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O MAL DISCRETO DA ESTUPIDEZ MODERNA

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Há momentos em que a estupidez humana aparece não como um acidente, mas como um modo de ser do mundo - uma vibração subterrânea que percorre as estruturas sociais e os nervos individuais. Não se trata do erro, que ainda carrega a dignidade de um desvio humano, mas de outra coisa: uma espécie de desatenção ontológica, como se parte da humanidade tivesse desistido de olhar para si, preferindo o conforto de respostas prontas à inquietação de pensar. Pascal já advertira: a miséria do homem decorre de sua incapacidade de permanecer sozinho em seu quarto (PASCAL, 2005). Talvez porque ali, no silêncio, somos obrigados a ouvir o rumor de nossa própria finitude, e a estupidez surge justamente como o mecanismo que tenta nos poupar desse encontro. O século XXI intensificou essa tendência ao oferecer um cardápio infinito de distrações, onde as opiniões, desprovidas de lastro, circulam com a velocidade dos impulsos elétricos. Arendt viu na banalidade do mal não uma monstruosidade extraordinári...

QUANDO O CULTO À PERSONALIDADE SABOTA A RAZÃO COLETIVA

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O século XXI parece ter acordado com pressa - e nunca mais saiu desse estado febril. A informação se atropela, as opiniões surgem antes de serem pensadas e, curiosamente, apesar de toda essa hiperconsciência, continuamos presos a algo profundamente antigo. Celebramos o fim dos grandes relatos como quem se liberta de um jugo, mas logo nos ajoelhamos diante de figuras públicas com a mesma devoção que nossos antepassados dirigiam aos seus deuses domésticos. Isso não é exatamente novo; o que é novo é a fulminante velocidade com que fabricamos e destruímos esses ídolos políticos e culturais. O mais inquietante é que parece não ser o líder a questão, mas o vazio que nos leva a buscá-lo. Será que a política contemporânea é apenas um palco atualizado para rituais pagãos que nunca abandonamos de verdade? Não posso deixar de envolver Emil Cioran , que nunca teve medo de tocar na ferida humana, percebeu esse impulso com precisão desconfortável. Em Breviário de Decomposição (1949), ele insiste:...

DO SOL INVICTO AO FILHO DE DEUS: OS CAMINHOS PARA O DIA DE NATAL

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A celebração do Natal em 25 de dezembro parece uma verdade tão arraigada quanto os próprios costumes que a acompanham. No entanto, esse dado aparentemente simples esconde um dos maiores mistérios da tradição cristã. Um mergulho nas fontes mais antigas revela um silêncio desconcertante: os Evangelhos, que narram com detalhes a paixão e a ressurreição, não fazem a menor menção à data do nascimento de Jesus. Esse vazio inicial é o ponto de partida de uma jornada fascinante pela história, pela astronomia e pela política de uma época em que o Cristianismo dava seus primeiros passos em um mundo dominado por outros deuses. A primeira pista documental que associa explicitamente o nascimento de Cristo ao dia 25 de dezembro surge em um antigo calendário romano, o Chronograph do ano 354 E.C., produzido por um escritor romano chamado Fúrio Dionísio Filócalo. Este registro, porém, é tardio. Ele aparece quando o Cristianismo, outrora uma seita perseguida, já se havia transformado na religião ofici...

A REVOLUÇÃO INACABADA: CIÊNCIA, PODER E A RELUTÂNCIA EM ENXERGAR

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Imaginar o universo antigo é imaginar um grande palco, cuidadosamente construído ao longo de séculos, cujo funcionamento parecia evidente aos olhos de seus intérpretes. No centro dessa vastidão ordenada repousava a Terra, imóvel, sólida, inevitável. Descendo de Aristóteles , especialmente no De Caelo , perpetuou-se a imagem de um cosmos finito e hierarquizado, no qual cada esfera cumpria um papel próprio. A região sublunar, imperfeita, contrastava com a perfeição incorruptível da esfera celeste. Nada disso era apenas ciência: era, sobretudo, uma arquitetura de sentido que dizia ao ser humano quem ele era dentro da totalidade. Quando Ptolomeu , no século II, compôs o Almagesto , ele não inaugurou um cosmos, mas lhe deu proporção matemática. A geometria dos epiciclos , deferentes e equantes, destinada a salvar as aparências observacionais, consolidava uma tradição que misturava cálculo e metafísica. Como observa Koyré (1957), o sistema funcionava não apenas porque previa eclipses e retr...

