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ELAS TIVERAM MEDO; HOJE, PRECISAM FAZER HISTÓRIA

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O medo é uma sombra familiar para muitas mulheres , uma presença constante que sussurra cautela onde deveria haver impulso, que aconselha silêncio onde a voz precisa erguer-se. É uma herança ancestral, cultivada em séculos de exclusão e subjugação, que insiste em ditar os limites do possível. Mas e se o medo não for um aviso, mas um convite? Um limiar a ser transposto justamente porque assusta? Foi nesse espaço tenso, entre o pavor paralisante e a ação corajosa, que incontáveis mulheres descobriram que a história não é algo que simplesmente acontece; é algo que se faz, ainda que com as mãos tremendo. No século XVIII, Mary Wollstonecraft já encarava esse fantasma de frente. Ela não pediu licença para questionar as estruturas que tornavam as mulheres criaturas frívolas e dependentes, educadas apenas para o agrado masculino. Em sua obra, Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher (1792, p. 45), ela argumenta com ferocidade: " Fortaleçam a mente feminina alargando-a, e haverá um fim ...

POR QUE A AGONIA DA FINITUDE É NOSSA MAIOR LIBERDADE

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Vivemos dias cinzentos, arrastando-nos entre obrigações e distrações vazias . A rotina, essa mestra ilusória, nos convence de que a existência se resume a cumprir horários, pagar boletos e perseguir prazeres muitos deles passageiros, efêmeros. Mas, em algum momento, no silêncio da madrugada, a pergunta emerge como um golpe: para que tudo isso? O que resta quando a cortina do quotidiano se abre e encaramos o palco vazio da nossa própria finitude? Num rompante de genialidade, o teólogo Karl Barth , sacudiu a teologia do século XX, escreveu que Deus é o “Totalmente Outro”. Esta não é uma ideia confortante; é um verdadeiro soco no estômago. Em sua Epístola aos Romanos, ele não nos oferece um abraço, mas um raio que incendeia todas as nossas seguranças fabricadas. A esperança, nesta perspectiva, não é um consolo - é uma revolução que começa no reconhecimento do nosso colapso. E é nesse colapso que outro grande pensador protestante histórico, Paul Tillich encontra o ponto que causa o incên...

O ABISMO DA REPRESENTAÇÃO: QUANDO QUEM GOVERNA ESQUECE QUEM REPRESENTA

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Vou ser sincero: tá difícil acreditar. A gente vota, espera, e o que acontece? Quem a gente elege parece sumir num labirinto de interesses que a gente nem consegue entender. E o pior: quando aparecem, é mais pra se defender do que pra nos representar. Cadê a tal da democracia que deveria ser do povo? A verdade é que muitos dos nossos representantes acabam vivendo num mundo paralelo, muito particular. Enquanto muita gente se "vira nos trinta" pra pagar conta, eles brigam por cargos, benefícios e vantagens que nem passam pela nossa cabeça. O mandato, que era pra ser uma prestação de serviço para o povo, vira trampolim para projetos pessoais. E nós? Ficamos lá, assistindo bem de longe. Rousseau já alertava sobre isso no século XVIII: não adianta entregar nossa voz a outros e esperar que nos representem de verdade . No Do Contrato Social, ele é categórico: “a soberania não pode ser representada pela mesma razão que não pode ser alienada” (ROUSSEAU, 1762/2001, p. 89). A vontade...

QUANDO OS LÍDERES VIRAM PERSONAGENS E O POVO PLATÉIA

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O mundo parece ter mergulhado de cabeça num daqueles romances distópicos que a gente lê com um certo distanciamento cômodo, convencidos de que aquela realidade nunca chegaria às nossas portas. Mas eis que ela não só chegou como bateu com força, não com um estrondo, mas com um tuít e. A ascensão de figuras como Donald Trump não foi um acidente histórico, mas o sintoma de uma doença muito mais profunda, que corrói as entranhas das democracias modernas . É o culto à personalidade elevado à enésima potência, onde o ego do líder deixa de ser um traço de personalidade para se tornar a própria estratégia de governo. Esses líderes, veja bem, não governam – eles atuam.  A especialidade é construir realidades paralelas, um mundo onde os fatos são moeda de troca e a verdade não passa de um incômodo a ser eliminado. O grande tabuleiro das relações internacionais, que sempre demandou racionalidade e um mínimo de previsibilidade, foi reduzido a um reality show grotesco, onde humilhar um aliad...

