CIORAN E O ABISMO QUE NOS OLHA
Quando a história grita, depois vem aquele silêncio pesado. Não é paz, é um buraco mesmo, tipo o eco do que sobrou depois do caos. E aí, bem no meio da bagunça que a gente faz as desculpas mal contadas, aparece Cioran com aquele olhar seco, sem dó, jogando realidade na nossa cara. Não tá ali pra salvar ninguém, só pra esfregar a sujeira que a gente tentou esconder debaixo do tapete.
No tal do Breviário de Decomposição, Cioran basicamente destrói essa conversa de que o mal é só uma ideia abstrata. Pra ele, fazer besteira é rotina, é quase instinto. Todo ser vivo, de algum jeito, pisa no outro, mata, usa, abusa. Não é teoria de bar, é só olhar em volta. Rousseau estava lá sonhando com humanidade boazinha, utopia de comercial de margarina, enquanto Cioran já enxergava a sociedade como um circo louco, onde todo mundo mostra o pior de si.
Lembra do Voltaire querendo que a razão resolvesse tudo depois do terremoto em Lisboa? Cioran ri disso. Ele não pergunta “por que existe o mal?”, pergunta “por que a gente mente sobre ele?”. Consciência não salva, ela só acusa. Somos bichos que sabem o que fazem, aí inventamos deuses, filosofias, qualquer coisa pra aliviar a culpa.
A gente inventa um monte de narrativa pra se sentir menos podre. Deuses, sonhos, otimismo... tudo fuga. Ser otimista? Pra Cioran, é só medo com maquiagem. A história é um filme de terror, e a gente faz papel de vilão com a maior boa vontade do mundo.
Rousseau botava fé na educação, achava que dava pra negociar. Cioran ri de novo. Esses acordos todos servem só pra matar com mais classe. Educação só ensina a ser cruel de gravata, nada mais decente.
E aí, fazer o quê? Cioran não entrega manual de instruções. Só mostra o buraco. Em “Do inconveniente de ter nascido”, ele solta: “Não vale a pena se matar, porque a gente sempre se mata tarde demais.” Ou seja, encare a vida, mesmo que seja um porre.
Mas não é pra aceitar tudo de braços abertos, não. O negócio é desconfiar sempre. Fazer sabendo que toda certeza pode ser a semente do próximo desastre. As piores coisas que já rolaram foram feitas por gente convicta de que estava fazendo o certo, olha que ironia.
E aí vem a geração internet: dá um clique e vê guerra como quem troca de canal. Assina petição, faz textão revoltado, posta hashtag. Nada muda, tudo ilusão. Cioran iria rir disso, com certeza. Só serve pra gente fingir que não tem nada a ver com o o que está acontecendo.
Pensar como o Cioran é pra quem tem estômago. Desistir ou encarar? Normalmente a gente escolhe acreditar em qualquer coisa só pra continuar pisando na bola, só que com novas desculpas.
O “charme” dele é nem dar esperança. Os livros dele são tipo veneno que dissolve as ilusões, e às vezes a vontade de levantar da cama também. Remédio perigoso: ou te cura de mentira, ou te acaba de vez.
No fim das contas, não tem nada a ver com um deus, não. A conversa é sobre a humanidade. Olha pras suas mãos aí, vai. Pode estar limpinhas, mas vai saber o que já fizeram — ou vão fazer. Civilização é máscara, só isso, pra esconder a podridão.
Da próxima vez que bater aquela certeza “inabalável”, lembra: câmaras de gás, campos de concentração, tudo feito por quem achava que estava do lado do bem.
Sua convicção é o fósforo. Seu entusiasmo, a gasolina. Sua vontade de acreditar em algo é o solo fértil pra desgraça. Cioran nos faz perguntar: será que a gente tem coragem de parar, ou só de inventar mentira nova?
Agora olha pra trás. Depois olha pra dentro. O problema não tá nos outros. Tá aí, na sua cabeça, esperando a próxima ideia genial pra justificar a próxima besteira.

Comentários
Enviar um comentário
Obrigado pelo seu comentário! Informo que ele estará sujeito a moderação, mas sempre respeitando seu direito a opinião.