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O VAZIO A SUSSURRAR E O REFLEXO DA NOSSA INAÇÃO

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O silêncio nunca foi tão barulhento. Um zumbido de desespero, um ruído de fundo que sussurra promessas de ordem. A democracia nos deu o direito de escolher, mas nos negou a paz de não precisar fazê-lo. E nesse vazio, ergue-se a sombra familiar, vestindo novas roupagens para velhos cantos de sereia. Platão já antevia o colapso: " O tirano sempre surge como protetor do povo " (PLATÃO, 2001, p. 332). A queda começa na alma, não nas instituições. Um cansaço da liberdade. Um desejo doentio por obediência. Vimos isso nos comícios de Nuremberg, mas também nos tweets perfeitamente calculados que transformam a política em espetáculo de ódio. Lembro que numa aula de filosofia, alguém soltou esta frase: estrutura do poder autoritário se constrói com o mesmo material que é o medo do diferente. Já Sartre ataca com muita precisão: "Não somos nada além do que fazemos" (SARTRE, 1997, p. 55). A neutralidade é uma farsa. Uma escolha covarde. A má-fé é o refúgio dos medíocres que, ...

CIORAN E O ABISMO QUE NOS OLHA

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Quando a história grita, depois vem aquele silêncio pesado.  Não é paz, é um buraco mesmo, tipo o eco do que sobrou depois do caos. E aí, bem no meio da bagunça que a gente faz as desculpas mal contadas, aparece Cioran com aquele olhar seco, sem dó, jogando realidade na nossa cara. Não tá ali pra salvar ninguém, só pra esfregar a sujeira que a gente tentou esconder debaixo do tapete. No tal do Breviário de Decomposição , Cioran basicamente destrói essa conversa de que o mal é só uma ideia abstrata. Pra ele, fazer besteira é rotina, é quase instinto. Todo ser vivo, de algum jeito, pisa no outro, mata, usa, abusa. Não é teoria de bar, é só olhar em volta. Rousseau  estava lá sonhando com humanidade boazinha, utopia de comercial de margarina, enquanto Cioran já enxergava a sociedade como um circo louco, onde todo mundo mostra o pior de si. Lembra do Voltaire querendo que a razão resolvesse tudo depois do terremoto em Lisboa? Cioran ri disso. Ele não pergunta “por que existe o m...

QUANDO A RAZÃO ABDICA DO TRONO

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Vivemos obcecados pela ideia de que tudo deve fazer sentido. Esta necessidade quase visceral de encontrar padrões, causas e significados por trás de cada evento, por mais caótico que seja, é um dos traços mais persistentes da condição humana. Esta busca, no entanto, quando frustrada pelo silêncio indiferente do universo, frequentemente procura refúgio em narrativas que prometem respostas simples para perguntas complexas, por mais frágeis que essas narrativas se revelem. A ciência, em sua expressão mais pura, não é um fornecedor de sentidos absolutos, mas um método para construir modelos provisórios da realidade . Ela prospera na dúvida e na incerteza, avançando precisamente porque está disposta a admitir que estava errada. Thomas Kuhn , na sua obra seminal, demonstrou que o progresso científico não é linear, mas sim uma série de revoluções onde um "paradigma" é substituído por outro (KUHN, Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. Lisboa: Guerra e Paz, 2020). Este proc...

O QUE NOS AFUNDA E A LIBERDADE IGNORADA

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A gente vive numa correria desenfreada, enchendo os nossos dias de obrigações, metas e distrações. É um ritmo muito louco, quase automático. Até que, do nada, alguma coisa nos faz despertar. Pode ser um resultado de exame, a perda de alguém que amamos, ou simplesmente aquele momento pela manhã em que nos perguntamos: onde foi parar aquele jovem que eu era? De repente, a penumbra da finitude, que sempre esteve ali, se torna visível e fica impossível ignorar. E aí a pergunta que a gente empurra com a barriga a vida inteira vem com uma força avassaladora: e quando acabar? O curioso é que aparentemente somos os únicos animais a carregar esse fardo. Você já viu um gato ter uma crise de ansiedade pensando que só tem mais sete vidas? Um elefante, por mais sábio que seja, não fica angustiado com a própria finitude. Nós, os humanos, ganhamos uma faca de dois gumes: a consciência. Ela nos deu a arte, a ciência, o amor. Mas também nos deu o conhecimento terrível de que um dia a festa acaba. E a g...

O VAZIO QUE TENTAMOS PREENCHER COM INSENSATEZ

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Há um momento, quase imperceptível, em que nos damos conta de que estamos a interpretar um papel num palco cujo cenário desmorona a cada fala.  Percebemos que a maior parte da energia humana é despejada na construção de degraus frágeis para sustentar o que já ruiu por dentro: as nossas certezas, os nossos deuses, os nossos sentidos emprestados. Somos os únicos animais que pagam para comprar a própria jaula, e depois chamamos de templo. Vivemos obcecados com a busca de um manual de instruções que nunca foi incluído na embalagem. Esta ânsia por um sentido pré-fabricado é o que move a nossa mais profunda insensatez. Atiramo-nos de cabeça para narrativas que nos prometem um final feliz, um spoiler cósmico que justifique toda a dor, todo o tédio, toda a absurdidade de acordarmos todos os dias para repetir, com variações mínimas, os mesmos rituais. Schopenhauer talvez risse deste nosso frenesi: condenados a ser a manifestação de uma vontade cega, saltamos de desejo em desejo, como um ...

O MAL QUE HABITA AO LADO - INÉRCIA E OPRESSÃO

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A pergunta pela origem do mal não é um mero exercício teológico ou filosófico para ser debatido em torres de marfim. Ela ecoa nos nossos silêncios constrangidos, nas pequenas traições do dia a dia, na frieza com que às vezes ignoramos o sofrimento alheio. De onde vem essa capacidade, tão humana, de causar dor? Será que o mal é uma força externa e sobrenatural, ou algo que brota de dentro de nós, um produto amargo da nossa própria condição? Há séculos, Sócrates balançou Atenas com uma ideia desconcertante: ninguém faz o mal voluntariamente. Para ele, todo ato prejudicial é, em sua raiz última, um erro de cálculo . A pessoa que pratica o mal sofre de uma profunda ignorância, não de fatos, mas do que verdadeiramente é o bem. Ela confunde seu interesse imediato, seu prazer ou sua segurança com a verdadeira felicidade. Nessa visão, o malfeitor é, antes de tudo, um tolo, um ignorante que precisa ser educado, não apenas punido. É uma visão muito generosa, mas será suficiente para explicar ...

POR QUE ESCOLHEMOS A TIRANIA DA FÉ E DO ESTADO?

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A inquietação que percorre o espírito do nosso tempo não é meramente política ou econômica; é uma crise de profundidade existencial. Observa-se, com uma frequência cada vez mais alarmante, um recuo coletivo em direção a certezas absolutas, a bandeiras ideológicas incontestáveis e, sobretudo, a dogmas religiosos que oferecem um conforto barato à complexidade da condição humana. Este movimento não é orgânico, mas sim uma fuga. Uma fuga do peso esmagador de uma liberdade que não sabemos mais como carregar. Jean-Paul Sartre , em sua obra monumental, afirmou que estamos “condenados a ser livres ”. Esta condenação não é um presente, mas uma sentença que muitos se recusam a cumprir. A liberdade sartriana exige que nos reconheçamos como únicos autores de nossos valores e ações, sem a muleta de um deus, de uma tradição ou de um manual político que pense por nós . Assumir essa autoria é angustiante. É mais fácil, infinitamente mais cômodo, delegar essa responsabilidade a uma entidade superior ...