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O REGRESSO INFINITO: QUEM CRIA O CRIADOR?

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Há algo de desconcertante no modo como o cosmos se cala. Diante do céu aberto, salpicado de luzes que parecem tão antigas quanto o próprio tempo, o ser humano sempre se viu forçado a perguntar de onde brota tudo o que existe. Muitas tradições responderam a esse assombro com a figura de um criador - um gesto divino que, num sopro inicial, teria arrancado o mundo do nada. Essa imagem consola e organiza: ajuda-nos a dar sentido à desordem e a imaginar uma origem que não seja mero acaso. Mas basta aceitar essa hipótese por um instante para que outra dúvida surja, ainda mais inquieta. Se tudo precisa de um princípio, quem, então, teria dado origem ao próprio criador? A pergunta incomoda, quase ofende certos ouvidos; porém, para a filosofia e para a ciência, ela é inevitável. É ali, nesse limite em que a lógica parece tropeçar, que começamos a perceber o quanto nossas categorias são frágeis. Podemos tentar virar o problema do avesso. E se o universo, ou aquilo que chamamos assim, nunca tive...

A ILUSÃO DA GUERRA JUSTA: QUANDO SATANÁS VESTE O UNIFORME

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Há algo de inquietante no modo como certos jovens, às portas da morte, enxergam o mundo com uma nitidez que os vivos raramente suportam . CHARLES SORLEY , enterrado ainda em vida pela terra lamacenta de Loos - batalha que ocorreu entre 25 de setembro e 13 de outubro de 1915, na Frente Ocidental durante a Primeira Guerra Mundial, sendo a maior ofensiva britânica daquele ano - parecia ter compreendido cedo demais que a guerra não é um equívoco moral, mas uma espécie de falência espiritual. Em sua despedida brusca, quase ríspida, disse que não havia guerra justa; apenas a troca de um satanás por outro. Suas palavras - duras, sem sentimentalismo - continuam a reverberar como um espelho desconfortável: quantos nomes já demos ao mesmo monstro para não encarar que ele permanece o mesmo? Esta pergunta, na verdade, é antiga. Ela atravessa a memória do Ocidente como um fio arrancado de um tecido milenar. Esparta fez da guerra uma escola diária, um modo de modelar corpos e destinos. Roma, m...

DEUSES, ESTADO, HIPOCRISIA E O FIM DA NOSSA LIBERDADE

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O vento sopra, mas não limpa mais o ar. Há um cheiro estranho pairando sobre nossas cidades, uma mistura de incenso e decretos, de água benta e de vontades alheias sendo vertidas sobre o corpo social . Não é um odor novo. É uma névoa antiga, que pensávamos dissipada pelos ventos da Razão e do Iluminismo. Estávamos enganados. Ela apenas se recolheu, esperou, e agora regressa, vestida com o terno impecável do político, carregando um "livro sagrado" numa mão e a caneta da lei na outra. Observamos, quase atônitos, um fenômeno peculiar do nosso tempo: a fusão silenciosa entre o Estado Laico e os altares da fé. Não se trata mais da religião como um refúgio íntimo, um norte moral pessoal. Trata-se de seu projeto de poder, ambicioso e totalizante, buscando moldar a sociedade à sua imagem e semelhança, ignorando o mosaico plural de crenças e de descrenças que compõem a nação. O púlpito tornou-se tribuna, e o sermão, discurso de posse. É um movimento sutil, uma coreografia paciente. P...

A SOMBRA DO DIVINO: OS DEUSES ABANDONARAM A NOSSA INFELICIDADE?

