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DESMONTANDO A HERANÇA: A HISTÓRIA QUE ELAS ESTÃO ESCREVENDO

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Este texto está sendo escrito, sabendo do paradoxo que habita minha condição. Sou herdeiro de uma estrutura que levei anos para enxergar - e ainda hoje, confesso, surpreendo-me descobrindo novos cantos sombrios. A violência contra a mulher nunca foi um capítulo isolado nos livros de história. Ela é a o elemento quase imperceptível, que une as páginas da nossa civilização. Um fio de medo, cor de sangue, cuja dominação que teceu, século após século, o que chamamos de experiência feminina. Na Grécia Antiga , enquanto nossos ancestrais debatiam democracia na ágora , as mulheres de Atenas viviam nos gineceus (do grego gynaikeîon), que era o lugar da casa reservado às mulheres, um espaço onde elas passavam a maior parte do tempo, distante da área dos homens. Isto me faz lembrar da sensação estranha ao ler Xenofonte em " Oeconomicus " - o modo natural com que um homem deveria ensinar sua esposa, que poderia ter quinze anos, que sua vida seria administrar a casa e guardar os bens...

ALÉM DO VELHINHO NO CÉU: A CORAGEM DE SER VOCÊ MESMO

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Vamos falar de um Deus que não mora no céu, mas no nosso medo. Um Deus que inventamos porque a solidão do universo é grande demais para caber dentro do nosso peito. Esse deus pessoal, aquele com quem sussurramos à noite, a quem culpamos pelo acaso e agradecemos pela sorte, pode ser a mais perigosa das invenções humanas. E o que ele está fazendo com a gente? Spinoza , um homem à frente do seu tempo e por isso mesmo tão perseguido, enxergou o cerne da questão com uma frieza que corta como um diamante. Lá no século XVII, ele percebeu que o Deus no qual a maioria acredita é uma projeção gigantesca de nós mesmos. Criamos um rei cósmico, um legislador com humores e preferências, porque somos incapazes de conceber algo que não se pareça conosco. A sacada genial - e assustadora - de Spinoza foi dizer: parem de procurar uma pessoa. Deus não é um ser; Deus é o Ser. É a própria natureza, em seu processo infinito e impessoal de criação e destruição. É a teia da vida, não a aranha que a comanda....

O FEITIÇO DO PODER: QUANDO A ADMIRAÇÃO VIRA SUBMISSÃO

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Às vezes me pego pensando naquela sensação estranha quando uma figura pública parece ter todas as respostas que nos faltam. É um alívio momentâneo, como entregar o volante do carro em uma estrada escura. A gente suspende a desconfiança, esquece que políticas públicas são mais complexas que discursos, e se entrega ao conforto de seguir. Sempre me lembro de uma passagem de Platão   - nunca me saiu da cabeça. Não sei se foi na A República ou em outro diálogo, mas ele fala desse momento preciso em que a democracia adoece - quando a saudade de um pastor supera o medo do lobo. A gente troca a liberdade complicada pela obediência tranquila. O que Jan-Werner Müller chamaria de "povo verdadeiro" nessa história toda? No seu O que é o populismo? (2016, Editora Perspectiva, 2019) ele descreve essa lógica perversa onde o líder não erra porque encarna uma vontade coletiva. A gente vê isso acontecer diariamente nas redes, essa fusão perigosa entre pessoa e pátria que sufoca qualquer deba...

