SOLIDÃO COLETIVA: A ESCRIVANINHA VAZIA DA ALMA
É uma ironia das grandes: vivemos hiper conectados e, no entanto, mais sós do que nunca. Nossos dedos deslizam por essas telas, curtindo, amando e se indignando com a mesma facilidade com que fechamos uma janela pop-up. A gente se tornou expert em criar avatar, em editar a vida para exportar, mas esqueceu a senha do que é, de fato, estar vivo. É como se todo mundo estivesse numa festa fantasiado de "feliz" e ninguém ousasse chegar perto e perguntar: "e aí, tá tudo bem mesmo?".
Zygmunt Bauman, com sua lúcida metáfora da "modernidade líquida", parece ter previsto esse nosso mal-estar elegante. Ele argumenta que nossas instituições e laços afetivos já não possuem a solidez do concreto, mas a fluidez da água (BAUMAN, 2001). Tudo escorre entre os dedos: empregos, amizades, amores. Nesse rio constante de mudança, aprofundar tornou-se um risco calculado, um investimento emocional de alto retorno incerto. Para quê cavar um poço se podemos saciar nossa sede momentânea em garrafas plásticas de interação?
A superficialidade, então, não é uma falha de caráter coletiva, mas uma estratégia de sobrevivência em um mundo que nos oferece infinitas opções e zero garantias. Preferimos a largura à profundidade, a conexão em rede ao vínculo enraizado. É menos doloroso trocar de grupo no WhatsApp do que encarar o silêncio constrangedor de um café com um amigo de infância com quem já não temos nada em comum. Cultivamos uma polidez distante, uma cordialidade que serve de barreira, não de ponte.
E no meio desse turbilhão de informação, a empatia virou um artigo de luxo, daqueles que a gente sabe que faz bem, mas não tem tempo de usar. O sofrimento alheio vira mais um conteúdo no feed, um story de tristeza que a gente consome entre um vídeo de gatinho e a receita de um pão. Aí, dá um aperto no coração, a gente comenta "força!" e segue rolando a tela. É um luto de bolso, uma solidariedade de consumo rápido.
É nesse deserto emocional que erguemos os paraísos ilusórios dos ídolos e das novas religiões seculares. Inseguros e quase afundando, buscamos figuras em quem possamos depositar uma fé inquestionável. O guru das finanças, o coach de vida, o influencer que dita a felicidade em dez passos, o político messiânico. Eles nos oferecem a solução embalada, a identidade pronta, a comunidade virtual de fiéis. Como bem observou Byung-Chul Han, na sociedade do cansaço, a busca pela otimização performance substitui a reflexão profunda (HAN, 2015). Buscamos gurus, não filósofos; fórmulas, não perguntas.
No fundo, essa sede por um ídolo, por um manual de instruções para a vida, é o grito de um ego assustado. Sem a rede de proteção das comunidades tradicionais, nos vemos sozinhos no comando de um barco à afundar num oceano de inúmeras opções. Aí, qualquer salva-vidas jogado por um guru de palco, por um pregador evangélico - costume separar bem "evangélico" de protestante histórico, diga-se de passagem, ou qualquer certeza absoluta vendida por um líder digital, parece milagre. A religião, que antes dava o caminho do mundo, agora é substituída por aplicativos de meditação que prometem performance máxima e pela fé cega em coachs que transformam a espiritualidade em meta trimestral.
A ironia é trágica, se não fosse cômica: nunca estivemos tão "conectados" e tão solitários. As igrejas do passado, com seu espaço sagrado e silêncio reverente, deram lugar aos estádios lotados de fãs em êxtase e aos fóruns online de devoção fanática. O barulho é ensurdecedor, mas a solidão coreografada nos bastidores é um sussurro constante e assustador. Compartilhamos nossa localização, mas nos perdemos de nós mesmos.
O culto às celebridades e a adesão cega a tribos ideológicas operam pelo mesmo mecanismo psicológico: oferecem um porto seguro para um ego à deriva. O filósofo francês Gilles Lipovetsky, ao discutir a era do vazio, fala de um individualismo que, paradoxalmente, não suporta a solidão do indivíduo (LIPOVETSKY, 1983). É preciso nos agarrar a uma manada, mesmo que virtual, para não encarar o abismo de nossa própria insignificância.
Nossas conversas se transformaram em uma troca de monólogos, onde cada um espera ansiosamente sua vez de falar, sem realmente assimilar o que o outro disse. A arte da conversa, da digressão, da pausa carregada de significado, foi substituída pelo pingue-pongue de frases feitas e opiniões pasteurizadas. Falamos muito, dizemos pouco, e escutamos quase nada.
A falta de empatia não é um simples resfriado moral, é uma doença crônica da alma. Ela nos torna estrangeiros uns dos outros, habitantes de ilhas distantes que se afastam no mar, que agora é digital. E o mais poético e triste é que, no fundo, todos temos fome e sede da mesma coisa: de um olhar que realmente nos veja, de um abraço que demore mais do que o socialmente permitido, de uma palavra que venha do fundo de um coração, e não de um roteiro de comunicação.
Talvez a saída não seja um aplicativo novo, uma terapia milagrosa ou mais um livro de autoajuda. Talvez seja um retorno bobo, quase anacrônico: a coragem do tédio, o risco de um silêncio que não seja preenchido com podcasts, a ousadia de marcar um café e chegar sem o celular na mesa. É no terreno acidentado do olho no olho, da conversa que desvia do roteiro, que a gente pode - quem sabe - redescobrir o gosto amargo e doce de ser apenas gente, imperfeita e conectada pelo fio frágil da experiência compartilhada.
No fim das contas, a cura para a superficialidade talvez não esteja em nenhum guia, nem em nenhum guru, ou qualquer autoridade religiosa ou moral, mas na simples, arriscada e revolucionária decisão de desligar o telefone, olhar para a pessoa ao lado e perguntar, com genuína curiosidade: "Como você está realmente?". A resposta pode ser o início de uma jornada de volta para casa, para aquele lugar profundo e esquecido onde as relações ainda são feitas de matéria-prima sólida, e não do gás efêmero das redes.
Ref.:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa: Relógio D'Água, 1983.

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