A ILUSÃO DA GUERRA JUSTA: QUANDO SATANÁS VESTE O UNIFORME

Há algo de inquietante no modo como certos jovens, às portas da morte, enxergam o mundo com uma nitidez que os vivos raramente suportam. CHARLES SORLEY, enterrado ainda em vida pela terra lamacenta de Loos - batalha que ocorreu entre 25 de setembro e 13 de outubro de 1915, na Frente Ocidental durante a Primeira Guerra Mundial, sendo a maior ofensiva britânica daquele ano - parecia ter compreendido cedo demais que a guerra não é um equívoco moral, mas uma espécie de falência espiritual. Em sua despedida brusca, quase ríspida, disse que não havia guerra justa; apenas a troca de um satanás por outro. Suas palavras - duras, sem sentimentalismo - continuam a reverberar como um espelho desconfortável: quantos nomes já demos ao mesmo monstro para não encarar que ele permanece o mesmo?

Esta pergunta, na verdade, é antiga. Ela atravessa a memória do Ocidente como um fio arrancado de um tecido milenar. Esparta fez da guerra uma escola diária, um modo de modelar corpos e destinos. Roma, mais tarde, ampliou essa característica, ainda que tentasse revesti-la de filosofia. Cícero buscou, com o zelo de quem teme o fundo do poço, estabelecer um conjunto de freios para o ímpeto expansionista. Mas talvez todo esse esforço fosse apenas isso: a tentativa de amansar uma besta que sempre retorna - que estamos presenciando nos dias atuais.

Com o cristianismo instalado no coração do Império Romano, o dilema ganhou camadas mais grotescas. Como conciliar o mandamento de oferecer o outro lado da face com as exigências de um território vasto, permanentemente ameaçado? A Doutrina da Guerra Justa (Bellum iustum) nasceu nesse intervalo nervoso entre fé e poder. A Igreja, já presa ao destino político do Império, não podia propor apenas a renúncia. Foi obrigada a inventar uma espécie de ponte moral, uma autorização cautelosa para que o soldado cristão levantasse sua espada sem que a alma lhe implodisse por dentro, causa justa belli.

Tomás de Aquino, séculos depois, ofereceu à cristandade um mapa mais claro - ou, ao menos, mais arrumado. Causa justa, autoridade legítima, intenção reta - jus ad bellum. Eram alicerces bem construídos, quase reconfortantes. Mas talvez tenham nascido frágeis, porque nasciam da esperança de que a violência pudesse ser contida por listas e condições. Na prática, erguer muros contra a guerra é como tentar controlar o mar com as mãos.

Não foi preciso muito tempo para que a história revelasse o truque. O que é uma “causa justa”? O que um rei diz ser seu por direito? O que outro considera invasão? E a “autoridade legítima”? Muitas vezes, apenas o vencedor de uma disputa interna. Já a tal “intenção reta” costuma evaporar quando o calor dos interesses econômicos e do orgulho nacional toma conta das decisões. A doutrina, tão limpa no frágil papel em que foi escrita, se desfaz no primeiro sopro de ressentimento coletivo.

E então chegamos às Guerras Santas, onde o problema atinge um ponto quase febril. Quando se acredita lutar pela vontade de um deus, a dúvida desaparece - e com ela desaparece também o limite. O inimigo deixa de ser alguém com quem se pode negociar e passa a ser uma sombra a ser extinta. As Cruzadas, com seu misto de fervor, miséria e ambição, são apenas um exemplo desse fenômeno que se repete em variadas épocas e credos. Onde a causa é sagrada, o mal parece sempre morar exclusivamente no outro.

O resultado imediato é a desfiguração do adversário. Quando o mal, travestido de satanás (ou qualquer outro nome para um suposto inimigo da fé da bondade e misericórdia) ganha, rosto e uniforme, qualquer gesto de brutalidade parece inevitável. A Europa pós-Reforma, o Oriente Médio contemporâneo, inúmeras disputas sectárias: todos repetem esse roteiro cansado, como se a humanidade estivesse presa a uma peça cujo desfecho já conhece. E quem se lança nesse tipo de guerra sempre retorna contaminado por ela, porque não há pureza possível quando o confronto se pretende absoluto.

