MORAL DE REBANHO - Um pouco de Nietzsche

A gente vive sob o peso silencioso de costumes que ninguém tem coragem de questionar, andando como zumbis ao ritmo de valores que nos são jogados como verdades absolutas. 

Nietzsche nos lembra: essa obediência cega, essa moral de rebanho, é um sintoma de uma doença espiritual. A sociedade, nesse sentido, não passa de um grande aprisco onde os indivíduos, com medo de ficarem sozinhos e de terem que criar seus próprios valores, buscam abrigo no consenso morno e na rotina reconfortante. 

Os costumes são as cercas desse lugar, levantadas não pelo espírito criador, mas pelo medo de encarar o diferente, o mais elevado, aquilo que pode quebrar a preguiça confortável do rebanho. Chamam isso de 'bom senso' ou 'tradição', mas por trás disso tem uma vontade fraca, o desejo pequeno de que todo mundo seja igual — pequeno, seguro, sem ameaça alguma. Esses valores que dominam o rebanho, considerados 'bons' e 'virtudes', muitas vezes não nascem do amor à vida, mas do ressentimento dos fracos contra os fortes. 

Nietzsche revela de onde vêm muitas das nossas virtudes mais celebradas: a humildade disfarça a impotência, a piedade serve de controle e negação do sofrimento necessário para crescer, a igualdade radical é uma forma disfarçada de ódio a tudo que se destaca e põe em risco a mediocridade que reina. 

O bem do rebanho, na real, é um mal disfarçado para os que têm espírito livre, porque nega a hierarquia natural, sufoca a criatividade e exalta a submissão como se fosse a maior virtude. E os costumes só reforçam essa inversão de valores, transformando fraqueza em mérito e força em pecado. A pressão para se encaixar é pesada e silenciosa, como uma tirania invisível. Quem ousa questionar os ídolos do momento, quem não aceita os fetiches sociais de sempre — seja a busca desenfreada por segurança financeira, a adoração ao progresso vazio ou a ditadura do politicamente correto — é logo visto como perigoso, como herege ou louco. 

O rebanho defende seus ídolos com a coragem dos covardes, usando o ridículo, a exclusão e a difamação. Nietzsche enxerga nisso muito mais do que uma limitação à liberdade individual: é uma negação da vida, do seu fluxo intenso e de suas transformações. A sociedade, nesse ponto, é uma espécie de máquina que domestica, triturando a singularidade de cada um para criar seres iguais, facilmente controláveis. E o que oferecemos em troca dessa submissão? Uma vida segura, mas cheia de banalidades, uma calmaria que anestesia. 

A sociedade promete proteger contra os perigos do mundo e do próprio eu, mas o preço é a nossa alma. Nos encharcamos de futilidades, de entretenimento barato que nos faz esquecer a pergunta mais importante: que tipo de pessoa quero ser de verdade? 

Os costumes nos dão uma espécie de roteiro pronto, uma identidade de prateleira, poupando-nos do esforço difícil de nos descobrir e de nos superar. Aceitamos essa troca ruim, trocando a chance de ser grande por uma garantia de ser pequeno, insignificante e confortável. Nietzsche aponta que essa vontade de nada, essa preferência pelo seguro, é uma fuga da responsabilidade de ser alguma coisa maior, de enfrentar o risco de realmente viver. Rasguem essas correntes! 

A leitura nietzschiana não pede que vivamos no caos sem controle, mas que a gente mude totalmente os valores que seguimos. É uma convocação para que os espíritos mais fortes, aqueles que ainda sentem o calor da vida dentro de si, tenham coragem de olhar além dos muros do aprisco. Questionem cada 'deve ser', cada 'sempre foi assim'. 

Criem seus próprios valores com uma alegria louca de afirmar a vida, mesmo com suas dores e sua finitude. A verdadeira virtude não está em seguir os costumes do rebanho, mas na coragem de criar seu próprio caminho, de assumir a liberdade e de gritar 'sim' à vida, com toda sua beleza brutal e sua violência também. 

Que o peso morto dos costumes herdados não seja uma âncora que nos prende, mas um degrau a mais na escada de quem quer ir além, sendo mais do que apenas uma cópia adormecida.

Ref.: do autor


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