QUANDO O CULTO À PERSONALIDADE SABOTA A RAZÃO COLETIVA
O século XXI parece ter acordado com pressa - e nunca mais saiu desse estado febril. A informação se atropela, as opiniões surgem antes de serem pensadas e, curiosamente, apesar de toda essa hiperconsciência, continuamos presos a algo profundamente antigo. Celebramos o fim dos grandes relatos como quem se liberta de um jugo, mas logo nos ajoelhamos diante de figuras públicas com a mesma devoção que nossos antepassados dirigiam aos seus deuses domésticos. Isso não é exatamente novo; o que é novo é a fulminante velocidade com que fabricamos e destruímos esses ídolos políticos e culturais. O mais inquietante é que parece não ser o líder a questão, mas o vazio que nos leva a buscá-lo. Será que a política contemporânea é apenas um palco atualizado para rituais pagãos que nunca abandonamos de verdade?
Não posso deixar de envolver Emil Cioran, que nunca teve medo de tocar na ferida humana, percebeu esse impulso com precisão desconfortável. Em Breviário de Decomposição (1949), ele insiste: “Não conseguimos viver sem adorar alguma coisa; e quando falta Deus, ficamos com os ídolos”. E aqui estamos, orgulhosamente seculares, repetindo velhos comportamentos sob novas máscaras. A morte de Deus, anunciada por Nietzsche, não nos deixou órfãos - ao contrário, deixou-nos ávidos por qualquer objeto de devoção. A política virou altar improvisado; o influenciador digital, espécie de santo laico; o artista, um profeta sem templo. A fé simplesmente trocou de roupa.
Os antigos estoicos, que conheciam as fraquezas humanas com uma sobriedade que hoje falta, já advertiam sobre isso. Sêneca, nas Cartas a Lucílio, alerta: “Ninguém é mais infeliz do que aquele para quem nunca a porta esteve fechada”. A frase é antiga, mas soa assustadoramente moderna. Vivemos com todas as portas abertas - e não no bom sentido. Não suportamos o silêncio; buscamos preenchê-lo com a voz mais alta, mais firme, mais sedutora. O líder carismático entra nessa brecha. Ele oferece direção, causa, inimigo. Oferece aquilo que esquecemos de cultivar internamente: alguma forma de eixo.
Epicteto, que nasceu escravo e morreu mestre, ensinava que a liberdade começa na distinção entre o que controlamos e o que não controlamos. Nossas opiniões, desejos, escolhas: isso nos pertence. A reputação, o poder, o comportamento alheio: isso jamais estará em nossas mãos. O culto à personalidade simplesmente inverte essa bússola. Devolvemos ao líder o que é nosso - a responsabilidade - e lhe cobramos o que nunca foi dele: a garantia de sentido. É uma troca injusta e cômoda, mas incrivelmente sedutora.
Movimentos progressistas, que nasceram para romper hierarquias, às vezes escorregam nessa mesma lógica. A crítica vira palavra sagrada e o pensador - um oráculo. O debate se retrai, a pluralidade empalidece, a figura humana se torna intocável. E, no momento em que isso acontece, o pensamento que pretendia libertar começa a se fechar sobre si mesmo como um punho. O progressismo, capturado por essa armadilha, pode escorregar para uma espécie de fundamentalismo elegante, porém não menos intolerante.
Cioran volta a aparecer como um olhar incômodo e necessário. Em História e Utopia (1960), ele afirma: “A idolatria é a prova da nossa incapacidade de suportar o sublime”. Talvez por isso simplifiquemos tanto. Em vez de encarar ideias como justiça ou igualdade em sua complexidade árdua, reduzimo-las a slogans grudados a um rosto fotogênico. A política, então, se torna uma coreografia emocional, quase publicitária.
O fundamentalismo - religioso, político ou híbrido - nasce exatamente dessa busca pelo simples. O mundo é um território intrincado demais, e nós, cansados, buscamos mapas que cabem no bolso. O fundamentalismo oferece isso: um “nós contra eles”, uma narrativa de queda e redenção, uma identidade pronta. O líder carismático é a versão humana desse manual. Ele pensa por nós, traduz por nós, decide por nós. E, de tão cansados, deixamos.
Mas talvez a pergunta mais verdadeira seja outra: por que essa armadilha nos atrai tanto? Talvez porque nossa estrutura psíquica é antiga, muito antiga, e a tecnologia que inventamos é rápida demais para ela. Algoritmos afinam nossas bolhas, a economia da atenção premia o escândalo, e, nesse ambiente viciado, qualquer figura com um pouco de brilho vira possível objeto de adoração. Não pensamos: reagimos.
Em O Inconveniente de Ter Nascido (1973), Cioran lança a sentença que talvez resuma tudo: “A esperança é o grande mal, o oposto do pensamento”. O culto à personalidade é esperança cristalizada numa pessoa - é, em certo sentido, uma desistência silenciosa. Preferimos agarrar a corda frágil de um líder a enfrentar o abismo que o pensamento exige.
E então, o que fazer? Certamente não buscar outro ídolo mais “ético”, mais “amável”, mais confortável. Seria trocar de sintoma. Talvez o remédio seja menos agradável: a coragem de encarar a desilusão. A coragem de olhar o vazio e não preenchê-lo às pressas. De aceitar o desconforto de não ter pastor algum. Os estoicos nos lembram disso: governar a si mesmo é tarefa mais dura do que seguir qualquer líder.
Essa coragem exige reabrir a vida interior - essa região silenciosa que evitamos como quem evita um quarto escuro. Requer desconfiar de soluções fáceis e de pessoas que pedem fidelidade. A política que realmente emancipa precisa ser, por definição, anti-idolátrica: ideias acima de rostos, princípios acima de devotos.
O extremismo que nos ronda não veio de fora; está no modo como fugimos da complexidade, como trocamos diálogo por slogan, como cedemos ao conforto da certeza. O culto não é acidente: é uma válvula de escape de uma sociedade que teme o próprio espelho.
A verdadeira batalha, portanto, não se trava na rua, nem nas urnas - pelo menos não primeiro. Ela acontece na quietude de cada consciência, naquela porta que Sêneca disse que deveríamos manter fechada para o mundo, aberta para nós. É ali que disputamos, diariamente, a escolha entre a comodidade da idolatria e o trabalho exigente da lucidez. Entre a fantasia de um pai simbólico e a maturidade de assumir a própria orfandade. O futuro, se existir, talvez dependa desse combate quase invisível.
Ref.:
CIORAN, Emil. Breviário de Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
CIORAN, Emil. História e Utopia. São Paulo: Hedra, 2011.
CIORAN, Emil. Do Inconveniente de Ter Nascido. São Paulo: Hedra, 2012.
EPICTETO. Discursos e Encheiridion. São Paulo: Edipro, 2021. (Coleção Clássicos Edipro).
SÊNECA. Cartas a Lucílio. Porto Alegre: L&PM Editores, 2017.
HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. Dialética do Esclarecimento: Fragmentos Filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

Comentários
Enviar um comentário
Obrigado pelo seu comentário! Informo que ele estará sujeito a moderação, mas sempre respeitando seu direito a opinião.