O MAL DISCRETO DA ESTUPIDEZ MODERNA
Há momentos em que a estupidez humana aparece não como um acidente, mas como um modo de ser do mundo - uma vibração subterrânea que percorre as estruturas sociais e os nervos individuais. Não se trata do erro, que ainda carrega a dignidade de um desvio humano, mas de outra coisa: uma espécie de desatenção ontológica, como se parte da humanidade tivesse desistido de olhar para si, preferindo o conforto de respostas prontas à inquietação de pensar. Pascal já advertira: a miséria do homem decorre de sua incapacidade de permanecer sozinho em seu quarto (PASCAL, 2005). Talvez porque ali, no silêncio, somos obrigados a ouvir o rumor de nossa própria finitude, e a estupidez surge justamente como o mecanismo que tenta nos poupar desse encontro.
O século XXI intensificou essa tendência ao oferecer um cardápio infinito de distrações, onde as opiniões, desprovidas de lastro, circulam com a velocidade dos impulsos elétricos. Arendt viu na banalidade do mal não uma monstruosidade extraordinária, mas o horror que brota da incapacidade de pensar (ARENDT, 1999). O que se observa hoje, contudo, é um deslocamento: já não precisamos de regimes totalitários para cultivar essa mesma suspensão do pensamento; bastam a saturação informacional e a busca frenética por validação. A inteligência, quando dissolvida no mar de estímulos, torna-se pálida, quase ornamental.
Mas a estupidez não é apenas coletiva; é íntima, persiste nas dobras do indivíduo. Nietzsche suspeitava de uma espécie de preguiça metafísica que nos impede de suportar a dureza do real (NIETZSCHE, 2005). Em vez de acolher a potência trágica da existência, preferimos a estabilidade dos lugares-comuns. É assim que o espírito humano se acomoda, abandonando sua própria vitalidade. A estupidez seria, portanto, uma traição à força que nos impele a superar - abandonar o pensamento é abandonar-se.
Curiosamente, mesmo com todos os avanços tecnológicos, continuamos presos a estruturas mentais primitivas. A técnica - esse prodígio que Heidegger interrogou com inquietação - não liberta necessariamente; ela pode aprisionar de modo ainda mais sofisticado, ao converter o mundo num estoque de utilidades (HEIDEGGER, 2002). Nesse ambiente, pensar torna-se um gesto excêntrico, quase um luxo. A estupidez, então, aparece como o sintoma de uma crise mais profunda: deixamos de interrogar o sentido das coisas porque já não acreditamos que o sentido seja necessário.
Contudo, seria ingênuo atribuir à estupidez um caráter exclusivamente negativo. Ela também revela, paradoxalmente, a fragilidade humana. Comte-Sponville observou que nossa condição é feita de limites, e que reconhecer tais limites é o primeiro passo para escapar da ilusão (COMTE-SPONVILLE, 2001). A estupidez, nesse sentido, seria um espelho incômodo de nossas insuficiências. Olhá-la de perto exige coragem: a coragem de admitir que nosso saber é sempre parcial, que nossa visão do mundo é sempre estreita.
Ao mesmo tempo, a consciência dessa limitação pode gerar um movimento contrário, um impulso de superação. Se, como sugere Bergson, a inteligência humana tende a automatizar, mas a vida escapa do automatismo (BERGSON, 2006), então o combate à estupidez não é a acumulação de dados, mas a abertura ao imprevisível do real. É a capacidade de interromper a repetição. Talvez aí resida o único antídoto possível: reeducar o olhar.
Pensar, afinal, sempre exigiu uma certa lentidão - aquela lentidão que permite que a experiência decante. A estupidez é, em parte, um efeito da velocidade. Mas é também uma consequência do medo: o medo de que pensar demais desfaça as certezas com as quais sustentamos nossa identidade. Zygmunt Bauman já descrevia esse mal-estar líquido, essa dificuldade em manter contornos fixos num mundo em constante dissolução (BAUMAN, 2001). Para muitos, a estupidez funciona como um refúgio, uma fortaleza de simplicidade onde nada precisa ser colocado em dúvida.
Ainda assim, mesmo nesse cenário, permanece uma margem de liberdade. A lucidez não é um dom, mas uma prática - rigorosa, solitária, exigente. Implica olhar o mundo com desconfiança e, ao mesmo tempo, com amor. Implica a humildade de reconhecer nossa própria propensão ao engano. Não há saída definitiva; há apenas vigilância.
A estupidez humana continuará a nos acompanhar, silenciosa, nos gestos cotidianos, nos discursos públicos, nas engrenagens do mundo digital. O que se pode fazer é cultivar um pensamento que não se renda. Como diria Camus, “um pensamento que se debruça sobre o absurdo, mas não abdica da lucidez” (CAMUS, 2010). A tarefa é árdua, mas talvez seja justamente nela que a humanidade reencontre sua dignidade: no esforço - e apenas nele - de não se deixar afundar na confortável escuridão da inconsciência.
Ref.:ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BERGSON, Henri. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2010.
COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. In: ___. Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2002.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005.

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