ACORDAR CHORANDO PORQUE AINDA NÃO ENTENDE COMO DESAPARECER

Esta frase não está nos livros de autoajuda. Nunca se falou tanto em autocontrole, serenidade, aceitação. Seja forte, dizem, respira fundo, não reaja, não reclame. Engole seco e siga. É o mantra do nosso tempo.

A verdade é, nem todo mundo consegue suportar a vida com compostura. E talvez não devesse mesmo.

Quantas vezes você já viu alguém quebrar em mil pedaços e ouvir: "Você precisa ser forte". Quantas vezes alguém perdeu o filho, foi traído, humilhado, destruído? E a resposta foi: aceite, você não controla o mundo, só suas reações. Parece justo, parece sábio, mas é real? Você deve olhar pro horror e dizer: "Sim, isso é insuportável e que isso seja o bastante."

Dizer a alguém em luto: "aceite", é da vida." É o mesmo que dar um copo de água a alguém que está se afogando. É o tipo de consolo que alivia quem diz, nunca quem ouve, porque há dores que não cabem em molduras filosóficas.  Há uma arrogância disfarçada de serenidade em quem tenta transformar o sofrimento em lição de casa. A perda de um filho, a paralisia súbita, a loucura que chega sem avisar, são experiências brutas, incompreensíveis, animalescas. Será que estamos tentando limpar uma cena de crime com um lenço perfumado? 

É uma agonia estendida, porque o verdadeiro problema é a tentativa de racionalizar o irracional, a busca de sentido onde só há cinzas, pois existem dores que não pedem explicação, pedem silêncio. A história não é feita só de guerras, mas de justificativas. Foi pela razão que se queimaram pessoas vivas, pela razão que se exterminaram etnias, pela razão que se torturou em nome do equilíbrio. A razão, quando usada como ídolo, vira método de opressão. O horror não depende de interpretação. O horror acontece. Você pode racionalizar a morte de um ente querido o quanto quiser. Ela continua morta.

Na Segunda Guerra Mundial, psiquiatras relataram soldados que choravam sem motivo no meio das batalhas. Não estavam feridos, não tinham perdido ninguém, mas a mente colapsava porque a razão não segura o trauma. Ela observa, ela tenta organizar, mas ela também quebra, porque nem toda a dor deve ser racionalizada. Algumas precisam ser sentidas. O livre arbítrio, segundo diversas pesquisas recentes, indicam que não somos tão livres quanto gostaríamos de ser. 

Decisões começam a ser processadas no cérebro antes que a mente esteja ciente delas. Ou seja, até nosso querer já vem atrasado. O domínio de si talvez seja só a ilusão de um navegador que acha que controla o mar. 

Nenhuma dor melhora ninguém. A dor, quando muito, nos diminui até que aceitemos rastejar. O sofrimento real não tem ética. Ele não é pedagógico, ele não te lapida, ele te mói - "É fácil suportar o infortúnio dos outros com frases: difícil é calar diante daquilo que não pode ser dito." Aceitar o absurdo é a forma mais lúcida de respeito à existência.  Parar de explicar, começar a respirar. Lucidez é uma maldição sem cura, então você não deve apenas pensar, você precisa sentir o que está por trás de cada frase.

Talvez em algum momento da sua vida, o silêncio tenha feito mais sentido do que todas as explicações. Talvez você também tenha olhado para o mundo e pensado, é sério que a resposta é: aceite com virtude?




Ref. Compilação de textos e adaptação dos escritos de Emil Mihai Cioran (1911 - 1995) escritor e filósofo romeno, como em Silogismos da Amargura, baseado no niilismo radical - trechos traduzidos dos originais.


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