A DISTOPIA DA REPÚBLICA QUE ADOTOU O SAGRADO COMO CONSTITUIÇÃO

Era uma vez na chamada República Teocrática da Ordem e Progresso, em que a paz não é uma conquista, mas uma espécie de torpor coletivo. Não se trata de serenidade - e sim de desistência. As pessoas caminhavam como quem aceita viver dentro de uma vitrine: iluminadas, polidas, entretidas por um carrossel interminável de mercadorias e distrações. A felicidade, vendida em suaves prestações, era menos uma experiência interior e mais um adereço obrigatório. Ninguém precisava pensar; bastava consumir. E a alienação, tão discreta, deixava de ser incômodo para tornar-se uma forma confortável de anestesia.

Nesse ambiente rarefeito, onde a realidade parecia sempre um pouco desfocada, a política degenerou numa guerra de torcidas. O cidadão já não se comprometia com ideias, mas com slogans. Não defendia princípios, mas fardamentos. Seus líderes eram venerados, assim como os ídolos esportivos, incapazes de erro, impermeáveis ao debate. A conversa pública, esvaziada de qualquer substância, resumia-se a gritos, memes e indignações recicláveis, consumidas com o mesmo descompromisso com que se assiste a um reality show, onde se assiste a verdadeiros espetáculos bizarros, dignos da idade das trevas.

Foi nessa brecha - aberta pela apatia - que a religião fundamentalista encontrou espaço para erguer seu império. Não aquela religiosidade íntima, que consola o sofrimento humano desde muitos séculos, mas a religião transformada em máquina de controle. Os cultos deixaram de ser encontros de fé e converteram-se em assembleias políticas. Os altares tornaram-se plataformas de campanha. E os sermões, decretos morais que se insinuavam como leis naturais, obrigatórias para toda a população, crente ou não; e esses mesmos sermões são proclamados no idioma oficial do país, não em latim.

A infiltração nos órgãos da república foi calculada, paciente, quase imperceptível. Líderes religiosos, antes confinados aos templos, passaram a ocupar cadeiras em conselhos, comissões, gabinetes - não como representantes de um segmento, mas como donos de uma verdade absoluta. Os ministérios, assim como o parlamento e os tribunais, foram gradualmente preenchidos por figuras que confundiam gestão pública com cruzada espiritual. E suas palavras, envoltas na autoridade do sagrado, ganharam uma gravidade que dispensava provas, argumentos e um mínimo de racionalidade, bem como já dizia Oscar Wilde: "O homem é um animal racional que perde sempre a cabeça quando é chamado a agir pelos ditames da razão."

A política, já frágil, rendeu-se ao dogma. Muitos parlamentares descobriram que bastava repetir “deus”, “pátria” e “família” para atrair multidões sedentas por certezas rápidas. Eram homens e mulheres de currículo raso, mas que encontraram no fanatismo um atalho para o poder. A insignificância transformou-se em virtude: quanto menos sabiam, mais pareciam “genuínos”, mais reproduziam a estética do “cidadão de bem”.

Com o tempo, a agenda pública tornou-se refém dessa aberração religiosa. Problemas complexos foram tratados como tabus. O aborto, questão de saúde e dignidade, foi reduzido a pecado. O papel da mulher, orientado pela imbecilidade do credo medieval, é o modelo social que precisava ser representado pelas mulheres: ser uma boa filha, respeitando o seu “destino” de ser uma boa esposa e boa mãe, pois na mentalidade da época toda mulher tinha que gerar filhos. As drogas, tema enraizado na miséria e no abandono estrutural, foram transformadas em prova de caráter. E qualquer tentativa de discussão séria era esmagada pelo peso moral de um versículo de um livro "sagrado", sempre mal interpretado e de uma exegese duvidosa, tido como uma espécie de cláusula pétrea.

A violência urbana, alimentada por décadas de desigualdade, passou a ser combatida com mais violência ainda. O Estado, orientado por pastores e "profetas" - a a República os tem produzido aos montes - improvisados, propunha soluções brutais: armar o cidadão, encarcerar o suspeito, multiplicar muros. Era como tentar apagar um incêndio despejando gasolina - e depois culpar o fogo por existir. Enquanto isso, nos corredores silenciosos do poder, a corrupção prosperava. Líderes religiosos acumulavam influência, verbas, propriedades, fazendo fortuna sob o argumento de que “todos os bens servem à obra do Senhor” (Qual Senhor?). A moral pregada aos fiéis não alcançava seus próprios pregadores.

E o povo? Dividido, distraído, exausto. Era mais simples aceitar os inimigos prontos: os “degenerados”, os “inimigos de Deus”, os “globalistas”, os que “atacavam a família”. As pessoas confundiam vigilância com virtude; achavam-se livres porque podiam comprar produtos parcelados, mas já haviam perdido muito mais: a liberdade de duvidar, a coragem de questionar, o direito de imaginar outra forma de viver.

Nesse clima de medo e simplificação, o extremismo floresceu com naturalidade. Ideologias que antes seriam motivo de vergonha tornaram-se bandeiras hasteadas com orgulho. Enganava-se quem acreditava que era apenas uma fase. Quanto mais a sociedade se acostumava à retórica de força, mais difícil se tornava enxergar o abismo que se abria sob seus pés.

A República Teocrática da Ordem e Progresso não era uma ficção distante, mas um espelho incômodo. Uma distorção do presente. Ela persistia porque era conveniente: oferecia explicações fáceis para problemas complexos, inimigos claros para ansiedades difusas, e, acima de tudo, uma promessa de sentido para vidas que se sentiam perdidas num mundo acelerado.

Persistia pela ignorância voluntária. Persistia pelo medo de reconhecer que a realidade raramente cabe em certezas absolutas. Persistia porque muitos preferiam a proteção artificial de um dogma ao risco de pensar por conta própria. Persistia, sobretudo, pela conivência dos que percebiam a farsa, mas se beneficiavam dela - uma elite que se escondia atrás da religião para legitimar seus privilégios.

A democracia, esvaziada de substância, transformou-se em rito simbólico. Eleições viraram concursos de popularidade entre salvadores autoproclamados e demônios fabricados. O parlamento tornou-se palco de performances moralistas, onde a verdade importava menos do que a teatralidade da indignação.

E então resta a pergunta que ecoa, incômoda: quanto de nossa suposta paz é, na verdade, rendição? Até que ponto aceitamos trocar consciência por pertencimento, pensamento por obediência, liberdade por conforto?

A distopia mais perigosa não é a que fracassa - é a que se realiza enquanto fingimos que está tudo bem. A que confunde servidão com salvação. A que transforma o silêncio dos que temem enfrentar a realidade em prova de “ordem”.

A República Teocrática da Ordem e Progresso não nos ameaça de fora. Ela sussurra dentro de cada concessão que fazemos ao medo, no momento em que permitimos que normas sociais sejam ditadas ainda por tantos "profetas" enviados pelo alto da abóboda celeste, num planeta cujo formato é de um tabernáculo, mas muitas vezes refutado pela própria profecia -  Et delectabar per singulos dies, ludens coram eo in omnitempore, ludens in orbe terrarum.




Ref.:
ORWELL, George. 1984.
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo.
ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida.
ECO, Umberto. O Fascismo Eterno.


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