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A REVOLUÇÃO INACABADA: CIÊNCIA, PODER E A RELUTÂNCIA EM ENXERGAR

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Imaginar o universo antigo é imaginar um grande palco, cuidadosamente construído ao longo de séculos, cujo funcionamento parecia evidente aos olhos de seus intérpretes. No centro dessa vastidão ordenada repousava a Terra, imóvel, sólida, inevitável. Descendo de Aristóteles , especialmente no De Caelo , perpetuou-se a imagem de um cosmos finito e hierarquizado, no qual cada esfera cumpria um papel próprio. A região sublunar, imperfeita, contrastava com a perfeição incorruptível da esfera celeste. Nada disso era apenas ciência: era, sobretudo, uma arquitetura de sentido que dizia ao ser humano quem ele era dentro da totalidade. Quando Ptolomeu , no século II, compôs o Almagesto , ele não inaugurou um cosmos, mas lhe deu proporção matemática. A geometria dos epiciclos , deferentes e equantes, destinada a salvar as aparências observacionais, consolidava uma tradição que misturava cálculo e metafísica. Como observa Koyré (1957), o sistema funcionava não apenas porque previa eclipses e retr...

A DISTOPIA DA REPÚBLICA QUE ADOTOU O SAGRADO COMO CONSTITUIÇÃO

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Era uma vez na chamada República Teocrática da Ordem e Progresso, em que a paz não é uma conquista, mas uma espécie de torpor coletivo. Não se trata de serenidade - e sim de desistência. As pessoas caminhavam como quem aceita viver dentro de uma vitrine: iluminadas, polidas, entretidas por um carrossel interminável de mercadorias e distrações. A felicidade, vendida em suaves prestações, era menos uma experiência interior e mais um adereço obrigatório. Ninguém precisava pensar; bastava consumir. E a alienação, tão discreta, deixava de ser incômodo para tornar-se uma forma confortável de anestesia. Nesse ambiente rarefeito, onde a realidade parecia sempre um pouco desfocada, a política degenerou numa guerra de torcidas. O cidadão já não se comprometia com ideias, mas com slogans . Não defendia princípios, mas fardamentos. Seus líderes eram venerados, assim como os ídolos esportivos, incapazes de erro, impermeáveis ao debate. A conversa pública, esvaziada de qualquer substância, resumia-s...

O REGRESSO INFINITO: QUEM CRIA O CRIADOR?

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Há algo de desconcertante no modo como o cosmos se cala. Diante do céu aberto, salpicado de luzes que parecem tão antigas quanto o próprio tempo, o ser humano sempre se viu forçado a perguntar de onde brota tudo o que existe. Muitas tradições responderam a esse assombro com a figura de um criador - um gesto divino que, num sopro inicial, teria arrancado o mundo do nada. Essa imagem consola e organiza: ajuda-nos a dar sentido à desordem e a imaginar uma origem que não seja mero acaso. Mas basta aceitar essa hipótese por um instante para que outra dúvida surja, ainda mais inquieta. Se tudo precisa de um princípio, quem, então, teria dado origem ao próprio criador? A pergunta incomoda, quase ofende certos ouvidos; porém, para a filosofia e para a ciência, ela é inevitável. É ali, nesse limite em que a lógica parece tropeçar, que começamos a perceber o quanto nossas categorias são frágeis. Podemos tentar virar o problema do avesso. E se o universo, ou aquilo que chamamos assim, nunca tive...

