ALÉM DO VELHINHO NO CÉU: A CORAGEM DE SER VOCÊ MESMO
Vamos falar de um Deus que não mora no céu, mas no nosso medo. Um Deus que inventamos porque a solidão do universo é grande demais para caber dentro do nosso peito. Esse deus pessoal, aquele com quem sussurramos à noite, a quem culpamos pelo acaso e agradecemos pela sorte, pode ser a mais perigosa das invenções humanas. E o que ele está fazendo com a gente?
Spinoza, um homem à frente do seu tempo e por isso mesmo tão perseguido, enxergou o cerne da questão com uma frieza que corta como um diamante. Lá no século XVII, ele percebeu que o Deus no qual a maioria acredita é uma projeção gigantesca de nós mesmos. Criamos um rei cósmico, um legislador com humores e preferências, porque somos incapazes de conceber algo que não se pareça conosco. A sacada genial - e assustadora - de Spinoza foi dizer: parem de procurar uma pessoa. Deus não é um ser; Deus é o Ser. É a própria natureza, em seu processo infinito e impessoal de criação e destruição. É a teia da vida, não a aranha que a comanda.
Quando você transforma uma divindade numa pessoa, você começa a negociar com ela. Sua vida vira um balcão de negócios com o divino: "Eu te dou minha fé, você me dá segurança". Rezamos como se estivéssemos fazendo um pedido ao Papai Noel, vivemos aterrorizados com seu julgamento e, pior, terceirizamos nossa própria potência de viver. Spinoza via isso como a mais pura escravidão. Em vez de usar nossa razão para entender as causas reais dos fenômenos, sacudimos a poeira para um "mistério de deus" e ficamos parados, esperando uma intervenção que nunca vem - porque o universo não é um teatro, e nós não somos os atores preferidos do diretor.
E é aqui que a coisa fica muito mais profunda e existencial. Paul Tillich, um teólogo que bebeu das origens das angústias do século XX, chegou e deu um nome para tudo isso: é medo. Medo de encarar o "Fundamento do Ser", que é o verdadeiro deus. Esse deus pessoal, aquele com barba branca e um livro de regras? Um ídolo. Só mais um objeto que criamos para tapar o buraco do nosso pavor fundamental. Preferimos um pai rígido a um mistério vivo e incontrolável.
Mas e quando esse deus pessoal não é nem sequer o nosso deus tradicional? E quando, num mundo globalizado, nós, ocidentais, vamos "pescar" divindades de outras culturas para preencher nosso vazio? Pegamos um Orixá do panteão Iorubá, um aspecto de Shiva do Hinduísmo, e os transformamos em mais um item do nosso arsenal de autoajuda espiritual. É curioso, não? Será que estamos realmente buscando o Fundamento do Ser, ou apenas trocando de ídolo?
O que significa isso? Significa que mesmo a abertura ao "outro" religioso pode ser outra forma de narcisismo. Procuramos um deus que fale às nossas necessidades individuais, que cure nossas feridas, que dê um sentido à nossa vida. Raramente nos importamos com o povo que gerou aquela divindade, com sua história de resistência, sua cosmologia complexa. Queremos o produto, mas não o contexto. Queremos o deus, mas não o povo. E assim, mesmo na aparente diversidade, continuamos presos à mesma lógica: a de um deus pessoal, funcional, nosso empregado cósmico.
A consequência no nosso dia a dia é devastadora. Essa relação com um deus pessoal, seja ele qual for, nos infantiliza. Buscamos nele um colo fácil para nossas corpos frágeis, uma espécie de salvo-conduto para nossos erros, um manual para evitar a vida. Tillich chamaria isso de covardia. Covardia de não assumir a "coragem de ser". É uma tentativa desesperada de pular fora da estrada da liberdade e da finitude, onde não há garantias, só possibilidades.
Nosso comportamento é moldado assim. Nossa moral vira um cálculo de perdas e ganhos celestiais. "Não faço o mal porque Deus (qual deles?) castiga." Que ética é essa, que nasce do medo e não de uma compreensão profunda da vida? É uma espiritualidade de mercador, não de buscador. E nos impede de desenvolver uma compaixão real, que brota do entendimento de que o outro é tão frágil e perdido quanto eu.
A saída, para Spinoza, não está no ato de dobrar os joelhos no chão, mas no conhecimento. A verdadeira liberdade, a salvação, vem de uma compreensão quase amorosa da mecânica do mundo. Quando você entende que tudo é parte de uma rede necessária e bela, sua mente para de ser uma folha ao vento das tristes paixões. Você se torna ativo. Você age a partir da sua essência, e não reage aos supostos caprichos de um deus.
Tillich grita um "amém" a isso com sua teologia da coragem. A fé legítima não é acreditar que esse ou aquele deus existe. É dizer um sim incondicional à existência, mesmo sabendo que ela é frágil, passageira e, às vezes, absurda. É se engajar com o Fundamento de Tudo, sem a promessa de um final feliz. Aceitar que o que chamamos de deus não é um guarda-chuva contra a chuva, mas a coragem de se molhar e seguir em frente - essa é a maior das conquistas humanas.
Imagine então o homem ou a mulher que solta a mão desse deus pessoal. Não vira um monstro niilista. Vira um adulto. Um participante consciente e responsável pelo espetáculo da existência. Sua ética nasce de dentro: eu não machuco o outro porque ele é uma expressão do mesmo todo do qual eu faço parte. Sua espiritualidade é se maravilhar com o voo de um pássaro, com a complexidade de uma teia de aranha, com a dor que ensina e o amor que transforma. Tudo é sagrado porque tudo é.
Esse caminho é solitário. Ninguém pode rezar ou orar por você. Você está totalmente nu diante do mistério. É assustador pra caramba! Mas é a única coisa real. É você recuperando a autoria da sua própria história, com todos os seus erros gloriosos e acertos acidentais. É você se tornando humano, de verdade.
E sabe o que é mais irônico? Essa volta a um Deus maior, impessoal, nos joga direto nos braços dos primeiros filósofos, os pré-socráticos. Eles não tinham um deus pessoal. O divino para Tales era a água; para Heráclito, o fogo eterno e o Logos - a razão pulsante do cosmos. Eles buscavam a Physis, a força geradora da vida.
Pensar como um pré-socrático hoje é largar a necessidade de um deus que te ouça. É mergulhar de cabeça no mistério do mundo. É encontrar o sagrado na fúria do mar, na quietude de uma montanha, no ritmo do seu próprio sangue. O divino deixa de ser um interlocutor e se torna a música. E você, apenas uma nota breve e insubstituível.
A pergunta, no final das contas, não é se esse deus existe. A pergunta é: onde você está procurando por ele? No céu de um pai imaginário, no altar de um deus estrangeiro descolado, ou na realidade crua e bela do mundo, de você e do outro? A resposta não vai mudar sua fé. Vai mudar sua vida.
Ref.:
SPINOZA, B. (1677). Ethics. (Domínio público).
TILICH, P. (1952). The Courage to Be. Yale University Press.
SPINOZA, B. (1670). Theological-Political Treatise. (Public Domain).
TILICH, P. (1951). Systematic Theology, Volume 1. University of Chicago Press.
KIRK, G. S., Raven, J. E., & Schofield, M. (1983). The Presocratic Philosophers. Cambridge University Press.

Comentários
Enviar um comentário
Obrigado pelo seu comentário! Informo que ele estará sujeito a moderação, mas sempre respeitando seu direito a opinião.