ELAS TIVERAM MEDO; HOJE, PRECISAM FAZER HISTÓRIA

O medo é uma sombra familiar para muitas mulheres, uma presença constante que sussurra cautela onde deveria haver impulso, que aconselha silêncio onde a voz precisa erguer-se. É uma herança ancestral, cultivada em séculos de exclusão e subjugação, que insiste em ditar os limites do possível. Mas e se o medo não for um aviso, mas um convite? Um limiar a ser transposto justamente porque assusta? Foi nesse espaço tenso, entre o pavor paralisante e a ação corajosa, que incontáveis mulheres descobriram que a história não é algo que simplesmente acontece; é algo que se faz, ainda que com as mãos tremendo.

No século XVIII, Mary Wollstonecraft já encarava esse fantasma de frente. Ela não pediu licença para questionar as estruturas que tornavam as mulheres criaturas frívolas e dependentes, educadas apenas para o agrado masculino. Em sua obra, Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher (1792, p. 45), ela argumenta com ferocidade: "Fortaleçam a mente feminina alargando-a, e haverá um fim para essa obediência cega". Seu medo, se é que o teve, foi transmutado em uma prosa incendiária que desafiava a ordem estabelecida, mostrando que a primeira revolução precisa ocorrer entre as quatro paredes da própria mente.

Essa batalha intelectual, no entanto, ganharia contornos mais práticos e urgentes com a contribuição silenciosa, porém profunda, de Harriet Taylor. Seu ensaio A Emancipação das Mulheres (1851), embora publicado sob o nome de seu marido, John Stuart Mill, é um documento brutalmente lúcido. Ela vai além da educação e aborda a espinhosa questão econômica, defendendo que a independência financeira não é um luxo, mas a condição sine qua non para a liberdade real. Sem o direito de possuir seu próprio ganho e de participar da vida pública em pé de igualdade, a mulher permaneceria eternamente uma menor, uma assinatura sem valor na própria vida.

É fascinante observar como essas vozes, em séculos diferentes, ecoam a mesma verdade fundamental: a liberdade não é dada, é tomada. E tomá-la exige uma escolha existencial radical, um salto para fora dos papéis pré-determinados. Aqui, o pensamento de Jean-Paul Sartre, embora não focado especificamente na questão feminina, oferece uma ferramenta poderosa. Em O Existencialismo é um Humanismo (1946, p. 28), ele afirma que "o homem está condenado a ser livre". Condenado porque não há desculpas, não há essência prévia que justifique nossas ações. Aplicada à condição feminina, essa condenação é, na verdade, uma libertação. Se a sociedade diz "você é assim", a resposta existencial é "não, eu me faço".

Portanto, o medo de não ser capaz, de ser julgada, de fracassar, não é uma exclusividade feminina – é humano. A diferença crucial é que, para as mulheres, esse medo foi sistematicamente usado como uma ferramenta de controle. Foi socialmente vantajoso fazer crer que o espaço público era perigoso demais, a política complexa demais, a ciência árdua demais para uma mente feminina. Romper com isso é mais do que uma conquista social; é um ato de autenticidade filosófica. É recusar a "má-fé" de Sartre, que é a escolha de se enganar, de se esconder atrás de um determinismo conveniente.

Tomar a frente dos próprios direitos, então, não é sobre uma guerra contra os homens. É, antes de tudo, uma reconciliação consigo mesma. É sobre a mulher que decide que sua vida é o projeto mais importante que ela jamais irá gerir. É a mãe que retorna aos estudos, a executiva que exige o mesmo salário, a agricultora que luta pela posse da terra, a jovem que se recusa a um matrimônio arranjado. São atos cotidianos de coragem que, somados, alteram sem dúvida nenhuma o curso da história.

Essa tomada de posse é intransferível e insubstituível. Ninguém pode lutar sua batalha por você. Homens aliados são bem-vindos e necessários, mas a centelha inicial precisa vir de dentro. É um processo solitário às vezes, sim. É enfrentar o frio na barriga ao dar uma opinião contrária em uma reunião dominada por homens. É tremer as pernas ao discursar para uma plateia que pode não estar preparada para ouvi-la. É o medo que se transforma no combustível da ousadia.

O resultado dessa luta, contudo, transcende a individualidade. Quando uma mulher se levanta, ela não o faz apenas por si. Ela rasga o tecido do possível para todas as outras. Ela redefine o que significa ser mulher para a próxima geração, mostrando que a força e a vulnerabilidade podem coexistir, que a sensibilidade e a assertividade não são opostos, mas facetas de um todo complexo e poderoso.

O caminho, é claro, está longe de ser concluído. As sombras do medo ainda pairam, agora em formas modernas e por vezes mais insidiosas. Mas o exemplo das que vieram antes serve de farol. Wollstonecraft, Taylor e tantas outras anônimas não eram super-humanas destemidas. Elas eram mulheres de sua época, sujeitas às mesmas pressões e, provavelmente, acometidas pelas mesmas dúvidas. A diferença é que elas escolheram agir apesar do temor.

A provocação que fica, então, não é um grito de guerra, mas um sussurro desafiador: do que você tem medo? E, mais importante, o que você fará apesar desse medo? A história não é escrita apenas nas grandes revoluções, mas nas pequenas coragens do dia a dia. É na escolha de permanecer, de falar, de exigir, de criar, de ser. A autoria da própria vida é o direito mais fundamental, e ele não será concedido. Só pode ser reivindicado, conquistado e exercido. Com medo, sim. Mas com a certeza inabalável de que é seu por direito.






Ref.:
WOLLSTONECRAFT, Mary. Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher. São Paulo: Boitempo, 2016.
TAYLOR, Harriet. The Emancipation of Women. 
MILL, Harriet Taylor. Essays on Sex Equality. Chicago: University of Chicago Press, 1970.
SARTRE, Jean-Paul. L'existentialisme est un humanisme. Paris: Éditions Nagel, 1946.
BEAUVOIR, Simone de. Le Deuxième Sexe. Paris: Gallimard, 1949.
OFFEN, Karen. *European Feminisms, 1700-1950: A Political History*. Stanford: Stanford University Press, 2000.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

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