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Em tempos imemoriais, o trovão era a voz irada de um deus, e a seca, seu castigo silencioso. Hoje, diante dos cataclismos que acontecem no mundo, o céu parece não mais um trono, mas um abismo indiferente. A pergunta sussurra na alma atormentada pela infelicidade coletiva: por onde andam os deuses na infelicidade humana? Talvez eles nunca tenham habitado o Olimpo ou o firmamento, mas sim o vazio primordial que precede a própria criação. Anaximandro de Mileto postulava que a origem de tudo era o Ápeiron , o Ilimitado, “o princípio das coisas que são […] donde vem a geração às coisas que são, e para onde tendem também a destruição, segundo a necessidade” (DK 12 A 9). Neste princípio infinito e impessoal, a infelicidade não é um desvio, mas uma parte intrínseca do ciclo de geração e corrupção, um débito que todas as coisas pagam à ordem cósmica pela sua existência individual. A procura por uma resposta nos leva a interrogar se a infelicidade é a prova da ausênci...

QUANDO O CÉU FICOU MUDO: A ASTROLOGIA ENTRE O MITO E A RAZÃO

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Há um silêncio peculiar, um vazio ressonante, que só a nossa era moderna foi capaz de forjar: o silêncio do céu. Durante incontáveis séculos, o ser humano ergueu os olhos e encontrou muito mais do que um punhado de pontos luminosos suspensos no escuro - ele encontrou destino, advertência e um sentido profundo. As constelações não eram meros desenhos aleatórios; eram narrativas épicas em movimento constante, dramas celestes que contavam as histórias dos deuses e dos nossos próprios medos e aspirações. Os planetas, por sua vez, eram entendidos como mensageiros velozes de um idioma invisível, portadores de influências e humores cósmicos. O cosmos, em sua totalidade, falava. E a astrologia, em sua essência primordial, era a tentativa humilde e poética de traduzir essa voz ancestral. Quando a razão científica começou a sua ascensão inexorável, o firmamento sofreu uma transformação radical. Ele deixou de ser um livro aberto, uma linguagem a ser decifrada, e tornou-se uma mera paisagem, um ce...

AFUNDAR DEVAGAR: SOBRE A NOSSA SERVIDÃO ACOLHEDORA

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Existe um tipo de silêncio que não anuncia a tempestade, mas sim a sua acomodação. É o ruído baixo e constante do consenso, o zumbido de um acordo não dito de que as grandes batalhas terminaram. Nosso tempo é marcado por essa aceitação peculiar do colapso, uma rendição que não vem com estrondo, mas com o sussurro de uma esperança que se esvai pela pia abaixo. O futuro, aquele horizonte que nos movia, tornou-se uma paisagem difusa, substituída por um presente contínuo e febril, um eterno agora sem saída. Esse estranho consenso me lembra um velho fantasma que assombra o pensamento político: a ideia da “Servidão Voluntária”. Étienne de La Boétie , no século XVI, já se espantava com a multidão que, podendo ser livre, escolhia a coleira. Roberto Toscano e Ramin Jahanbegloo , revisitando esse ensaio, vão além: sugerem que há em nós uma compulsão inata pela segurança, uma perplexidade diante do vazio da liberdade. Preferimos a certeza do cativeiro ao caos aterrorizante da autonomia. Nosso pa...

A REBELDIA DE NÃO ACREDITAR EM NADA E ENCONTRAR TUDO

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Em um mundo saturado de ruído, opiniões e certezas efêmeras, existe uma estranha atração pelo silêncio. Não aquele silêncio cômodo da paz interior, mas um silêncio primordial, absoluto, que é o chão de tudo. É no encontro com este vácuo fundamental que descobrimos uma verdade desconcertante: quem já atravessou as paisagens áridas de seu próprio inferno pessoal descobre que o ridículo, a opinião alheia, perde todo seu poder. A alma, uma vez carbonizada pelo sofrimento real, torna-se imune aos fogos de artifício das vaidades sociais. Essa jornada através do deserto existencial nos leva a uma compreensão profunda do absurdo. O absurdo não é uma teoria filosófica para ser debatida em salas arejadas; é a experiência visceral de um mundo desprovido de sentido intrínseco, onde perguntas fundamentais ecoam no vazio sem resposta. Foi Emil Cioran , o filósofo do crepúsculo e da insônia, quem explorou com maestria sombria esses territórios. Para ele, a consciência do absurdo não é uma sentença de...