O REGRESSO INFINITO: QUEM CRIA O CRIADOR?

Há algo de desconcertante no modo como o cosmos se cala. Diante do céu aberto, salpicado de luzes que parecem tão antigas quanto o próprio tempo, o ser humano sempre se viu forçado a perguntar de onde brota tudo o que existe. Muitas tradições responderam a esse assombro com a figura de um criador - um gesto divino que, num sopro inicial, teria arrancado o mundo do nada. Essa imagem consola e organiza: ajuda-nos a dar sentido à desordem e a imaginar uma origem que não seja mero acaso.

Mas basta aceitar essa hipótese por um instante para que outra dúvida surja, ainda mais inquieta. Se tudo precisa de um princípio, quem, então, teria dado origem ao próprio criador? A pergunta incomoda, quase ofende certos ouvidos; porém, para a filosofia e para a ciência, ela é inevitável. É ali, nesse limite em que a lógica parece tropeçar, que começamos a perceber o quanto nossas categorias são frágeis.

Podemos tentar virar o problema do avesso. E se o universo, ou aquilo que chamamos assim, nunca tivesse tido um início? E se estivesse sempre aí, mudando de cara, mas persistindo sem nascer nem morrer? Essa hipótese costuma parecer estranha, porque vivemos cercados de coisas que começam e acabam. É difícil imaginar uma realidade que não siga essa mesma lógica.

É nesse ponto que a noção de um tempo sem bordas ganha força. Se o tempo fosse realmente infinito, qualquer acontecimento que tivesse uma chance mínima de ocorrer - por menor que fosse - acabaria acontecendo. Não por milagre, mas pela simples insistência do próprio infinito, que transforma o improvável em inevitável.

Pense, por exemplo, na velha imagem do macaco diante de uma máquina de escrever. Com o passar d tempo tempo, ele acabaria produzindo, quem sabe, até mesmo Os Lusíadas - não por intenção, mas por exaustão de tentativas. Da mesma forma, se o vácuo quântico tem alguma chance, ainda que ínfima, de gerar um universo, então, num pano de fundo eterno, essa emergência não só pode ocorrer: ela se torna inevitável. Talvez até repetida inúmeras vezes.

Essa ideia está longe de ser apenas especulação. Algumas leituras da mecânica quântica e certos modelos cosmológicos caminham nessa direção. O físico Sean Carroll (CARROLL, 2010) sugere que o Big Bang pode ter sido apenas uma mudança de estado, não o surgimento absoluto de tudo. Nessa perspectiva, perguntar “o que havia antes?” perde o sentido, pois o próprio tempo seria algo que nasceu junto do nosso universo.

O enigma, então, muda de lugar. Em vez de perguntar quem criou os deuses, passamos a questionar o que sustenta as próprias leis que permitem a existência desse cenário eterno. Se essas leis forem necessárias e independentes, tornam-se uma espécie de divindade impessoal - um pano de fundo absoluto. Spinoza (SPINOZA, 1677) imaginou algo semelhante ao conceber Deus - aqui me refiro ao senso comum da palavra deus, tal como é conhecido no Ocidente) como a própria natureza, não como um conjunto abstrato de leis, mas como a substância infinita da qual tudo procede. As aproximações não são perfeitas, porém ajudam a iluminar como a ideia de eternidade pode dispensar um criador pessoal.

Ainda assim, nossa mente continua presa ao fio da causalidade. Um encadeamento infinito de causas parece tão desconfortável quanto uma primeira causa sem origem. Hume já havia sugerido que nossa noção de causa e efeito talvez seja apenas um hábito da mente - uma expectativa moldada pela repetição dos fenômenos (HUME, 1739). Talvez sejamos nós, e não o mundo, que insistimos em encaixar o real em uma estrutura causal rígida.

Se aceitarmos o infinito e suas consequências estatísticas, surge uma hipótese ousada: a de que uma inteligência cósmica também poderia aparecer naturalmente, em algum ponto dessa eternidade. Pois, se qualquer configuração possível tem chance não nula de ocorrer, inteligências também pertencem a esse conjunto do possível. Num multiverso sem fim, não seria absurdo imaginar que algo parecido com um “criador” pudesse ter surgido antes de nós - não como divindade absoluta, mas como fruto de outra realidade anterior.

Nesse terreno, a matemática deixa de ser apenas instrumento e vira palco. O trabalho de Cantor (CANTOR, 1891), ao mostrar que existem infinitos de diferentes tamanhos, já nos alertava que o infinito não é um simples exagero numérico, mas um conceito cheio de desdobramentos inesperados. Quando estendido ao tempo, ele muda o próprio sentido do possível e do necessário.

Mesmo assim, é preciso cuidado. A analogia do macaco digitando talvez não esteja à altura de explicar a origem de tudo. Estamos usando ferramentas internas ao universo para tentar entender o que estaria fora dele - se é que faz sentido falar assim. Weyl (WEYL, 1949), ao refletir sobre o infinito, insinuou que talvez o abismo esteja mais em nossa consciência do que no próprio real. Em outras palavras, parte do mistério pode ser apenas o reflexo dos limites da mente que tenta compreendê-lo.

Chegamos, então, a uma encruzilhada. De um lado, a ideia de uma causa primeira que permanece sem origem. De outro, a hipótese de uma existência eterna que dispensa criadores e que, em sua vastidão, permite até mesmo o surgimento espontâneo de inteligências. Ambas exigem um passo para além do que podemos demonstrar. Ambas pedem confiança - num deus ou na eternidade.

Talvez, porém, estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de insistir em “quem criou Deus?”, poderíamos nos voltar à velha questão levantada por Heidegger: por que algo existe, e não simplesmente nada? (HEIDEGGER, 1927). Essa pergunta não procura um início, mas um fundamento - um espanto primordial diante do simples fato de haver mundo.

O mais valioso dessa investigação não é uma resposta final, mas o tipo de silêncio que ela nos deixa. Seja pela via da fé ou da teoria física, sempre acabamos diante de um limite que não conseguimos atravessar totalmente. E esse limite fala tanto sobre nós quanto sobre o universo.

Pensar sobre tudo isso não é um passatempo abstrato, mas uma forma de se aproximar da própria condição humana. Cada época volta a essas perguntas, não porque espera uma solução definitiva, mas porque aprende algo ao sustentá-las. A dúvida, afinal, é um tipo de coragem. O cosmos continua mudo, mas nós seguimos perguntando - e talvez seja esse o verdadeiro diálogo.




Ref.:
CARROLL, Sean. From Eternity to Here: The Quest for the Ultimate Theory of Time. New York: Dutton, 2010.
SPINOZA, Baruch. Ethics. Tradução do Latim. Londres: Penguin Classics, 1996. (Original publicado em 1677).
HUME, David. A Treatise of Human Nature. Londres: John Noon, 1739.
CANTOR, Georg. Über eine elementare Frage der Mannigfaltigkeitslehre. Jahresbericht der Deutschen Mathematiker-Vereinigung, 1891.
WEYL, Hermann. Philosophy of Mathematics and Natural Science. Princeton: Princeton University Press, 1949.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Editora Vozes, 1989. (Original publicado em 1927).
DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.



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