa coragem?
É quando a voz de Emil Cioran ecoa, sombria e irresistivelmente lúcida. Para o pessimista romeno, a consciência é uma doença, e a pergunta “por que eu sou eu?” é um sintoma dela. Ele mergulha na náusea de existir, na estranheza de ser um acidente biológico pensante.
Ler Cioran é como olhar para o abismo e descobrir que ele não só te olha de volta, mas que ri de você. Ele nos lembra que a angústia de ser quem se é é, em si, a prova mais cabal de que somos.
E assim ficamos, equilibrando-nos entre Sartre, Tillich e Cioran. Entre a liberdade, a coragem e o niilismo.
O ‘eu’ parece ser isso: um ato de rebelião contra o absurdo. Uma decisão, tomada e retomada a cada manhã, de carregar este fardo único que é a própria vida, com suas memórias, suas dores exclusivas e suas alegrias particulares.
Pense em uma memória de infância, daquelas que só você tem na exata tonalidade de sol, no cheiro específico daquele lugar. Esse emaranhado de sensações é intransferível. É o conteúdo que preenche a forma do seu ‘eu’.
Ninguém mais sentiu exatamente aquilo, daquela maneira. Somos coleções de experiências únicas, arquivos vivos de instantes que se perderam no tempo, mas que nos definem.
E o outro? O outro é sempre um mistério. Podemos tentar entender, nos colocar no seu lugar, amar. Mas nunca seremos. Ele é a fronteira final da nossa solidão, mas também a confirmação dela. A existência do outro é o que torna a minha pergunta possível. Se eu fosse todo mundo, a pergunta não faria sentido.
A alteridade é o espelho quebrado que nunca nos devolve a imagem completa.
No fim das contas, talvez a resposta não esteja em uma equação filosófica, mas em um gesto simples. No ato de abraçar alguém e, por um segundo, sentir o abismo que nos separa e que, paradoxalmente, nos une. Somos ilhas, mas no mesmo oceano.
A pergunta “por que sou eu?” é o que este oceano sussurra para cada ilha, incessantemente.
Não é uma busca por uma resposta final, mas sim por uma reconciliação.
Uma maneira de fazer as pazes com o acaso monumental que fez com que você fosse você. É aceitar o próprio rosto no espelho, não como um destino, mas como um ponto de partida único para se relacionar com o mundo.
Talvez ser eu, e não você, seja a minha única chance real de, um dia, te entender um pouco melhor.
A individualidade não é uma prisão, mas a condição para qualquer encontro genuíno. Só posso me doar ao outro porque primeiro possuo a mim mesmo, por mais frágil que essa posse seja.
Então, da próxima vez que a pergunta vier, não a afaste. Deixe-a ficar.
Convide-a para um café. Essa inquietação é o preço e a maravilha de estarmos vivos e conscientes. É o sinal de que você está totalmente presente, habitando plenamente o seu próprio e inexplicável ser.
E afinal, que história seria a nossa se, no lugar de heróis problemáticos de nossa própria existência, fôssemos apenas personagens intercambiáveis?
O ‘eu’ é a nossa narrativa pessoal e intransferível. A única que podemos, de fato, contar. E que sorte a nossa poder vivê-la, mesmo sem entender direito seus primeiros capítulos.
SARTRE, Jean-Paul. Being and Nothingness:An Essay on Phenomenological Ontology.New York: Washington Square Press, 1956.
HEIDEGGER, Martin. Sein und Zeit. Tübingen: Max Niemeyer Verlag,1927.
HEIDEGGER, Martin. Sein und Zeit. Tübingen: Max Niemeyer Verlag,1927.
FRANKL, Viktor E. ltrotzdem Ja zum Leben sagen: Ein Psychologe erlebt das Konzentrationslager. München: dtv, 1977.
Comentários
Enviar um comentário
Obrigado pelo seu comentário! Informo que ele estará sujeito a moderação, mas sempre respeitando seu direito a opinião.