Benjamin Franklin, com seu humor melancólico, resumiu o impasse: não existe boa guerra, nem paz ruim. É uma frase simples, mas que parece desmontar séculos de épicos, bandeiras e monumentos. Se toda guerra é intrinsecamente má, então o que fazemos quando celebramos vitórias? A quem homenageamos, afinal: aos mortos ou à ideia confortável de que morremos por algo nobre?

Uma sociedade se mede não apenas pela força que exibe, mas pela habilidade de impedir que a lógica da força se torne sua gramática cotidiana. Quando discursos políticos começam a soar como ordens militares, quando o medo passa a organizar as relações, o país inteiro entra num estado de beligerância silenciosa. Aos poucos, a guerra externa se infiltra nas conversas, nas leis, na maneira como olhamos uns para os outros.

E esse veneno se acumula. As nações que se acreditam forjadas sob o signo da justiça carregam cicatrizes profundas. O custo humano - os jovens que não voltam - é apenas a superfície. Há também a erosão moral: o descrédito nas instituições, a narrativa polida que conserva a glória e enterra a lama. A paz que vem depois costuma ser uma paz desconfiada, uma pausa tensa, como se o solo estivesse sempre prestes a ceder.

Por isso talvez a própria busca por uma “guerra justa” seja um labirinto. Ao tentar distinguir a violência aceitável da inaceitável, acabamos por domesticar o horror. É como se disséssemos a nós mesmos que algumas mortes são pedagógicas, alguns lutos necessários. Sorley, ainda tão jovem, recusou esse tipo de consolo. Ele viu no rosto do inimigo o mesmo medo que carregava, e isso parece ter desmanchado todos os heroísmos possíveis.

Talvez a coragem verdadeira - aquela de que tanto falamos e raramente conhecemos - não esteja em lutar por algo, mas em recusar a lógica que nos empurra sempre para o confronto. Construir sociedades capazes de sustentar tensões sem afundar na violência talvez seja, ainda hoje, o maior desafio civilizatório. E honrar os mortos não deveria significar glorificar o campo de batalha, mas impedir que novas trincheiras sejam cavadas.

No fim, o satanás que Sorley enxergou não era uma criatura escondida no inimigo. Era uma manifestação amarga dentro da própria natureza humana, que aflora quando nos rendemos ao ódio, ao medo e à convicção cega de que o mal está sempre no outro. Enquanto não encararmos essa sombra, continuaremos repetindo o mesmo ritual sangrento. E as palavras do jovem poeta - escritas com pressa e desespero - permanecerão tão atuais quanto no dia em que deixaram sua mão trêmula e sua vida ser extinta naquele lamaçal, aos 20 anos de idade.



Para contextoDentro da herança judaico-cristã, o termo hebraico "satanás" traduz-se como "oponente" ou "acusador," denotando, a princípio, um papel de oposição, até mesmo diante da divindade hebraica. A palavra "diabo," originária do grego "diabolos" (que significa acusador ou caluniador), é, em essência, um sinônimo para satanás, representando a versão grega do termo na Bíblia. Por outro lado, "lúcifer" (o "aquele que traz a luz") é uma figura separada, nascida da interpretação de um trecho do livro de Isaías (14:12) que, em seu contexto original, aludia metaforicamente a um rei babilônico. A tradição cristã mais recente uniu essas histórias, ressignificando lúcifer como um anjo que caiu por causa de sua soberba, transformando-se em satanás, o diabo - o principal antagonista do deus hebreu. Assim sendo, enquanto satanás e diabo são designações para o mesmo ser, lúcifer é o nome que se dá a essa entidade antes de sua "queda". Me permiti utilizar no título a palavra satanás, por representar melhor a ideia do jovem poeta.

Ref.:
AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Edições Loyola, 2017.
ELSAESSER, Thomas. A Guerra e o Cinema: Logística da Percepção. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2019.
FÉLIX, João. A Ideia de Guerra Justa: De Cícero à Guerra ao Terror. Lisboa: Edições 70, 2015.
KEEGAN, John. Uma História da Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
SORLEY, Charles. The Letters of Charles Sorley. Cambridge: Cambridge University Press, 2020.
WALZER, Michael. Guerras Justas e Injustas. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2016.


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