AFUNDAR DEVAGAR: SOBRE A NOSSA SERVIDÃO ACOLHEDORA

Existe um tipo de silêncio que não anuncia a tempestade, mas sim a sua acomodação. É o ruído baixo e constante do consenso, o zumbido de um acordo não dito de que as grandes batalhas terminaram. Nosso tempo é marcado por essa aceitação peculiar do colapso, uma rendição que não vem com estrondo, mas com o sussurro de uma esperança que se esvai pela pia abaixo. O futuro, aquele horizonte que nos movia, tornou-se uma paisagem difusa, substituída por um presente contínuo e febril, um eterno agora sem saída.

Esse estranho consenso me lembra um velho fantasma que assombra o pensamento político: a ideia da “Servidão Voluntária”. Étienne de La Boétie, no século XVI, já se espantava com a multidão que, podendo ser livre, escolhia a coleira. Roberto Toscano e Ramin Jahanbegloo, revisitando esse ensaio, vão além: sugerem que há em nós uma compulsão inata pela segurança, uma perplexidade diante do vazio da liberdade. Preferimos a certeza do cativeiro ao caos aterrorizante da autonomia. Nosso pacto com o demônio, afinal, garante o pão de cada dia, mesmo que o preço seja a própria alma.

E o que é a esperança nesse cativeiro confortável? Ela se transformou. De projeto coletivo de mudança, tornou-se uma ferramenta de sobrevivência individual. Já não esperamos mudar o mundo; esperamos, angustiados, conseguir nos adaptar a ele. Esta esperança raquítica, como notam Toscano e Jahanbegloo, é o que torna a nossa liberdade uma farsa - trocamos o direito de errar e recomeçar pela fria previsibilidade de um sistema em falência múltipla.

Olhe para o abismo ambiental! A maioria de nós não nega a ciência; nós a internalizamos com um fatalismo resignado. A servidão voluntária se manifesta no ato de separar o lixo reciclável enquanto fechamos a janela para a fumaça das queimadas. Sabemos que o navio afunda, mas o convés é tão confortável., não é mesmo? Delega-se a responsabilidade a um comandante que sabemos estar embriagado, porque a ideia de tomar o leme nos parece, simplesmente, uma fantasia exaustiva.

No campo da política e das relações sociais, a lógica é a mesma. A polarização que destrói laços, a pós-verdade que corrói o diálogo - são recebidas não com revolta, mas com um cansaço profundo, uma espécie de luto antecipado pela democracia. É o "já era" que se torna o mantra da nossa inação. A esperança, então, se refugia no apartamento, no feed tratado das redes, no pequeno círculo de iguais. Abandonamos a praça pública porque ela parece um campo minado.

Mas eis que surge o paradoxo mais teimoso: a persistente, quase desarrazoada, crença de que a vida é bonita. Esta não é a beleza plastificada dos comerciais. É uma beleza que agoniza, que nasce da rachadura, que brilha mais forte justamente porque tudo ao redor é sombra. É a flor no concreto, o gesto de gentileza no trânsito hostil, o último verso de um poema num mundo analfabeto de si mesmo. É um ato de insubordinação íntima.

Vladimir Safatle, em "O Circuito dos Afetos", explora justamente essa capacidade dos corpos de gerar alegria mesmo sob cerco. Não se trata de um otimismo falso, mas de uma resiliência afetiva que serve de base para a resistência. Essa beleza que encontramos não nos acalma; pelo contrário, ela nos inquieta. Ela é a prova viva de que ainda sentimos, de que ainda nos importamos, apesar de tudo.

Assim, acreditar na beleza em tempos de colapso não é um delírio, mas a sonda de uma nova ética. É a recusa final a entregar toda a nossa humanidade ao projeto da morte. A poeta Marília Garcia, em "Um Teste de Resistência", fala de uma "vida entremeio", que brota nas frestas. É essa a beleza que nos salva: a que é miúda, frágil e intersticial, que escapa à lógica da produtividade que nos levou ao abismo.

A servidão, no fim das contas, só se completa quando perdemos a capacidade de ver o belo. Quando aceitamos que o mundo é apenas cinza. Manter os olhos abertos para o que ainda resplandece é, portanto, um ato de sabotagem ao projeto do tirano. É guardar uma semente no bolso no inverno mais rigoroso.

A verdadeira esperança, então, talvez não seja sobre o amanhã. Talvez ela seja sobre a coragem de habitar o hoje em toda a sua crueza, sem abdicar da sensibilidade. Boaventura de Sousa Santos, em "A Cruel Pedagogia do Vírus", fala da necessidade de "reinvestir nas expectativas". Esse reinvestimento começa com a percepção do belo no coração do feio. É a beleza que nos lembra do que estamos lutando para preservar.

Portanto, a aparente contradição de encontrar beleza no fim do mundo é, na verdade, o seu antídoto. A servidão voluntária prospera na ausência de encantamento. A liberdade, por outro lado, mesmo falível e incerta, renasce a cada olhar que se demora num pôr do sol poluído e, ainda assim, encontra algo que vale a pena.

O fim não é um destino, mas uma construção diária. E a cada instante em que nos permitimos ser tocados por um fragmento de beleza, nós atrasamos a sua chegada. No "apesar de tudo" desse gesto, reside o último e mais teimoso sopro da nossa liberdade. Um sopro que pode, quem sabe, ser o início de um novo vento.

 



Ref.:
LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da Servidão Voluntária. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2017.
TOSCANO, Roberto; JAHANBEGLOO, Ramin. A Servidão Voluntária: Ensaios sobre Liberdade e Poder. São Paulo: Editora Perspectiva, 2021.
SAFATLE, Vladimir. O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo. São Paulo: Editora Autêntica, 2015.
GARCIA, Marília. Um Teste de Resistência. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2020.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A Cruel Pedagogia do Vírus. Coimbra: Edições Almedina, 2020.


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