A SOMBRA DO DIVINO: OS DEUSES ABANDONARAM A NOSSA INFELICIDADE?

Em tempos imemoriais, o trovão era a voz irada de um deus, e a seca, seu castigo silencioso. Hoje, diante dos cataclismos que acontecem no mundo, o céu parece não mais um trono, mas um abismo indiferente. A pergunta sussurra na alma atormentada pela infelicidade coletiva: por onde andam os deuses na infelicidade humana? Talvez eles nunca tenham habitado o Olimpo ou o firmamento, mas sim o vazio primordial que precede a própria criação. Anaximandro de Mileto postulava que a origem de tudo era o Ápeiron, o Ilimitado, “o princípio das coisas que são […] donde vem a geração às coisas que são, e para onde tendem também a destruição, segundo a necessidade” (DK 12 A 9). Neste princípio infinito e impessoal, a infelicidade não é um desvio, mas uma parte intrínseca do ciclo de geração e corrupção, um débito que todas as coisas pagam à ordem cósmica pela sua existência individual.

A procura por uma resposta nos leva a interrogar se a infelicidade é a prova da ausência divina ou, de forma mais perturbadora, o sinal de sua natureza ambivalente. Heráclito, via no fogo um logos eterno, onde “a guerra é o pai de todas as coisas e de todas é a rainha” (DK 22 B 53). Neste universo em perpétuo conflito, a harmonia nasce do tensionamento dos opostos; a felicidade e a infelicidade são duas cordas do mesmo arco, tensionadas para que a vida possa projetar sua flecha. Os deuses, neste sentido, não são salvadores, mas a própria encarnação desta dinâmica incansável e, por vezes, cruel. Eles andam no próprio cerne do sofrimento, não para aliviá-lo, mas como a força motriz que impele a transformação através da dor.

O século XX, com suas guerras e holocaustos, aprofundou este abismo. Theodor Adorno, ecoando o tremor de uma civilização que produziu Auschwitz, questionou severamente a possibilidade da poesia -  e, por extensão, da redenção - após tal horror. Se a infelicidade humana pode atingir tal magnitude industrial e burocrática, que teodiceia poderia justificá-la? Os deuses, se existem, parecem ter se retirado para uma distância infinita, talvez envergonhados ou incapazes perante a monstruosidade que sua criação permitiu. A infelicidade moderna não clama por um deus; ela o acusa.

A sociedade religiosa contemporânea, confrontada com furacões, incêndios e mares que se elevam, encontra-se num dilema profundo. Uma vertente vê nestes eventos a mão punitiva do divino, um castigo coletivo por pecados coletivos, uma narrativa antiga que busca reinscrever o caos numa lógica moral reconfortante. Outra, porém, encara os cataclismos como um chamado ao arrependimento e à ação, uma prova não da ira dos deuses, mas da falência humana em ser guardiã da criação. Em ambas as respostas, há um esforço titânico para recolocar o divino no centro da narrativa, para encontrar um sentido, mesmo que aterrador, no aparente nonsense do sofrimento planetário.

No entanto, talvez a questão não seja "onde" os deuses andam, mas "quem" eles se tornaram. Friedrich Nietzsche, com seu martelo filosófico, não apenas declarou a morte de Deus, mas diagnosticou o longo crepúsculo que se seguiu. O que habita a infelicidade humana moderna é o fantasma de Deus, o vazio de um horizonte de significado que outrora nos orientava. “Não ouvimos o ruído dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? Também os deuses apodrecem!” (NIETZSCHE, 1974, p. 181). A infelicidade, então, é a náusea deste vazio, o frio que entra quando as janelas do céu se fecham para sempre.

Voltando aos pré-socráticos, Parmênides ofereceu um caminho diferente. Ele propunha um ser uno, imóvel e imperecível, onde não há geração ou corrupção. Neste domínio do “É”, a infelicidade simplesmente não existe; é uma ilusão do caminho da opinião dos mortais. Se os deuses são estes seres plenos, então eles andam em uma dimensão radicalmente apartada do nosso mundo de devir e decadência. Nossa infelicidade é o ruído de nosso afastamento desta unidade, o preço de habitarmos um reino de aparências.

A psicanálise do século passado trouxe os deuses para dentro da psique. Carl Gustav Jung argumentava que os arquétipos do inconsciente coletivo são as formas modernas das divindades antigas. Quando a infelicidade coletiva assola, não é que os deuses nos abandonaram; são eles, as forças psíquicas profundas - a Sombra, a Anima, o Velho Sábio —, que, negligenciados ou reprimidos, emergem como sintomas de desequilíbrio. O cataclisma externo seria, então, um espelho do cataclisma interno, uma projeção em escala planetária de uma alma coletiva doente.

