QUANDO OS DEMAGOGOS RESSURGEM NAS CRISES
A sensação é estranhamente familiar. Em diversas nações, figuras políticas que desafiam instituições, semeiam polarização e flertam com o autoritarismo ganham espaço. Não é um fenômeno isolado, nem surgiu do vácuo. A ascensão de lideranças de extrema-direita na atualidade ecoa, de forma perturbadora, padrões históricos que historiadores e cientistas políticos vêm há décadas alertando. Compreender essa dinâmica não é um exercício acadêmico distante; é crucial para decifrar nosso presente.
A mistura política perfeita para esses movimentos parece sempre envolver uma mistura tóxica de insegurança profunda. Crises econômicas prolongadas, que corroem a confiança no futuro e ampliam desigualdades, são combustível potente. Como Robert Paxton, renomado historiador do fascismo, observa, movimentos radicais frequentemente encontram terreno fértil quando grandes parcelas da população se sentem "deixadas para trás", economicamente vulneráveis e culturalmente deslocadas. A ansiedade sobre identidade nacional, impulsionada por mudanças demográficas rápidas e fluxos migratórios, é outro ingrediente-chave explorado habilmente.
Não se trata apenas de condições externas. A estratégia de comunicação dessas lideranças é um fator determinante. Elas dominam a arte da simplificação extrema, reduzindo problemas complexos a slogans cativantes e inimigos facilmente identificáveis. O discurso é frequentemente anti-establishment, deslegitimando elites políticas e midiáticas tradicionais. O alvo? As instituições democráticas são pintadas como corruptas, ineficientes e traidoras do "povo verdadeiro". Esse ataque sistemático à credibilidade das instituições mina os pilares da convivência democrática.
A comparação com a década de 1930 é inevitável, embora exigindo cuidado para não cair em equivalências simplistas. O período entreguerras viu o colapso de democracias frágeis diante de demagogos que prometiam ordem e restauração nacional em meio ao caos econômico e humilhação pós-guerra. Timothy Snyder, em seus trabalhos sobre o autoritarismo do século XX, alerta para a repetição de certas "etapas" em direção ao colapso democrático, começando justamente pela erosão deliberada da verdade factual e pela polarização irreconciliável. A desconfiança na informação objetiva, fomentada hoje em ecossistemas digitais fragmentados, encontra paralelo na propaganda massiva daquela era.
O papel da mídia é crucial em ambos os contextos. Se antes o rádio e os jornais controlados amplificavam as mensagens únicas, hoje as redes sociais e certos canais de comunicação atuam como câmaras de eco, acelerando a disseminação de desinformação e teorias conspiratórias que alimentam o medo e a raiva. A fragmentação da esfera pública dificulta o diálogo racional e beneficia aqueles que lucram com o conflito permanente. A banalização da mentira, como Hannah Arendt tão lucidamente analisou em relação aos regimes totalitários, corrói a base do debate público.
As consequências dessa ascensão são palpáveis e preocupantes. Em primeiro lugar, ocorre um endurecimento visível das políticas migratórias, frequentemente baseadas mais em pânico moral e xenofobia do que em evidências concretas. Direitos de minorias, duramente conquistados, passam a ser questionados e atacados, sob o pretexto de proteger "valores tradicionais". O espaço para a sociedade civil e a crítica independente se contrai, com tentativas de cercear ONGs, imprensa livre e o poder judiciário quando este atua como contrapeso.
A polarização extrema, cultivada como estratégia política, envenena o tecido social. O diálogo cede lugar ao confronto; o adversário político é transformado em inimigo existencial. Essa dinâmica, como nos lembra o historiador alemão Heinrich August Winkler ao analisar o fracasso da República de Weimar, é altamente destrutiva para a coesão necessária à sobrevivência democrática. A violência política, verbal ou física, tende a aumentar nesses climas de ódio estimulado.
Economicamente, embora muitas dessas lideranças surfem na insatisfação popular, suas políticas frequentemente exacerbam as desigualdades que ajudaram a criar, privilegiando grupos aliados em detrimento do bem-estar coletivo. O desprezo por acordos internacionais e instituições multilaterais fragiliza a capacidade de resposta a desafios globais, como pandemias ou crises climáticas, que exigem cooperação. O isolacionismo ressurgente é um risco para todos.
Qual é, então, o antídoto? A história oferece lições amargas, mas também indica caminhos. A defesa intransigente das instituições democráticas e do Estado de Direito é fundamental. Isso inclui um judiciário independente, uma imprensa livre e vigorosa, e eleições justas e incontestáveis. Combater ativamente a desinformação, promovendo a educação midiática e o pensamento crítico desde cedo, é outra frente crucial. Não se trata de censura, mas de fortalecer a capacidade dos cidadãos de discernir fatos de ficção.
Talvez a lição mais importante seja não subestimar a ameaça. Como Eric Hobsbawm destacou ao analisar o "breve século XX", períodos de crise profunda podem levar sociedades a escolhas catastróficas quando alternativas progressistas parecem fracas ou distantes. A complacência das elites tradicionais e das classes médias, acreditando que o extremismo "não chegará aqui" ou que pode ser controlado, foi um erro fatal em diversos episódios históricos. A normalização da retórica extremista é sempre o primeiro passo perigoso.
A ascensão atual de lideranças de extrema-direita não é um acidente histórico. É um sintoma de tensões sociais, econômicas e culturais mal resolvidas, habilmente exploradas por atores que desdenham das regras do jogo democrático. Reconhecer os padrões históricos – os medos explorados, as táticas utilizadas, as instituições atacadas – não é alarmismo infundado. É um imperativo para qualquer um que valorize a liberdade, a tolerância e a governança baseada em fatos. O passado não se repete de forma idêntica, mas seus ecos oferecem avisos gritantes que não podemos ignorar. O futuro da democracia liberal, mais uma vez, depende de estarmos atentos e decididos a defendê-la.
Ref.:
Paxton, Robert O. The Anatomy of Fascism. Alfred A. Knopf, 2004.
Snyder, Timothy. On Tyranny: Twenty Lessons from the Twentieth Century. Tim Duggan Books, 2017.
Arendt, Hannah. The Origins of Totalitarianism. Schocken Books, 1951 (editions vary).
Winkler, Heinrich August. Weimar 1918-1933: Die Geschichte der ersten deutschen Demokratie. C.H. Beck, 1993.
Hobsbawm, Eric. The Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914–1991. Abacus, 1994.
Mudde, Cas. The Far Right Today. Polity Press, 2019.
Fromm, Erich. Escape from Freedom. Farrar & Rinehart, 1941 (editions vary).
Traverso, Enzo. Les Nouveaux Visages du Fascisme. Textuel, 2017.

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