QUANDO O QUE FAZ SENTIDO É DEIXAR DE BUSCAR O SENTIDO

Existem ocasiões onde as bases em que confiávamos começam a desmoronar. Aquelas convicções, organizadas com tanto cuidado, se desfazem como estuque ressecado. O planeta, que antes se mostrava sólido, subitamente revela sua fragilidade, e o suporte some sob nossos passos. Foi nesse ambiente incerto que Albert Camus construiu sua clareza – sem apoios, sem crenças, sem conforto. Ele não surgiu para salvar ninguém. Apenas evidenciou a falta, e solicitou que a encarássemos profundamente, sem desviar o olhar.

Na visão de Camus, o absurdo não é um conceito, mas sim uma experiência. É aquele momento súbito, numa banal terça-feira, quando a rotina se desfaz e a existência, antes tão familiar, surge como algo alheio. Você se encara no reflexo e se sente um estranho. Existe um fosso imenso entre a ânsia por significado e o implacável mutismo do planeta. Somos forasteiros, buscando interpretação num cosmos que permanece mudo.

Meursault - aquele que não chorou no enterro da mãe - é o homem que pagou o preço de ser honesto demais. Sua culpa não foi o assassinato, mas o fato de não fingir. A sociedade perdoa quase tudo, menos quem se recusa a atuar no teatro de sempre.

Em meio a essa sensação de abandono, as provações se manifestam. A crença religiosa, por exemplo, surge como uma forma de escapar do que não faz sentido. Camus descreveu essa atitude como um "suicídio do pensamento": renunciar à clareza em favor da crença. É a mesma troca de sempre – uma pequena dose de ilusão em troca de alívio. No entanto, ele rejeita essa opção. Escolhe a angústia da realidade em vez da tranquilidade da fantasia.

E o outro suicídio, o físico - o da desistência literal? Também não. Porque se a vida não tem sentido, o gesto de destruí-la é, na verdade, calar a única pergunta que nos define. O absurdo exige que continuemos olhando para ele. Viver, então, é manter essa tensão viva: a pergunta que não encontra resposta, e ainda assim insiste.

Mais perigosa do que a fé é a esperança. Ela veste o desespero com palavras bonitas: futuro, redenção, paraíso, revolução. Mas, no fundo, é só uma forma de fugir do agora. Marx já dizia - mudar o mundo não basta se continuamos escapando de nós mesmos.

Então, o que resta no fim das contas? O niilismo nos domina? Acaso nos entregamos? A resposta é não - é neste momento que Camus transforma a situação.

A revolta surge da percepção do absurdo. Não se trata daquela revolta de manifestações e palavras de ordem, mas sim de uma revolta pessoal, que reside no íntimo de cada um. Negar o absurdo é, de certa forma, celebrar a vida. Se não existem divindades, temos total liberdade - e somos totalmente responsáveis.

O homem absurdo é quem vive sabendo que tudo passa, e mesmo assim mergulha. Don Juan, não por vaidade, mas por fome. O ator, que se entrega ao papel sabendo que o palco logo se apaga. O conquistador, que age sem esperar eternidade. O valor não está no sentido, mas na intensidade.

E Sísifo - nosso companheiro teimoso. Empurra sua pedra montanha acima, vê tudo cair, e recomeça. Mas há um instante, na descida, em que ele sabe o que faz. E nesse saber, paradoxalmente, há liberdade. Ele não vence a pedra - mas também não é vencido.

Isso não é resignação. É amor fati - amar o destino, como ele é. Sartre via náusea; Camus via beleza. Meursault, diante da morte, descobre uma paz estranha: ele se abre à “terna indiferença do mundo”. Feliz, não apesar do absurdo - mas por causa dele.

Camus não nos dá respostas. Ele nos convida ao incêndio - o de viver sabendo que o sentido não virá. O sentido está no ato de buscar, no próprio respirar.

A vida vale porque é precária. Porque é nossa. Porque acaba.

Talvez seja isso o que ele mais quis dizer: que precisamos aprender a dançar sobre o abismo. Não para vencê-lo, mas para habitá-lo com graça.

E, no fim, imaginar Sísifo feliz - e, quem sabe, também imaginar a nós mesmos sorrindo, ofegantes, diante dessa tarefa inútil e esplêndida de existir.


Ref.: 
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2018.
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Rio de Janeiro: Record, 2019.
CAMUS, Albert. A Peste. Rio de Janeiro: Record, 2020.


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