QUANDO OS LÍDERES VIRAM PERSONAGENS E O POVO PLATÉIA
O mundo parece ter mergulhado de cabeça num daqueles romances distópicos que a gente lê com um certo distanciamento cômodo, convencidos de que aquela realidade nunca chegaria às nossas portas. Mas eis que ela não só chegou como bateu com força, não com um estrondo, mas com um tuíte. A ascensão de figuras como Donald Trump não foi um acidente histórico, mas o sintoma de uma doença muito mais profunda, que corrói as entranhas das democracias modernas. É o culto à personalidade elevado à enésima potência, onde o ego do líder deixa de ser um traço de personalidade para se tornar a própria estratégia de governo.
Esses líderes, veja bem, não governam – eles atuam. A especialidade é construir realidades paralelas, um mundo onde os fatos são moeda de troca e a verdade não passa de um incômodo a ser eliminado. O grande tabuleiro das relações internacionais, que sempre demandou racionalidade e um mínimo de previsibilidade, foi reduzido a um reality show grotesco, onde humilhar um aliado vale mais que um acordo comercial e onde uma ameaça nuclear pode ser lançada como piada num comício. O que testemunhamos, não é brincadeira, é a fusão perigosa entre a política externa e a política doméstica do ego.
O realismo clássico, lá de Hans Morgenthau, sempre entendeu que os Estados são movidos a interesse e poder. Só que partia de um pressuposto de racionalidade. A grande questão que se impõe agora é: o que acontece quando o interesse nacional se confunde – e é subjugado – pelo interesse pessoal e pela vaidade desmedida de um único homem? Morgenthau, em “Politics Among Nations” (1948, p. 5), já alertava que a política é uma luta pelo poder, mas uma luta que, em tese, seria orientada por uma racionalidade estratégica que evita a autodestruição. Um princípio que, hoje, parece ter sido jogado na lata de lixo da história.
O povo, diante desse espetáculo de horror, assume os papéis mais variados. Uma parte vira a plateia fervorosa, que ovaciona cada provocação como se fosse um golpe de gênio. Outra parte simplesmente paralisa, em estado de choque, vendo as normas serem quebradas uma após a outra sem ter reação. E tem aqueles que, pura e simplesmente, desviam o olhar, esmagados pelo cansaço de tanta informação e por uma sensação paralisante de impotência. Essa fragmentação não é casual; é cultivada. Um povo dividido é um povo que não se encontra para cobrar respostas.
A estratégia, é bom dizer, é genial na sua perversidade: saturar o espaço público com tantos escândalos, tanta notícia falsa e tanta crise fabricada que a população perde por completo a capacidade de discernir o que é importante. O que era inaceitável ontem vira o normal hoje, e amanhã a gente já vai estar discutindo a próxima provocação. É uma tirania do caos, saca só, onde a única constante é o ego do líder, amplificado, no centro do furacão.
E é nesse pandemônio que a pergunta inevitável surge: como reagir? Cair no conformismo não é uma opção num sistema que ainda se diz democrático. A democracia não é um espetáculo para ser consumido passivamente, mas uma máquina que exige ser operada. A primeira e mais poderosa arma é se recusar a jogar o jogo com as regras do líder. Recusar-se a normalizar o absurdo. Tratar opinião como opinião e fato como fato. Exigir que as instituições, da imprensa ao judiciário, façam seu trabalho de freios e contrapesos. Sérgio Fausto, em “Democracia em Risco?”, chega a um ponto crucial ao afirmar que a resiliência democrática depende justamente da nossa recusa em normalizar o absurdo (2019, p. 112).
Ações concretas, claro, são mais que necessárias. O voto é a ferramenta primordial, óbvio. Mas ele não pode se resumir ao dia da eleição. A gente vota todos os dias: com o que consome, com a participação em debates locais, com a pressão constante sobre quem elegemos. A mobilização tem que ser incessante e, acima de tudo, informada. Como bem lembra Ana Paula Tostes em “A América do Sul em Transe”, a vigilância constante dos cidadãos é o antídoto mais poderoso contra a corrosão das instituições, demandando um ativismo que vá muito além das urnas (2021, p. 87).
