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A ILUSÃO DO CHÃO: QUANDO A MODERNIDADE LÍQUIDA NOS ENGOLIR

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Pare um instante e olhe ao redor. Já reparou como o tempo parece escapar das mãos? Vivemos cercados por sons, telas e pressas, e, ainda assim, algo nos falta. Uma ansiedade silenciosa se esconde sob as notificações que piscam sem parar. É como se o chão sob os pés tivesse virado um terreno mole, onde tudo afunda devagar. O sociólogo Zygmunt Bauman viu isso com clareza e chamou o fenômeno de “Modernidade Líquida”. Um nome bonito para uma sensação amarga. Bauman não inventou uma metáfora qualquer; ele descreveu uma mudança de mundo. Saímos de uma época em que as coisas pareciam durar - o emprego, o casamento, até as certezas. Tudo era sólido, ainda que duro. Havia regras, fronteiras e algum tipo de direção. Hoje, nada disso parece firme. As estruturas se dissolveram como açúcar na água. E o que restou? Um tempo escorregadio, onde tudo muda antes que a gente entenda o que aconteceu . As relações talvez sejam o exemplo mais dolorido disso. A gente se conecta em segundos, mas essa facilid...

O FIM DA POLÍTICA: QUANDO O ESTADO SE TORNA IGREJA

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A relação conflituosa entre o que é considerado sagrado e o mundo laico representa uma das forças mais complexas e arriscadas na construção das sociedades de hoje. Se um governo, abertamente ou de maneira sutil, possibilita que princípios religiosos guiem a criação de leis a respeito de assuntos modernos, isso não é apenas um retrocesso conservador, mas sim uma mudança drástica no próprio alicerce do acordo social. O congresso, que deveria ser a arena da razão pública e do debate laico, onde evidências e o bem-estar coletivo são os parâmetros, converte-se em um púlpito , e suas decisões, em premissas inquestionáveis. Este processo não anuncia um simples retrocesso, mas a instalação de um fundamentalismo que sufoca a complexidade humana em nome de uma pureza moral fictícia. Søren Kierkegaard , em sua obra "O Desespero Humano" (São Paulo: Martin Claret, 2018), explorou a angústia do indivíduo diante do salto da fé, uma decisão intransferível e subjetiva. Para ele, a verdade rel...

QUANDO O QUE FAZ SENTIDO É DEIXAR DE BUSCAR O SENTIDO

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Existem ocasiões onde as bases em que confiávamos começam a desmoronar. Aquelas convicções, organizadas com tanto cuidado, se desfazem como estuque ressecado. O planeta, que antes se mostrava sólido, subitamente revela sua fragilidade, e o suporte some sob nossos passos. Foi nesse ambiente incerto que Albert Camus construiu sua clareza – sem apoios, sem crenças, sem conforto. Ele não surgiu para salvar ninguém. Apenas evidenciou a falta, e solicitou que a encarássemos profundamente, sem desviar o olhar. Na visão de Camus, o absurdo não é um conceito, mas sim uma experiência. É aquele momento súbito, numa banal terça-feira, quando a rotina se desfaz e a existência, antes tão familiar, surge como algo alheio. Você se encara no reflexo e se sente um estranho. Existe um fosso imenso entre a ânsia por significado e o implacável mutismo do planeta. Somos forasteiros, buscando interpretação num cosmos que permanece mudo. Meursault - aquele que não chorou no enterro da mãe - é o homem que ...

