DESMONTANDO A HERANÇA: A HISTÓRIA QUE ELAS ESTÃO ESCREVENDO

Este texto está sendo escrito, sabendo do paradoxo que habita minha condição. Sou herdeiro de uma estrutura que levei anos para enxergar - e ainda hoje, confesso, surpreendo-me descobrindo novos cantos sombrios. A violência contra a mulher nunca foi um capítulo isolado nos livros de história. Ela é a o elemento quase imperceptível, que une as páginas da nossa civilização. Um fio de medo, cor de sangue, cuja dominação que teceu, século após século, o que chamamos de experiência feminina.

Na Grécia Antiga, enquanto nossos ancestrais debatiam democracia na ágora, as mulheres de Atenas viviam nos gineceus (do grego gynaikeîon), que era o lugar da casa reservado às mulheres, um espaço onde elas passavam a maior parte do tempo, distante da área dos homens. Isto me faz lembrar da sensação estranha ao ler Xenofonte em "Oeconomicus" - o modo natural com que um homem deveria ensinar sua esposa, que poderia ter quinze anos, que sua vida seria administrar a casa e guardar os bens que o marido conquistava. Ela era, literalmente, um objeto, parte do patrimônio. E o pior é que essa lógica não ficou presa nos livros antigos - ainda hoje sinto seus ecos nos comentários à mesa de bar, nas piadas de família, nos olhares de desconfiança.

A religião que educou (e ainda educa) muita gente, deu roupagem sagrada a essa opressão. Lembro nitidamente do dia em que li Tertuliano chamando as mulheres de "porta do diabo". Fechei o livro com um gosto amargo na boca. Como podemos crescer nesse imaginário sem questionar? Como não percebemos que a tal "culpa original" feminina era justificativa para controle?

E quando alguma mulher ousava desafiar esse roteiro, a resposta era as chamas. A caça às bruxas documentada no Malleus Maleficarum - um documento com autenticidade não questionada. com valor de lei e teológico bem minucioso (c. 1486) visto como o manual padrão sobre bruxaria, abrangendo sua identificação e erradicação, até o século XVIII. Seu aparecimento teve um grande impacto ao incentivar e sustentar aproximadamente dois séculos de grande histeria de caça às bruxas em toda a Europa. Não foi histeria coletiva - foi genocídio metódico. Homens, queimaram mulheres que sabiam demais sobre ervas, que viviam sozinhas, que tinham propriedades ou simplesmente olhavam de modo que eles achavam "errado" - lembra algo para você, na atualidade? É um capítulo que deveria nos envergonhar  profundamente.

Até o Iluminismo, nos decepciona nesse aspecto. Rousseau, no Emílio, é cristalino: é evidente que Sofia vive para agradar Emílio. A nós, a lógica e o universo; a elas, o lar e as emoções. Chamamos isso de "natureza feminina", mas na verdade era apenas uma construção social para nos acomodar.

Demorou até eu ouvir as vozes que desmontavam essa farsa. Simone de Beauvoir acertou em cheio: "Não se nasce mulher: torna-se". Essa frase atinge como um soco. Ela tirava da biologia o peso da opressão e jogava na cultura - na cultura que muitos, mesmo sem querer, ajudava a sustentar.

Quando comecei a estudar psicanálise, fui encontrando peças para esse quebra-cabeça. Melanie Klein fala da divisão entre "seio bom" e "seio mau". E me peguei pensando: não será que nós, homens, projetamos na figura feminina essa ambivalência? Santificamos a mãe abnegada e demonizamos a mulher que ousa desejar, que exerce poder, que ocupa espaço - a que chamamos de "bruxa" ou "puta".

Mais fundo ainda foi Karen Horney. E se a tão falada "inveja do pênis" for, na verdade, o reflexo de uma cultura que sistematicamente desvaloriza o feminino? E se existir em nós, homens, uma "inveja do útero" - uma inveja da capacidade de gerar vida - que nos leva a construir impérios e controlar corpos como compensação? As exigências masculinas podem ser um sintoma de alguma falta, algo que não se sabe como nomear.

Vejo isso no cotidiano. A maneira como as mulheres ao meu redor calculam cada palavra, moderam sua ambição, sorriem quando não têm vontade. São mecanismos de sobrevivência num mundo que nós moldamos. E o mais dolorido, é que muita gente se beneficia desse silêncio, calando quando deveria ter falado. Muitos já riram - e ainda riem, de piadas que doíam.

Os frutos podres estão por toda parte: nos parlamentos majoritariamente masculinos, nos salários desiguais, na dupla jornada não reconhecida. A violência doméstica é o ponto culminante desse iceberg - o instante em que um homem, embriagado por séculos de autorreforço, acredita que pode aniquilar o que considera ser seu.

Mas nos últimos anos, algo mudou, mesmo que timidamente. O medo não desapareceu - ainda caminha com elas - mas deixou de ser o único ator principal. Vejo as mulheres transformando dor em narrativa, raiva em organização, solidão em rede. A Lei Maria da Penha não caiu do céu: nasceu de lutas concretas, de coragem acumulada.

Cada depoimento que ouço, cada história que leio, não é apenas um relato - é um ato de desobediência civil contra séculos de afronta e mordaça. Elas estão reescrevendo a história, e desta vez a tinta é da cor de sua própria voz, com todas as hesitações, todas as raivas, todas as dores e todas as delícias.

Essa história agora tem o rosto das avós, que muitas largaram o marido alcoólatra nos anos 60 com muitos filhos pequenos. Tem o nome da amiga que processou a empresa por assédio. Tem a força da desconhecida que ensina sobre sororidade, ou melhor, a solidariedade e acolhimento entre mulheres, sem nem saber.

O caminho ainda é longo, e a estrada está cheia de pedras que os homens, colocaram no caminho. Mas o passo delas agora é diferente. Já não caminham apenas com medo - caminham com a história na ponta da língua e a certeza de que ninguém mais vai contar sua história por elas.

E a aos homens, resta uma escolha urgente: ser os obstáculos que terão de ser derrubados, ou os aliados que finalmente aprenderam a ouvir? Minha esperança, embora frágil, é teimosa: que possamos aprender a desaprender. Que possamos olhar para o passado não com culpa paralisante, mas com senso de responsabilidade histórica. A casa que nossos avós construíram, afinal, tem um teto muito baixo para comportar toda a humanidade.



Ref.:
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. Vol. 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
SAFIOTI, Heleieth I. B. A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2013.
FEDERICI, Silvia. Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation. Brooklyn, NY: Autonomedia, 2004.
HORNEY, Karen. Feminine Psychology. New York: W. W. Norton & Company, 1967.
KLEIN, Melanie. Envy and Gratitude and Other Works (1946-1963). London: Hogarth Press, 1975.
MILETICH, I. (Org.). Xenophon: Oeconomicus. In: Xenophon IV. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923.



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