O PACTO: COMO A TRÍADE DO PODER SUGA A VIDA DA SOCIEDADE

Há um padrão que insiste em se repetir, um roteiro sombrio que transforma o potencial das nações em pó e cinzas. Não é uma conspiração, mas uma confluência de ambições: o momento em que o poder religioso, o poder militar e o poder econômico decidem dançar juntos. Separados, já carregam sementes de autoritarismo; unidos por um projeto de dominação, tornam-se uma máquina quase imparável de decadência. E o pior é que essa aliança raramente se anuncia com clarões. Ela chega sussurrando promessas de ordem e grandeza, explorando nossos medos mais profundos.

Pense na sedução perversa dessa ideia. Um líder "escolhido por um deus", sustentado pelas baionetas "leais" e pelo dinheiro dos "patriotas". É uma fantasia perigosa que vende a ilusão do atalho para a estabilidade. A história, no entanto, é implacável em nos mostrar o destino final desse caminho: o despotismo. O poder militar, quando se desvia de sua função republicana de defesa para se tornar o cão de guarda de um governo, é a face mais visível da ruptura. A disciplina ferrenha, necessária nos quartéis, é imposta às ruas. A crítica vira caso de segurança nacional, e o dissidente, um inimigo interno a ser neutralizado. Mussolini não foi um acidente; foi a encarnação lógica desse princípio, um coreógrafo que transformou a violência em espetáculo e a obediência em virtude cívica.

Já o poder religioso, quando deixa os púlpitos para negociar nos corredores do poder, oferece o produto mais valioso em tempos de crise: a legitimidade transcendental. Em regimes teocráticos, a lei dos homens se torna a lei de uma divindade - ou melhor, o que a interpretação que alguns homens fazem dela. A oposição política é transformada em blasfêmia, e a liberdade de consciência, o primeiro sacrifício nesse altar. O que vemos hoje, em solo brasileiro, com a ascensão política de um certo evangelismo conservador, é uma variação moderna e insidiosa desse fenômeno. A barganha é clara: apoio eleitoral em troca de influência na legislação e no orçamento. A laicidade do Estado, essa barreira frágil que protege a diversidade de crenças, é minada por dentro, transformando a fé em um instrumento de barganha política.

Thomas Piketty, em "O Capital no Século XXI", escancara a mecânica por trás do terceiro vértice. Quando a taxa de retorno do capital supera de forma crônica o crescimento da economia, a desigualdade se torna uma funcionalidade, não um bug do sistema (2014, p. 25). Mas o perigo maior surge quando essa concentração de riqueza deixa de ser apenas econômica e se alia a um projeto de poder. O dinheiro compra silêncio, financia narrativas e garante que as regras do jogo permaneçam eternamente favoráveis a uma elite que não hesita em se aliar a ditaduras. A ambição econômica, nesse contexto, não é ganância; é uma estratégia bem articulada e meticulosa de controle.

A fusão completa dessas três esferas - militar, religiosa e econômico, gera um monstro: o culto à personalidade. Figuras como Idi Amin Dada não são simplesmente tiranas; são a personificação viva do Estado. Sua imagem onipresente, sua palavra inquestionável, seus caprichos elevados à categoria de lei - tudo isso serve para esvaziar as instituições. Slavoj Žižek talvez dissesse que é a tentativa desesperada de preencher o vazio fundamental do poder com uma figura grotesca e totalizante (2003, p. 78). O líder não governa; ele encarna a nação, e questioná-lo é cometer traição.

As consequências são um cardápio de horrores previsível. Instabilidade crônica, porque o objetivo é a perpetuação, não o progresso. Colapso econômico, porque as decisões servem para saquear o erário, não para desenvolver o país. E a fome, a mais cruel das armas políticas, usada para submeter e fragilizar. Dietrich Bonhoeffer, antes de ser executado pelos nazistas, já alertava para a "graça barata", uma fé que oferece perdão sem arrependimento (2015, p. 47). Vivemos a era da "política barata", que oferece soluções simplistas sem responsabilidade, e da "religião barata", que abençoa o poder em troca de migalhas de influência.

Para não esquecer, Byung-Chul Han já nos fala de uma sociedade do cansaço, onde a exploração vem de dentro (2017, p. 9). Mas nos regimes onde essa tríade opera, o pior dos mundos se concretiza: a auto exploração convive com a repressão estatal clássica. A população é pressionada a se culpar por seu fracasso, enquanto é espoliada por um sistema que lhe nega oportunidades.

Como escapar dessa engrenagem? A saída não é única, mas plural. Passa, inevitavelmente, pela educação crítica - não a que se capacita para o mercado, mas a que ensina a desconfiar das narrativas prontas, como bem lembra Norberto Bobbio (1995, p. 102). É preciso fortalecer as instituições democráticas, essas estruturas chatas e burocráticas que são o último anteparo contra o arbítrio. Mas, talvez o mais importante, seja a reconstrução do tecido social a partir de baixo. A sociedade civil organizada, nos sindicatos, associações e coletivos, é o espaço onde a solidariedade real se pratica, contra a lógica do cada um por si.

Quem via na "atenção" um ato de generosidade suprema era Simone Weil (2019, p. 133). Cuidar do outro, especialmente do mais vulnerável, é o gesto político mais radical possível em tempos de cinismo. É a reafirmação prática de que existem valores que não estão à venda. A trindade do poder conta com o nosso individualismo. Sua derrota, portanto, só pode ser coletiva. Não é uma batalha épica, mas uma resistência do dia a dia, feita de escolhas conscientes e de uma recusa obstinada a aceitar que a decadência é o nosso destino inevitável.




Ref.:

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política. São Paulo: Editora Unesp, 1995.
BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Editora Sinodal, 2015.
HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.
PIKETTY, Thomas. O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
WEIL, Simone. A Gravidade e a Graça. Rio de Janeiro: Rocco, 2019.
ŽIŽEK, Slavoj. Bem-vindo ao Deserto do Real!. São Paulo: Boitempo, 2003


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