SOLIDÃO COLETIVA: A ESCRIVANINHA VAZIA DA ALMA

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É uma ironia das grandes: vivemos hiper conectados e, no entanto, mais sós do que nunca . Nossos dedos deslizam por essas telas, curtindo, amando e se indignando com a mesma facilidade com que fechamos uma janela pop-up. A gente se tornou expert em criar avatar, em editar a vida para exportar, mas esqueceu a senha do que é, de fato, estar vivo. É como se todo mundo estivesse numa festa fantasiado de "feliz" e ninguém ousasse chegar perto e perguntar: "e aí, tá tudo bem mesmo?". Zygmunt Bauman , com sua lúcida metáfora da "modernidade líquida", parece ter previsto esse nosso mal-estar elegante. Ele argumenta que nossas instituições e laços afetivos já não possuem a solidez do concreto, mas a fluidez da água (BAUMAN, 2001). Tudo escorre entre os dedos: empregos, amizades, amores. Nesse rio constante de mudança, aprofundar tornou-se um risco calculado, um investimento emocional de alto retorno incerto. Para quê cavar um poço se podemos saciar nossa sede mom...

DESMONTANDO A HERANÇA: A HISTÓRIA QUE ELAS ESTÃO ESCREVENDO

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Este texto está sendo escrito, sabendo do paradoxo que habita minha condição. Sou herdeiro de uma estrutura que levei anos para enxergar - e ainda hoje, confesso, surpreendo-me descobrindo novos cantos sombrios. A violência contra a mulher nunca foi um capítulo isolado nos livros de história. Ela é a o elemento quase imperceptível, que une as páginas da nossa civilização. Um fio de medo, cor de sangue, cuja dominação que teceu, século após século, o que chamamos de experiência feminina. Na Grécia Antiga , enquanto nossos ancestrais debatiam democracia na ágora , as mulheres de Atenas viviam nos gineceus (do grego gynaikeîon), que era o lugar da casa reservado às mulheres, um espaço onde elas passavam a maior parte do tempo, distante da área dos homens. Isto me faz lembrar da sensação estranha ao ler Xenofonte em " Oeconomicus " - o modo natural com que um homem deveria ensinar sua esposa, que poderia ter quinze anos, que sua vida seria administrar a casa e guardar os bens...

ALÉM DO VELHINHO NO CÉU: A CORAGEM DE SER VOCÊ MESMO

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Vamos falar de um Deus que não mora no céu, mas no nosso medo. Um Deus que inventamos porque a solidão do universo é grande demais para caber dentro do nosso peito. Esse deus pessoal, aquele com quem sussurramos à noite, a quem culpamos pelo acaso e agradecemos pela sorte, pode ser a mais perigosa das invenções humanas. E o que ele está fazendo com a gente? Spinoza , um homem à frente do seu tempo e por isso mesmo tão perseguido, enxergou o cerne da questão com uma frieza que corta como um diamante. Lá no século XVII, ele percebeu que o Deus no qual a maioria acredita é uma projeção gigantesca de nós mesmos. Criamos um rei cósmico, um legislador com humores e preferências, porque somos incapazes de conceber algo que não se pareça conosco. A sacada genial - e assustadora - de Spinoza foi dizer: parem de procurar uma pessoa. Deus não é um ser; Deus é o Ser. É a própria natureza, em seu processo infinito e impessoal de criação e destruição. É a teia da vida, não a aranha que a comanda....

O FEITIÇO DO PODER: QUANDO A ADMIRAÇÃO VIRA SUBMISSÃO

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Às vezes me pego pensando naquela sensação estranha quando uma figura pública parece ter todas as respostas que nos faltam. É um alívio momentâneo, como entregar o volante do carro em uma estrada escura. A gente suspende a desconfiança, esquece que políticas públicas são mais complexas que discursos, e se entrega ao conforto de seguir. Sempre me lembro de uma passagem de Platão   - nunca me saiu da cabeça. Não sei se foi na A República ou em outro diálogo, mas ele fala desse momento preciso em que a democracia adoece - quando a saudade de um pastor supera o medo do lobo. A gente troca a liberdade complicada pela obediência tranquila. O que Jan-Werner Müller chamaria de "povo verdadeiro" nessa história toda? No seu O que é o populismo? (2016, Editora Perspectiva, 2019) ele descreve essa lógica perversa onde o líder não erra porque encarna uma vontade coletiva. A gente vê isso acontecer diariamente nas redes, essa fusão perigosa entre pessoa e pátria que sufoca qualquer deba...