A educação midiática vira, então, uma trincheira de resistência. Saber discernir fontes, buscar informação plural e não repassar o conteúdo do pânico é um ato de rebeldia em tempos de desinformação orquestrada. Não podemos ser os bobos da corte, multiplicando involuntariamente a agenda do caos. Precisamos ser curadores da verdade, por mais sem graça que ela pareça diante do reality show político.
A comunidade internacional, por sua vez, não pode ficar de braços cruzados. Alianças não podem ser quebradas por caprichos pessoais. Países com tradições democráticas sólidas precisam se unir e fortalecer as instituições multilaterais, não para isolar um líder específico, mas para proteger um sistema baseado em regras que, no fim das contas, beneficia a todos. Como prevê Fareed Zakaria em “The Post-American World”, a ordem futura vai depender da capacidade de adaptação das democracias a um mundo onde o poder está mais disperso, mas não menos ameaçado por impulsos autoritários (2008, p. 241).
Internamente, a oposição precisa urgentemente aprender novas linguagens. De nada adianta ficar gritando “isso não é normal” num megafone. É preciso construir narrativas alternativas e poderosas, que ofereçam esperança e um vislumbre de futuro, em vez de ficar só reagindo aos últimos tuítes. A batalha não é só factual; é emocional e simbólica. É uma disputa pelo coração e pela mente de quem se sente atraído por um discurso forte e simplista.
A imprensa livre, tão atacada, enfrenta um desafio hercúleo: reportar sem amplificar, criticar sem alimentar a narrativa de perseguição. O jornalismo lento, investigativo e que coloca tudo em contexto é sua maior contribuição. Cada reportagem que desvenda os fios de interesse por trás de uma decisão aparentemente caótica é um golpe duro na fachada de improviso.
Não se engane: a aparente incompetência muitas vezes não passa de estratégia. A bagunça serve para esconder os objetivos reais: o enfraquecimento do Estado de Direito, o enriquecimento de um círculo íntimo, a concentração de poder. Como detalham Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em “Como as democracias morrem”, o colapso democrático raramente vem com um estrondo de golpe, mas sim num sussurro, através de um processo lento e constante de erosão de normas que pareciam inquebráveis (2018, p. 7, na versão original) - e esse processo é quase sempre liderado por figuras que se vendem como outsiders do sistema.
Portanto, a ação mais radical possível é se recusar a aceitar essa nova normalidade. É lembrar, sempre, que a democracia não nos foi dada de mão beijada; foi conquistada com luta e exige ser defendida com a mesma ferocidade. É sair da plateia e pular no palco. É se organizar, estudar, pressionar, votar, exigir.
O silêncio e a inação, hoje, são atos de cumplicidade. O futuro das relações internacionais e da própria democracia não vai ser decidido por um homem num palácio, mas por milhões de pessoas nas praças, nas comunidades online, nas urnas e, sobretudo, nas suas consciências. A pergunta que fica, e que não quer calar, é: de que lado dessa história você vai ficar?
Ref.:
FAUSTO, Sérgio. Democracia em Risco?: 32 ensaios sobre o Brasil e o mundo de hoje. São Paulo: Editora Schwarcz, 2019.
TOSTES, Ana Paula. A América do Sul em Transe: Democracia, Autoritarismo e Crise Regional. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2021.
MORGENTHAU, Hans. A Política entre as Nações: A luta pelo poder e pela paz. Tradução de Renato Amado Boselli. Brasília: Editora UnB, 2003.
ZAKARIA, Fareed. The Post-American World. New York: W.W. Norton & Company, 2008.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. How Democracies Die. New York: Crown, 2018.

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