A DISTOPIA DA REPÚBLICA QUE ADOTOU O SAGRADO COMO CONSTITUIÇÃO

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Era uma vez na chamada República Teocrática da Ordem e Progresso, em que a paz não é uma conquista, mas uma espécie de torpor coletivo. Não se trata de serenidade - e sim de desistência. As pessoas caminhavam como quem aceita viver dentro de uma vitrine: iluminadas, polidas, entretidas por um carrossel interminável de mercadorias e distrações. A felicidade, vendida em suaves prestações, era menos uma experiência interior e mais um adereço obrigatório. Ninguém precisava pensar; bastava consumir. E a alienação, tão discreta, deixava de ser incômodo para tornar-se uma forma confortável de anestesia. Nesse ambiente rarefeito, onde a realidade parecia sempre um pouco desfocada, a política degenerou numa guerra de torcidas. O cidadão já não se comprometia com ideias, mas com slogans . Não defendia princípios, mas fardamentos. Seus líderes eram venerados, assim como os ídolos esportivos, incapazes de erro, impermeáveis ao debate. A conversa pública, esvaziada de qualquer substância, resumia-s...

O REGRESSO INFINITO: QUEM CRIA O CRIADOR?

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Há algo de desconcertante no modo como o cosmos se cala. Diante do céu aberto, salpicado de luzes que parecem tão antigas quanto o próprio tempo, o ser humano sempre se viu forçado a perguntar de onde brota tudo o que existe. Muitas tradições responderam a esse assombro com a figura de um criador - um gesto divino que, num sopro inicial, teria arrancado o mundo do nada. Essa imagem consola e organiza: ajuda-nos a dar sentido à desordem e a imaginar uma origem que não seja mero acaso. Mas basta aceitar essa hipótese por um instante para que outra dúvida surja, ainda mais inquieta. Se tudo precisa de um princípio, quem, então, teria dado origem ao próprio criador? A pergunta incomoda, quase ofende certos ouvidos; porém, para a filosofia e para a ciência, ela é inevitável. É ali, nesse limite em que a lógica parece tropeçar, que começamos a perceber o quanto nossas categorias são frágeis. Podemos tentar virar o problema do avesso. E se o universo, ou aquilo que chamamos assim, nunca tive...

A ILUSÃO DA GUERRA JUSTA: QUANDO SATANÁS VESTE O UNIFORME

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Há algo de inquietante no modo como certos jovens, às portas da morte, enxergam o mundo com uma nitidez que os vivos raramente suportam . CHARLES SORLEY , enterrado ainda em vida pela terra lamacenta de Loos - batalha que ocorreu entre 25 de setembro e 13 de outubro de 1915, na Frente Ocidental durante a Primeira Guerra Mundial, sendo a maior ofensiva britânica daquele ano - parecia ter compreendido cedo demais que a guerra não é um equívoco moral, mas uma espécie de falência espiritual. Em sua despedida brusca, quase ríspida, disse que não havia guerra justa; apenas a troca de um satanás por outro. Suas palavras - duras, sem sentimentalismo - continuam a reverberar como um espelho desconfortável: quantos nomes já demos ao mesmo monstro para não encarar que ele permanece o mesmo? Esta pergunta, na verdade, é antiga. Ela atravessa a memória do Ocidente como um fio arrancado de um tecido milenar. Esparta fez da guerra uma escola diária, um modo de modelar corpos e destinos. Roma, m...