A pergunta socrática, assim, se desloca. Não é mais uma busca por entidades externas, mas uma investigação sobre as estruturas internas do significado. A infelicidade humana persistente pode ser o sinal de que projetamos em deuses distantes a responsabilidade por um vazio que é, em última análise, nosso. A ausência que sentimos é a ausência de nós mesmos, de uma autenticidade perdida em meio aos ídolos do consumo e do progresso vazio.

Contudo, há uma beleza trágica nesta solidão. Albert Camus, face ao absurdo de um mundo sem deuses e sem razão última, convidou-nos a imaginar Sísifo feliz. A felicidade não está na resolução do absurdo, mas na luta consciente contra ele. “A lucididade que devia fazer ruir o seu tormento, consuma ao mesmo tempo, a sua vitória. Não existe destino que não se vença com o desprezo” (CAMUS, 2018, p. 123). Os deuses, aqui, andam na própria revolta humana, na recusa em se curvar mesmo quando o céu está vazio.

Olhando para os desastres climáticos, vemos a culminação desta narrativa. Eles não são um castigo divino, mas a materialização de uma hybris - conceito grego de arrogância e orgulho, profundamente terrena. A sociedade tecno-industrial operou como um deus absenteísta, explorando a matéria sem escutar seu logos, sem compreender a interconexão heraclitiana de todas as coisas. A Terra, como um grande organismo, reage com a febre dos incêndios e o choro ácido dos oceanos. A infelicidade que daí emana é a de um sistema em colapso, e a pergunta pelos deuses transforma-se na pergunta pela nossa capacidade de ouvir, finalmente, a sinfonia do mundo do qual somos apenas uma parte, e não senhores.

Neste contexto, a resposta talvez esteja no silêncio. Um silêncio que não é abandono, mas um diferente modo de presença. A filosofia de Ludwig Wittgenstein encerra-se com a famosa sentença: “Acerca daquilo de que não se pode falar, deve-se calar” (WITTGENSTEIN, 1999, p. 189). A infelicidade humana, em sua dimensão mais radical e metafísica, toca no inefável. Os deuses, se existem, andam no silêncio que respeitamos perante o mistério do sofrimento, no cuidado que temos uns com os outros quando o sentido último se esvai, no ato de caridade que não pede recompensa celestial.

A busca, portanto, é ilusória. Andar pressupõe um lugar para onde ir. Talvez os deuses nunca tenham "andado" para poderem ser encontrados num paradeiro. Eles são - como força, como arquétipo, como princípio ordenador ou como puro mistério - no próprio fato de existirmos e de interrogarmos a nossa dor. A infelicidade é a lente através da qual, desesperadamente, tentamos focar o infinito.

A reflexão final nos leva a um paradoxo: a infelicidade humana é, ela própria, o mais potente indício do divino. Pois só um ser que anseia por um absoluto, por uma plenitude que o mundo fenomênico nega, pode experimentar a infelicidade como uma ferida tão profunda. Essa saudade, esse sehnsucht - anseio profundo ou desejo, que C.S. Lewis explorou, é o rastro que os deuses deixaram para trás - não existe prova de sua existência, mas a evidência de que fomos marcados por uma possibilidade de transcendência. A infelicidade é a sombra projetada por uma luz que não mais vemos, ou que nunca vimos diretamente.

Assim, a pergunta socrática não encontra uma resposta, mas desdobra-se em um convite. Um convite para abandonarmos a expectativa de deuses que intercedem como engenheiros celestes e para começarmos a encarar a responsabilidade que a nossa própria condição nos impõe. Os deuses andam no nosso próprio caminhar, na nossa coragem de criar significado onde parece não haver nenhum, e no nosso abraço solidário perante a tempestade, seja ela de vento, fogo ou da alma. Eles são o chamado que ouvimos na infelicidade, não para nos salvar dela, mas para nos tornarmos mais humanos através dela.





Ref.:
ADORNO, Theodor. Cultural Criticism and Society. In: Prisms. Cambridge: MIT Press, 1981.
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Lisboa: Livros do Brasil, 2018.
JUNG, Carl Gustav. Archetypes and the Collective Unconscious. Princeton: Princeton University Press, 1969.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 1974.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. São Paulo: EdUSP, 1999.

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