A ILUSÃO DA GUERRA JUSTA: QUANDO SATANÁS VESTE O UNIFORME

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Há algo de inquietante no modo como certos jovens, às portas da morte, enxergam o mundo com uma nitidez que os vivos raramente suportam . CHARLES SORLEY , enterrado ainda em vida pela terra lamacenta de Loos - batalha que ocorreu entre 25 de setembro e 13 de outubro de 1915, na Frente Ocidental durante a Primeira Guerra Mundial, sendo a maior ofensiva britânica daquele ano - parecia ter compreendido cedo demais que a guerra não é um equívoco moral, mas uma espécie de falência espiritual. Em sua despedida brusca, quase ríspida, disse que não havia guerra justa; apenas a troca de um satanás por outro. Suas palavras - duras, sem sentimentalismo - continuam a reverberar como um espelho desconfortável: quantos nomes já demos ao mesmo monstro para não encarar que ele permanece o mesmo? Esta pergunta, na verdade, é antiga. Ela atravessa a memória do Ocidente como um fio arrancado de um tecido milenar. Esparta fez da guerra uma escola diária, um modo de modelar corpos e destinos. Roma, m...

DEUSES, ESTADO, HIPOCRISIA E O FIM DA NOSSA LIBERDADE

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O vento sopra, mas não limpa mais o ar. Há um cheiro estranho pairando sobre nossas cidades, uma mistura de incenso e decretos, de água benta e de vontades alheias sendo vertidas sobre o corpo social . Não é um odor novo. É uma névoa antiga, que pensávamos dissipada pelos ventos da Razão e do Iluminismo. Estávamos enganados. Ela apenas se recolheu, esperou, e agora regressa, vestida com o terno impecável do político, carregando um "livro sagrado" numa mão e a caneta da lei na outra. Observamos, quase atônitos, um fenômeno peculiar do nosso tempo: a fusão silenciosa entre o Estado Laico e os altares da fé. Não se trata mais da religião como um refúgio íntimo, um norte moral pessoal. Trata-se de seu projeto de poder, ambicioso e totalizante, buscando moldar a sociedade à sua imagem e semelhança, ignorando o mosaico plural de crenças e de descrenças que compõem a nação. O púlpito tornou-se tribuna, e o sermão, discurso de posse. É um movimento sutil, uma coreografia paciente. P...

A SOMBRA DO DIVINO: OS DEUSES ABANDONARAM A NOSSA INFELICIDADE?

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Em tempos imemoriais, o trovão era a voz irada de um deus, e a seca, seu castigo silencioso. Hoje, diante dos cataclismos que acontecem no mundo, o céu parece não mais um trono, mas um abismo indiferente. A pergunta sussurra na alma atormentada pela infelicidade coletiva: por onde andam os deuses na infelicidade humana? Talvez eles nunca tenham habitado o Olimpo ou o firmamento, mas sim o vazio primordial que precede a própria criação. Anaximandro de Mileto postulava que a origem de tudo era o Ápeiron , o Ilimitado, “o princípio das coisas que são […] donde vem a geração às coisas que são, e para onde tendem também a destruição, segundo a necessidade” (DK 12 A 9). Neste princípio infinito e impessoal, a infelicidade não é um desvio, mas uma parte intrínseca do ciclo de geração e corrupção, um débito que todas as coisas pagam à ordem cósmica pela sua existência individual. A procura por uma resposta nos leva a interrogar se a infelicidade é a prova da ausênci...

QUANDO O CÉU FICOU MUDO: A ASTROLOGIA ENTRE O MITO E A RAZÃO

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Há um silêncio peculiar, um vazio ressonante, que só a nossa era moderna foi capaz de forjar: o silêncio do céu. Durante incontáveis séculos, o ser humano ergueu os olhos e encontrou muito mais do que um punhado de pontos luminosos suspensos no escuro - ele encontrou destino, advertência e um sentido profundo. As constelações não eram meros desenhos aleatórios; eram narrativas épicas em movimento constante, dramas celestes que contavam as histórias dos deuses e dos nossos próprios medos e aspirações. Os planetas, por sua vez, eram entendidos como mensageiros velozes de um idioma invisível, portadores de influências e humores cósmicos. O cosmos, em sua totalidade, falava. E a astrologia, em sua essência primordial, era a tentativa humilde e poética de traduzir essa voz ancestral. Quando a razão científica começou a sua ascensão inexorável, o firmamento sofreu uma transformação radical. Ele deixou de ser um livro aberto, uma linguagem a ser decifrada, e tornou-se uma mera paisagem, um ce...