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O FEITIÇO DO PODER: QUANDO A ADMIRAÇÃO VIRA SUBMISSÃO

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Às vezes me pego pensando naquela sensação estranha quando uma figura pública parece ter todas as respostas que nos faltam. É um alívio momentâneo, como entregar o volante do carro em uma estrada escura. A gente suspende a desconfiança, esquece que políticas públicas são mais complexas que discursos, e se entrega ao conforto de seguir. Sempre me lembro de uma passagem de Platão   - nunca me saiu da cabeça. Não sei se foi na A República ou em outro diálogo, mas ele fala desse momento preciso em que a democracia adoece - quando a saudade de um pastor supera o medo do lobo. A gente troca a liberdade complicada pela obediência tranquila. O que Jan-Werner Müller chamaria de "povo verdadeiro" nessa história toda? No seu O que é o populismo? (2016, Editora Perspectiva, 2019) ele descreve essa lógica perversa onde o líder não erra porque encarna uma vontade coletiva. A gente vê isso acontecer diariamente nas redes, essa fusão perigosa entre pessoa e pátria que sufoca qualquer deba...

GAZA, O MUNDO E A ESPIRAL DO SILÊNCIO

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Alguns conflitos… ah, eles não desaparecem com o tempo. Não mesmo. Eles apenas se aprofundam. E não estão apenas no território - estão na gente, na cabeça, no coração. Tornam-se familiares, quase invisíveis, e a pergunta que muitas vezes nem ousamos fazer é simples: afinal, o que ainda está em jogo? Por que um governo insiste em caminhos cada vez mais isolados? E o que isso diz sobre nós, quando assistimos à tragédia se desenrolar lentamente, ano após ano, entre condenações vazias e uma falta de ação que, se pudesse gritar, ensurdeceria qualquer explosão? O problema vai muito além das disputas territoriais. É como estar num laboratório onde forças humanas primordiais - medo, poder, fé e ideologia - se chocam com a frágil arquitetura do direito internacional. As resoluções da ONU, nesse cenário, mais parecem notas à margem de um livro de horror, ignoradas por quem dita o roteiro, guiado por uma lógica própria que o mundo insiste em não compreender… ou mais simples ainda: não queira en...

O PACTO: COMO A TRÍADE DO PODER SUGA A VIDA DA SOCIEDADE

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Há um padrão que insiste em se repetir, um roteiro sombrio que transforma o potencial das nações em pó e cinzas . Não é uma conspiração, mas uma confluência de ambições: o momento em que o poder religioso, o poder militar e o poder econômico decidem dançar juntos. Separados, já carregam sementes de autoritarismo; unidos por um projeto de dominação, tornam-se uma máquina quase imparável de decadência. E o pior é que essa aliança raramente se anuncia com clarões. Ela chega sussurrando promessas de ordem e grandeza, explorando nossos medos mais profundos. Pense na sedução perversa dessa ideia. Um líder "escolhido por um deus", sustentado pelas baionetas "leais" e pelo dinheiro dos "patriotas". É uma fantasia perigosa que vende a ilusão do atalho para a estabilidade. A história, no entanto, é implacável em nos mostrar o destino final desse caminho: o despotismo. O poder militar, quando se desvia de sua função republicana de defesa para se tornar o cão de guar...

ELAS TIVERAM MEDO; HOJE, PRECISAM FAZER HISTÓRIA

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O medo é uma sombra familiar para muitas mulheres , uma presença constante que sussurra cautela onde deveria haver impulso, que aconselha silêncio onde a voz precisa erguer-se. É uma herança ancestral, cultivada em séculos de exclusão e subjugação, que insiste em ditar os limites do possível. Mas e se o medo não for um aviso, mas um convite? Um limiar a ser transposto justamente porque assusta? Foi nesse espaço tenso, entre o pavor paralisante e a ação corajosa, que incontáveis mulheres descobriram que a história não é algo que simplesmente acontece; é algo que se faz, ainda que com as mãos tremendo. No século XVIII, Mary Wollstonecraft já encarava esse fantasma de frente. Ela não pediu licença para questionar as estruturas que tornavam as mulheres criaturas frívolas e dependentes, educadas apenas para o agrado masculino. Em sua obra, Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher (1792, p. 45), ela argumenta com ferocidade: " Fortaleçam a mente feminina alargando-a, e haverá um fim ...

POR QUE A AGONIA DA FINITUDE É NOSSA MAIOR LIBERDADE

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Vivemos dias cinzentos, arrastando-nos entre obrigações e distrações vazias . A rotina, essa mestra ilusória, nos convence de que a existência se resume a cumprir horários, pagar boletos e perseguir prazeres muitos deles passageiros, efêmeros. Mas, em algum momento, no silêncio da madrugada, a pergunta emerge como um golpe: para que tudo isso? O que resta quando a cortina do quotidiano se abre e encaramos o palco vazio da nossa própria finitude? Num rompante de genialidade, o teólogo Karl Barth , sacudiu a teologia do século XX, escreveu que Deus é o “Totalmente Outro”. Esta não é uma ideia confortante; é um verdadeiro soco no estômago. Em sua Epístola aos Romanos, ele não nos oferece um abraço, mas um raio que incendeia todas as nossas seguranças fabricadas. A esperança, nesta perspectiva, não é um consolo - é uma revolução que começa no reconhecimento do nosso colapso. E é nesse colapso que outro grande pensador protestante histórico, Paul Tillich encontra o ponto que causa o incên...

O ABISMO DA REPRESENTAÇÃO: QUANDO QUEM GOVERNA ESQUECE QUEM REPRESENTA

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Vou ser sincero: tá difícil acreditar. A gente vota, espera, e o que acontece? Quem a gente elege parece sumir num labirinto de interesses que a gente nem consegue entender. E o pior: quando aparecem, é mais pra se defender do que pra nos representar. Cadê a tal da democracia que deveria ser do povo? A verdade é que muitos dos nossos representantes acabam vivendo num mundo paralelo, muito particular. Enquanto muita gente se "vira nos trinta" pra pagar conta, eles brigam por cargos, benefícios e vantagens que nem passam pela nossa cabeça. O mandato, que era pra ser uma prestação de serviço para o povo, vira trampolim para projetos pessoais. E nós? Ficamos lá, assistindo bem de longe. Rousseau já alertava sobre isso no século XVIII: não adianta entregar nossa voz a outros e esperar que nos representem de verdade . No Do Contrato Social, ele é categórico: “a soberania não pode ser representada pela mesma razão que não pode ser alienada” (ROUSSEAU, 1762/2001, p. 89). A vontade...

QUANDO OS LÍDERES VIRAM PERSONAGENS E O POVO PLATÉIA

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O mundo parece ter mergulhado de cabeça num daqueles romances distópicos que a gente lê com um certo distanciamento cômodo, convencidos de que aquela realidade nunca chegaria às nossas portas. Mas eis que ela não só chegou como bateu com força, não com um estrondo, mas com um tuít e. A ascensão de figuras como Donald Trump não foi um acidente histórico, mas o sintoma de uma doença muito mais profunda, que corrói as entranhas das democracias modernas . É o culto à personalidade elevado à enésima potência, onde o ego do líder deixa de ser um traço de personalidade para se tornar a própria estratégia de governo. Esses líderes, veja bem, não governam – eles atuam.  A especialidade é construir realidades paralelas, um mundo onde os fatos são moeda de troca e a verdade não passa de um incômodo a ser eliminado. O grande tabuleiro das relações internacionais, que sempre demandou racionalidade e um mínimo de previsibilidade, foi reduzido a um reality show grotesco, onde humilhar um aliad...