GAZA, O MUNDO E A ESPIRAL DO SILÊNCIO

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Alguns conflitos… ah, eles não desaparecem com o tempo. Não mesmo. Eles apenas se aprofundam. E não estão apenas no território - estão na gente, na cabeça, no coração. Tornam-se familiares, quase invisíveis, e a pergunta que muitas vezes nem ousamos fazer é simples: afinal, o que ainda está em jogo? Por que um governo insiste em caminhos cada vez mais isolados? E o que isso diz sobre nós, quando assistimos à tragédia se desenrolar lentamente, ano após ano, entre condenações vazias e uma falta de ação que, se pudesse gritar, ensurdeceria qualquer explosão? O problema vai muito além das disputas territoriais. É como estar num laboratório onde forças humanas primordiais - medo, poder, fé e ideologia - se chocam com a frágil arquitetura do direito internacional. As resoluções da ONU, nesse cenário, mais parecem notas à margem de um livro de horror, ignoradas por quem dita o roteiro, guiado por uma lógica própria que o mundo insiste em não compreender… ou mais simples ainda: não queira en...

O PACTO: COMO A TRÍADE DO PODER SUGA A VIDA DA SOCIEDADE

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Há um padrão que insiste em se repetir, um roteiro sombrio que transforma o potencial das nações em pó e cinzas . Não é uma conspiração, mas uma confluência de ambições: o momento em que o poder religioso, o poder militar e o poder econômico decidem dançar juntos. Separados, já carregam sementes de autoritarismo; unidos por um projeto de dominação, tornam-se uma máquina quase imparável de decadência. E o pior é que essa aliança raramente se anuncia com clarões. Ela chega sussurrando promessas de ordem e grandeza, explorando nossos medos mais profundos. Pense na sedução perversa dessa ideia. Um líder "escolhido por um deus", sustentado pelas baionetas "leais" e pelo dinheiro dos "patriotas". É uma fantasia perigosa que vende a ilusão do atalho para a estabilidade. A história, no entanto, é implacável em nos mostrar o destino final desse caminho: o despotismo. O poder militar, quando se desvia de sua função republicana de defesa para se tornar o cão de guar...

ELAS TIVERAM MEDO; HOJE, PRECISAM FAZER HISTÓRIA

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O medo é uma sombra familiar para muitas mulheres , uma presença constante que sussurra cautela onde deveria haver impulso, que aconselha silêncio onde a voz precisa erguer-se. É uma herança ancestral, cultivada em séculos de exclusão e subjugação, que insiste em ditar os limites do possível. Mas e se o medo não for um aviso, mas um convite? Um limiar a ser transposto justamente porque assusta? Foi nesse espaço tenso, entre o pavor paralisante e a ação corajosa, que incontáveis mulheres descobriram que a história não é algo que simplesmente acontece; é algo que se faz, ainda que com as mãos tremendo. No século XVIII, Mary Wollstonecraft já encarava esse fantasma de frente. Ela não pediu licença para questionar as estruturas que tornavam as mulheres criaturas frívolas e dependentes, educadas apenas para o agrado masculino. Em sua obra, Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher (1792, p. 45), ela argumenta com ferocidade: " Fortaleçam a mente feminina alargando-a, e haverá um fim ...

POR QUE A AGONIA DA FINITUDE É NOSSA MAIOR LIBERDADE

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Vivemos dias cinzentos, arrastando-nos entre obrigações e distrações vazias . A rotina, essa mestra ilusória, nos convence de que a existência se resume a cumprir horários, pagar boletos e perseguir prazeres muitos deles passageiros, efêmeros. Mas, em algum momento, no silêncio da madrugada, a pergunta emerge como um golpe: para que tudo isso? O que resta quando a cortina do quotidiano se abre e encaramos o palco vazio da nossa própria finitude? Num rompante de genialidade, o teólogo Karl Barth , sacudiu a teologia do século XX, escreveu que Deus é o “Totalmente Outro”. Esta não é uma ideia confortante; é um verdadeiro soco no estômago. Em sua Epístola aos Romanos, ele não nos oferece um abraço, mas um raio que incendeia todas as nossas seguranças fabricadas. A esperança, nesta perspectiva, não é um consolo - é uma revolução que começa no reconhecimento do nosso colapso. E é nesse colapso que outro grande pensador protestante histórico, Paul Tillich encontra o ponto que causa o incên...