O FEITIÇO DO PODER: QUANDO A ADMIRAÇÃO VIRA SUBMISSÃO

Às vezes me pego pensando naquela sensação estranha quando uma figura pública parece ter todas as respostas que nos faltam. É um alívio momentâneo, como entregar o volante do carro em uma estrada escura. A gente suspende a desconfiança, esquece que políticas públicas são mais complexas que discursos, e se entrega ao conforto de seguir.

Sempre me lembro de uma passagem de Platão  - nunca me saiu da cabeça. Não sei se foi na A República ou em outro diálogo, mas ele fala desse momento preciso em que a democracia adoece - quando a saudade de um pastor supera o medo do lobo. A gente troca a liberdade complicada pela obediência tranquila.

O que Jan-Werner Müller chamaria de "povo verdadeiro" nessa história toda? No seu O que é o populismo? (2016, Editora Perspectiva, 2019) ele descreve essa lógica perversa onde o líder não erra porque encarna uma vontade coletiva. A gente vê isso acontecer diariamente nas redes, essa fusão perigosa entre pessoa e pátria que sufoca qualquer debate. Você critica uma medida e ouve que está atacando a nação.

O que vejo acontecer com frequência: movimentos que nascem horizontais e cheios de ideais, quase sem perceber, cristalizando em torno de uma figura. Donatella della Porta capturou bem esse processo em Como os Movimentos Sociais Podem Salvar a Democracia (2021, Editora Unesp) - como a energia coletiva vai se concentrando em um rosto, um nome. É sutil, mas fatal: o projeto vira pessoa, a pessoa vira dona da verdade.

A gente vive distraído com o espetáculo. Discussões sobre gestos, roupas, frases de efeito. Enquanto isso, por trás dos panos, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt nos lembram em Como as Democracias Morrem (2018, Zahar, 2018) que muitas vezes são as elites econômicas que mais apoiam esses líderes personalistas - veem na centralização do poder uma oportunidade para reformas que em tempos normais seriam rejeitadas.

É curioso como a tirania moderna não precisa mais de tanques nas ruas. Avança pelo cansaço, pela desistência silenciosa, pela comodidade de não precisar pensar. A gente vai aceitando pequenas perdas de liberdade em troca da promessa de segurança, até que um dia olha para trás e não reconhece mais o caminho.

Talvez a saída esteja naqueles momentos ordinários de resistência - questionar o óbvio, desconfiar das soluções simples, lembrar que por trás de todo salvador há interesses concretos. Não se trata de ser contra lideranças, mas é sempre bom lembrar que nenhuma pessoa deve concentrar tanto poder, tanta admiração, tantas expectativas.

As instituições chatas, os processos burocráticos, os pesos e contrapesos - tudo que parece tão árido comparado ao brilho de um líder carismático - são justamente o que nos protege dos nossos próprios instintos de entrega. São o antídoto contra a tentação de seguir cegamente.

No fim, culto a personalidade é isso: a rendição da nossa capacidade crítica em troca do conforto de ter alguém que nos guie. E o preço sempre aparece na conta, mais cedo ou mais tarde. Resta saber se vamos continuar pagando sem questionar.





Ref.:

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
MÜLLER, Jan-Werner. O que é o populismo?. São Paulo: Editora Perspectiva, 2019.
PLATÃO. A República. São Paulo: Editora 34, 2016.
PORTE, Donatella della. Como os Movimentos Sociais Podem Salvar a Democracia. São Paulo: Editora Unesp, 2021.
SEN, Amartya. A Ideia de Justiça. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.



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