O VAZIO A SUSSURRAR E O REFLEXO DA NOSSA INAÇÃO
O silêncio nunca foi tão barulhento. Um zumbido de desespero, um ruído de fundo que sussurra promessas de ordem. A democracia nos deu o direito de escolher, mas nos negou a paz de não precisar fazê-lo. E nesse vazio, ergue-se a sombra familiar, vestindo novas roupagens para velhos cantos de sereia.
Platão já antevia o colapso: "O tirano sempre surge como protetor do povo" (PLATÃO, 2001, p. 332). A queda começa na alma, não nas instituições. Um cansaço da liberdade. Um desejo doentio por obediência. Vimos isso nos comícios de Nuremberg, mas também nos tweets perfeitamente calculados que transformam a política em espetáculo de ódio. Lembro que numa aula de filosofia, alguém soltou esta frase: estrutura do poder autoritário se constrói com o mesmo material que é o medo do diferente.
Já Sartre ataca com muita precisão: "Não somos nada além do que fazemos" (SARTRE, 1997, p. 55). A neutralidade é uma farsa. Uma escolha covarde. A má-fé é o refúgio dos medíocres que, diante do avanço do absurdo, cruzam os braços e chamam isso de "sabedoria". O mal não é uma abstração. É burocrático. Hannah Arendt anotou no tribunal de Jerusalém: Eichmann era um homem comum, um funcionário zeloso cuja banalidade era mais aterrorizante que qualquer monstro mitológico (ARENDT, 1999, p. 289) - já citado em publicação anterior neste blog. Ele não pensava. Apenas cumpria ordens - parece familiar?
O Brasil conhece muito bem esse tipo de veneno. Janeiro de 2023 não foi um acidente. Foi a erupção de um vulcão que vinha sendo alimentado há anos pela lava tóxica da desinformação e pelo culto à personalidade. Foi a banalidade do mal vestindo a camisa da seleção de futebol. Mas não estamos sozinhos. A invasão do Capitólio em 2021 seguiu o mesmo roteiro: a substituição da política pelo mito, a verdade pelo storytelling.
O parasitismo moderno é digital. Consumimos indignação como entretenimento. Compartilhamos ódio em formato de meme. Nos tornamos agentes voluntários da nossa própria servidão, acreditando que somos livres porque podemos escolher entre diferentes sabores de opressão. O filósofo Byung-Chul Han já nos avisava: a sociedade do cansaço é a mais propícia ao autoritarismo (HAN, 2017, p. 12). Cansados, entregamos nossa liberdade em troca de um pouco de paz.
A história não se repete, mas ecoa de forma grotesca. O culto à personalidade de um Hitler ou de um Stalin ressurgem nos hoje conhecidos como influencers que vendem soluções simples para problemas complexos. A retórica da "Grande Substituição", teoria conspiratória de extrema-direita, bebe das mesmas fontes dos Protocolos dos Sábios de Sião. O mesmo ódio, um novo algoritmo.
O que Foucault chamou de "sociedade disciplinar" (FOUCAULT, 1987, p. 215) deu lugar à sociedade de controle. Não precisamos mais de tanques de guerra nas ruas. Temos big data, vigilância algorítmica e a privatização do desejo. O autoritarismo do século XXI será gamificado, com pontos de fidelidade por obediência e recompensas por conformidade.
E você? O que faz com sua liberdade condenada? A enterra no cemitério das conveniências? A troca por likes e uma sensação vazia de pertencimento? A resposta não está em livros. Está no abismo entre um pensamento e uma ação. No momento em que você decide não compartilhar aquela notícia que não verificou a autenticidade. Na coragem de desafiar o lugar-comum na mesa de jantar.
O que resta é o grito no deserto vazio e sem vida. A recusa obstinada a se tornar cúmplice do próprio apocalipse. Como bem disse Albert Camus, "no meio do inverno, eu finalmente aprendi que havia em mim um verão invencível" (CAMUS, 2013, p. 112). A resistência começa quando aceitamos o fardo pesado e glorioso de pensar por nós mesmos. O resto é somente silêncio.
Ref.:
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
PLATÃO. A República. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1997.
FOUCAULT, Michel. Discipline and Punish: The Birth of the Prison. New York: Vintage Books, 1987.
HAN, Byung-Chul. Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power. London: 2017.

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