DEUSES, ESTADO, HIPOCRISIA E O FIM DA NOSSA LIBERDADE
O vento sopra, mas não limpa mais o ar. Há um cheiro estranho pairando sobre nossas cidades, uma mistura de incenso e decretos, de água benta e de vontades alheias sendo vertidas sobre o corpo social. Não é um odor novo. É uma névoa antiga, que pensávamos dissipada pelos ventos da Razão e do Iluminismo. Estávamos enganados. Ela apenas se recolheu, esperou, e agora regressa, vestida com o terno impecável do político, carregando um "livro sagrado" numa mão e a caneta da lei na outra.
Observamos, quase atônitos, um fenômeno peculiar do nosso tempo: a fusão silenciosa entre o Estado Laico e os altares da fé. Não se trata mais da religião como um refúgio íntimo, um norte moral pessoal. Trata-se de seu projeto de poder, ambicioso e totalizante, buscando moldar a sociedade à sua imagem e semelhança, ignorando o mosaico plural de crenças e de descrenças que compõem a nação. O púlpito tornou-se tribuna, e o sermão, discurso de posse.
É um movimento sutil, uma coreografia paciente. Primeiro, normaliza-se a linguagem religiosa no discurso público, depois, exige-se que as leis reflitam dogmas particulares. O espaço comum, que deveria acolher todos, torna-se aos poucos santificado - e quem não se ajoelha passa a ser visto não como um cidadão, mas como um herege moderno A vontade divina, convenientemente interpretada por alguns, transforma-se em projeto de lei, em veto, em política de Estado.
O corpo da mulher, sempre o primeiro território a ser conquistado pelas teocracias, volta a ser campo de batalha. A discussão sobre o aborto, complexa e dolorosa, é esvaziada de sua dimensão de saúde pública, de tragédia íntima, de autonomia. É reduzida a um mero pecado, a uma afronta a um código sagrado que nem todos compartilham. A vida, que dizem defender, começa no útero, mas parece terminar no parto, abandonando mães e crianças à própria sorte em um sistema de saúde falido.
E assim, temas progressistas, frutos de lutas sociais longas e penosas, são inviabilizados. Não através do debate, mas da anulação. A conversa é interrompida pelo dogma. A razão, pela revelação. A compaixão, pelo julgamento. Criamos uma arena onde a ciência é forçada a duelar com a fé, e onde a fé, neste estranho tabuleiro político, exige o direito de ditar as regras do jogo para todos os jogadores, crentes ou não.
Este não é um filme de ficção. É um lento regresso a um passado que julgávamos superado. Basta olhar para trás, para os séculos em que a fumaça das fogueiras do Santo Ofício turvava o céu da Europa. A Inquisição não era apenas sobre heresia; era sobre controle. Sobre definir o que podia ser pensado, dito, amado e vivido. Era o Estado servindo ao dogma, vestindo a capa da religião para exercer um poder absoluto sobre a vida e a morte.
Não há fogueiras, mas há condenações silenciosas; não há inquisidores, mas há juízes invisíveis. O poder mudou de forma, não de intenção. Não há condenação pública, mas ostracismo social, a morte civil daqueles que ousam questionar. Os instrumentos de tortura são outros: a exclusão de políticas públicas, a perseguição midiática, a criminalização da diferença. O objetivo, porém, é assustadoramente similar: a uniformização do pensamento e a submissão da liberdade individual a um credo coletivo imposto.
Precisamos acordar deste sonambulismo. A História não se repete, mas rima, e o verso que escutamos hoje ecoa perigosamente os cantos gregorianos de uma era de trevas. A laicidade do Estado não é um ataque à fé; é a sua maior proteção. É o que garante que todas as crenças - e a descrença - possam coexistir em paz, sem que uma se torne opressora das outras.
O alerta soa não contra a religião, mas contra a sua instrumentalização política. É um grito de alarme para que não permitamos que o manto da espiritualidade seja usado para encobrir projetos de poder, de dominação e de exclusão. A fé que precisa de leis para se impor é uma fé frágil. A que transforma o outro em inimigo por pensar diferente, é uma fé desvirtuada.
Que futuro estamos construindo? Um onde meninas e mulheres são reduzidas a vasilhas de procriação, sem direito sobre seus destinos? Onde o amor que foge da heteronormatividade é visto como pecado a ser corrigido? Onde a ciência é rejeitada em favor de um literalismo bíblico que dita até a idade da Terra? Este retrocesso não é progresso espiritual; é a capitulação da humanidade perante a intolerância.
Não se enganem: a batalha pelo direito ao aborto seguro é apenas a ponta do iceberg. É a linha de frente visível de uma guerra muito maior pela alma da nossa civilização. É a disputa entre um futuro de liberdade, razão e pluralidade, e um passado de autoridade, dogma e homogeneidade. A Idade Média nos ensinou, a um custo de sangue e lágrimas, o perigo de confundir trono e altar.
A resistência começa na recusa em calar. Na coragem de nomear este movimento pelo que ele é: um assalto teopolítico às instituições democráticas. É preciso reafirmar, com a força das palavras e do voto, que as leis de um país plural não podem ser escritas nas margens de um único "livro sagrado." Elas devem ser o resultado do contrato social, da discussão coletiva, da razão pública e, acima de tudo, do respeito irrestrito à dignidade humana em toda a sua diversidade.
Que nossas vozes, unidas, possam ser o vento forte que finalmente dissipa esta névoa antiga. Que possamos lembrar que a democracia é, ela mesma, um ato de fé - não em um deus, mas no potencial humano de construir, juntos, um mundo mais justo e livre para todos. Um mundo onde o Estado sirva ao povo, e não a uma interpretação particular do divino.
O tempo é agora. Antes que o silêncio vire cumplicidade, e a sombra dos púlpitos cubra por completo os jardins da liberdade.
Ref.:
SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
DINIZ, Debora. O Que É Ética da Vida?. Brasília: LetrasLivres, 2022.
CARNEIRO, Luís Felipe. O Fim do Homem Cordial: A Radicalização da Política no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
APPIAH, Kwame Anthony. The Lies That Bind: Rethinking Identity. London: Profile Books, 2018.
NUSSBAUM, Martha C. The New Religious Intolerance: Overcoming the Politics of Fear in an Anxious Age. Cambridge: Harvard University Press, 2012.
SCHREITER, Thomas. Gott und die Welt: Die neue Politische Theologie und ihre Risiken. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2019.

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