DECIDIMOS TUDO SOZINHOS? A ILUSÃO DA AUTONOMIA HUMANA

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Vivemos tempos estranhos. A promessa de uma conexão infinita, que um dia soou como libertação, hoje se assemelha mais a uma teia invisível que nos aprisiona sem que percebamos os fios. As telas que nos unem são também os muros que nos separam, criando uma solidão barulhenta, cheia de notificações, mas sem nenhum sentido. A promessa de conexão total se mostrou uma grande farsa. Estamos o tempo todo ocupados, conversando com dez pessoas ao mesmo tempo, mas no fundo é um deserto. Você já parou para calcular o que estamos trocando por essa suposta conveniência? Me Lembra uma ideia do filósofo Paul Ricoeur que sempre me assombra. Em "O Si-mesmo como um Outro" (1991), ele defende que quem "nós somos é construído no espelho que é o outro ." Nossa narrativa pessoal é uma história que se escreve a duas mãos, na troca de palavras, olhares e presença. A tecnologia, ao intermediar e muitas vezes substituir esse encontro cara a cara, nos empurra para uma armadilha: a de começa...

O VAZIO A SUSSURRAR E O REFLEXO DA NOSSA INAÇÃO

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O silêncio nunca foi tão barulhento. Um zumbido de desespero, um ruído de fundo que sussurra promessas de ordem. A democracia nos deu o direito de escolher, mas nos negou a paz de não precisar fazê-lo. E nesse vazio, ergue-se a sombra familiar, vestindo novas roupagens para velhos cantos de sereia. Platão já antevia o colapso: " O tirano sempre surge como protetor do povo " (PLATÃO, 2001, p. 332). A queda começa na alma, não nas instituições. Um cansaço da liberdade. Um desejo doentio por obediência. Vimos isso nos comícios de Nuremberg, mas também nos tweets perfeitamente calculados que transformam a política em espetáculo de ódio. Lembro que numa aula de filosofia, alguém soltou esta frase: estrutura do poder autoritário se constrói com o mesmo material que é o medo do diferente. Já Sartre ataca com muita precisão: "Não somos nada além do que fazemos" (SARTRE, 1997, p. 55). A neutralidade é uma farsa. Uma escolha covarde. A má-fé é o refúgio dos medíocres que, ...

CIORAN E O ABISMO QUE NOS OLHA

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Quando a história grita, depois vem aquele silêncio pesado.  Não é paz, é um buraco mesmo, tipo o eco do que sobrou depois do caos. E aí, bem no meio da bagunça que a gente faz as desculpas mal contadas, aparece Cioran com aquele olhar seco, sem dó, jogando realidade na nossa cara. Não tá ali pra salvar ninguém, só pra esfregar a sujeira que a gente tentou esconder debaixo do tapete. No tal do Breviário de Decomposição , Cioran basicamente destrói essa conversa de que o mal é só uma ideia abstrata. Pra ele, fazer besteira é rotina, é quase instinto. Todo ser vivo, de algum jeito, pisa no outro, mata, usa, abusa. Não é teoria de bar, é só olhar em volta. Rousseau  estava lá sonhando com humanidade boazinha, utopia de comercial de margarina, enquanto Cioran já enxergava a sociedade como um circo louco, onde todo mundo mostra o pior de si. Lembra do Voltaire querendo que a razão resolvesse tudo depois do terremoto em Lisboa? Cioran ri disso. Ele não pergunta “por que existe o m...