QUANDO A RAZÃO ABDICA DO TRONO
Vivemos obcecados pela ideia de que tudo deve fazer sentido. Esta necessidade quase visceral de encontrar padrões, causas e significados por trás de cada evento, por mais caótico que seja, é um dos traços mais persistentes da condição humana. Esta busca, no entanto, quando frustrada pelo silêncio indiferente do universo, frequentemente procura refúgio em narrativas que prometem respostas simples para perguntas complexas, por mais frágeis que essas narrativas se revelem.
A ciência, em sua expressão mais pura, não é um fornecedor de sentidos absolutos, mas um método para construir modelos provisórios da realidade. Ela prospera na dúvida e na incerteza, avançando precisamente porque está disposta a admitir que estava errada. Thomas Kuhn, na sua obra seminal, demonstrou que o progresso científico não é linear, mas sim uma série de revoluções onde um "paradigma" é substituído por outro (KUHN, Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. Lisboa: Guerra e Paz, 2020). Este processo é desordenado e, para o leigo, pode parecer uma prova de inconsistência, quando na verdade é a sua maior força.
O problema reside na percepção pública desta fragilidade controlada. Perante uma pandemia, uma crise climática ou uma recessão econômica, a linguagem técnica, as revisões de modelos e os debates entre peritos são interpretados não como sinais de um sistema saudável a autocorrigir-se, mas como prova de incompetência ou, pior, de uma conspiração deliberada. A falta de uma resposta monolítica e eterna é lida como uma falha de caráter da própria ciência, minando a sua credibilidade perante quem anseia por certezas imutáveis.
Esta erosão de confiança não ocorre num vácuo. É alimentada por uma negligência profunda na educação e na comunicação de ciência. O pensamento crítico, a literacia estatística e a compreensão básica do método científico são bens cada vez mais raros, deixando um terreno fértil para a sementeira da desinformação. O incentivo governamental para cultivar uma população intelectualmente equipada para navegar no mundo moderno é, em muitos casos, uma falência anunciada, um luxo a que os poderosos muitas vezes renunciam, talvez porque uma população confusa é mais fácil de manipular.
No vácuo deixado pela percepção de uma ciência "falhada" ou "elitista", erguem-se com vigor antigas e novas formas de pensamento mágico. A crença religiosa dogmática, os vários fundamentalismos, as teorias da conspiração e as "espiritualidades de supermercado" oferecem o que a ciência nunca prometeu: sentido imediato, conforto inquestionável e um lugar definido no cosmos. É o regresso tranquilizador a um universo centrado no homem, onde tudo acontece por uma razão, mesmo que terrível.
Aqui, o contraste é gritante. A ciência pede-nos que vivamos com a incerteza e que adiemos o julgamento até à acumulação de evidências. A crença religiosa fundamentalista, pelo contrário, oferece respostas finais e inquestionáveis. Como notou o polemista Richard Dawkins, há uma perigosa sedução em ser "intelectualmente satisfeito": a sensação de possuir todas as respostas é um narcótico poderoso, que dispensa o trabalho árduo do pensamento (DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. Lisboa: Casa das Letras, 2017). Esta substituição não é uma troca equivalente; é a troca de uma bússola por uma argola de ferro.
A fragilidade destes dois conceitos é de naturezas radicalmente opostas. A fragilidade da ciência é a da flexibilidade: é a força do junco que se dobra ao vento mas não parte. A fragilidade do dogma é a da rigidez: é a do ramo seco que, perante uma tempestade de factos, acaba por se estilhaçar, mas não sem antes causar estragos consideráveis na mente daqueles que a ele se agarram.
Podemos recuar à Grécia Antiga para encontrar a génese deste conflito. Parmênides de Eleia postulava que a verdadeira realidade era una, imutável e eterna, enquanto o mundo da percepção, com a sua multiplicidade e mudança, era uma ilusão (CASERTANO, Giovanni. O Caminho de Parménides. São Paulo: Loyola, 2011). De certa forma, o apelo religioso moderno é neoparmenídeo: anseia por uma verdade estática e perfeita por detrás do caos aparente, rejeitando o mundo fluido e imperfeito que a ciência estuda.
É crucial entender que a crença não é o inimigo. Como Peter Burke ilustra na sua história do conhecimento, as crenças e as superstições foram durante séculos parte integrante do tecido da compreensão humana do mundo (BURKE, Peter. Uma História Social do Conhecimento. Lisboa: Temas e Debates, 2019). O perigo surge quando estas se vestem com as roupas da ciência para lhe usurpar a autoridade, ou quando reivindicam para si o mesmo estatuto de verdade factual, sem sujeitarem-se ao mesmo escrutínio feroz.
O verdadeiro perigo, portanto, não é a existência de fé, mas a abdicação da razão como ferramenta principal para organizar a sociedade e tomar decisões coletivas. É o perigo de um regresso a um estado onde, como Thomas Paine criticou furiosamente em relação ao dogmatismo do seu tempo, a autoridade substitui a evidência e a revelação suplanta a razão (PAINE, Thomas. Os Direitos do Homem. Porto: Porto Editora, 2018).
O resultado é uma sociedade que, ao procurar sentido a todo o custo, se torna incapaz de lidar com problemas complexos que exigem nuance, paciência e a coragem de admitir a ignorância. Problemas como as alterações climáticas ou as pandemias são tratados com pensamento ilusório ou negação pura e simples, porque as suas soluções não se alinham com narrativas convenientes ou dogmas reconfortantes.
Este cenário é agravado por uma estratégia perversa e calculista: a descredibilização ativa da pesquisa científica por parte de certos governos. Quando os fatos se tornam inconvenientes para o poder, a resposta não é contestá-los com melhores fatos, mas sim sabotar a própria ideia de fatualidade. Cortes fundos em investigação, o desprezo público por especialistas e a promoção de uma suposta "ciência alternativa" não são sintomas de ignorância, mas sim de uma lucidez terrível. É a percepção de que uma população que desacredita do próprio mecanismo de busca da verdade é uma população impotente, resignada e fácil de governar através do medo e da superstição.
O desafio do nosso tempo não é escolher entre ciência e religião, mas sim travar uma batalha pela epistemologia, ou estudo do conhecimento – pela forma como sabemos o que sabemos. É defender o valor do conhecimento verificável, mesmo quando imperfeito, contra a atração fatal das certezas absolutas e não verificadas. É recuperar a coragem de habitar o vazio e encontrar nele, não o desespero, mas a liberdade de perguntar, de duvidar e de, lentamente, construir entendimento.
Quantas vidas, quantos futuros serão perdidos não porque falhamos em encontrar a cura, a solução ou a resposta, mas porque decidimos, coletivamente, que já não valia a pena procurar? O perigo último não é a existência da ignorância, mas a celebração dela. E quando o último laboratório fechar por falta de fundos, substituído por um templo que promete todas as respostas sem nunca ter feito uma pergunta, quem nos salvará de nós mesmos?
Ref.;
BURKE, Peter. Uma História Social do Conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Lisboa: Temas e Debates, 2019.
DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. Lisboa: Casa das Letras, 2017.
KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. Lisboa: Guerra e Paz, 2020.
PAINE, Thomas. Os Direitos do Homem. Porto: Porto Editora, 2018.
CASERTANO, Giovanni. O Caminho de Parménides. São Paulo: Loyola, 2011.
SCHÄFER, Klaus; SPARN, Walter (Hrsg.). Zweifel und Gewissheit. Skeptische Debatten im Mittelalter und in der Frühen Neuzeit. Frankfurt am Main: Akademie Verlag, 2016.
DUHEM, Pierre. Ziel und Struktur der physikalischen Theorien. Hamburg: Meiner Verlag, 1998.

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