DECIDIMOS TUDO SOZINHOS? A ILUSÃO DA AUTONOMIA HUMANA

Vivemos tempos estranhos. A promessa de uma conexão infinita, que um dia soou como libertação, hoje se assemelha mais a uma teia invisível que nos aprisiona sem que percebamos os fios. As telas que nos unem são também os muros que nos separam, criando uma solidão barulhenta, cheia de notificações, mas sem nenhum sentido. A promessa de conexão total se mostrou uma grande farsa. Estamos o tempo todo ocupados, conversando com dez pessoas ao mesmo tempo, mas no fundo é um deserto. Você já parou para calcular o que estamos trocando por essa suposta conveniência?

Me Lembra uma ideia do filósofo Paul Ricoeur que sempre me assombra. Em "O Si-mesmo como um Outro" (1991), ele defende que quem "nós somos é construído no espelho que é o outro." Nossa narrativa pessoal é uma história que se escreve a duas mãos, na troca de palavras, olhares e presença. A tecnologia, ao intermediar e muitas vezes substituir esse encontro cara a cara, nos empurra para uma armadilha: a de começarmos a nos constituir não mais a partir do outro de carne e osso, mas a partir de interfaces, algoritmos e curtas interações digitais.

O resultado é um empobrecimento dramático do mundo simbólico que nos cerca. Claude Lévi-Strauss, em “Tristes Trópicos” (1955), chamou de 'entropia' das culturas. Esse processo se acelerou de um jeito brutal. Hoje, nossos mitos são globais, vazios e passageiros, algo que desaparece apenas 24 horas. Hoje, vivemos a aceleração brutal desse processo. Nossas narrativas são as trends de rede social, e nossos rituais se reduziram a cliques, likes e compartilhamentos. A riqueza das diferenças, que demandava tempo e paciência para ser compreendida, é logo achatada por uma necessidade de engajamento.

Essa lógica é profundamente instrumental. Martin Heidegger, em “A Questão da Técnica” (1954), argumenta que a essência da técnica moderna não está em máquinas ou aparelhos, mas em um modo específico de revelar o mundo: como “estoque” (Bestand), algo à disposição, pronto para ser ordenado, calculado e explorado. As redes sociais são a expressão máxima disso: transformam relações, emoções e atenção em dados passiveis de armazenamento, análise e venda. Nossos amigos viram “contatos”, nosso luto vira “reação”, nosso amor vira “curtida”.

Nesse contexto, as decisões que tomamos no dia a dia deixam de ser fruto de uma reflexão autêntica. Escolhemos um restaurante baseado nas avaliações do aplicativo, e não na curiosidade de explorar uma rua. Elegemos um parceiro com base em filtros de busca, e não na química imprevisível de um encontro casual. Optamos por notícias que confirmam nossas crenças, entregues por feeds personalizados que nos isolam como em feudos. A tecnologia, que prometia ampliar nossas escolhas, na verdade as estreita, substituindo o julgamento humano pelo cálculo do algoritmo.

Perdemos a capacidade de lidar com a alteridade, com o que é verdadeiramente diferente e desafiador. Ricoeur nos fala da “hospitalidade linguística." Como isso se traduz no dia a dia? Simples. Duvido que você escolha um restaurante novo sem checar a avaliação no aplicativo do seu telefone. Nem eu escolho. Os algoritmos dos nossos feeds nos entregam um mundo sob medida, que não desafia, apenas confirma. É cômodo, mas é uma prisão. Não conversamos mais; falamos conosco mesmo em paralelo.

Heidegger nos convida a pensar em um “pensar meditativo” em contraposição a um “pensar calculista”. O primeiro aceita o mistério, a profundidade e o tempo necessário da contemplação. O segundo busca apenas respostas rápidas, eficiência e resultados. Ele falava de um 'pensar calculista' que domina tudo. E putz, como ele tinha razão! Queremos tudo rápido: respostas no Google, delivery em 15 minutos, soluções de vida em 5 passos. Ninguém aguenta mais ficar no silêncio, na dúvida, naquele mal-estar que às vezes precede um insight verdadeiro. Hoje, o botão 'bloquear' resolve tudo

O que Lévi-Strauss via como a tragédia do homem moderno - seu afastamento do mundo natural e sua ânsia por dominá-lo - se completa com nosso afastamento do mundo humano. Nos relacionamos com os outros com a mesma lógica de dominação e controle: queremos otimizar as amizades, maximizar a produtividade das interações e evitar qualquer atrito que não tenha uma utilidade clara. A relação autêntica, cheia de arestas e imprevistos, é substituída por uma versão utilitária e sem riscos.

Isso tem implicações diretas em nossa autonomia. Quando terceirizamos nossas decisões para plataformas, abrimos mão de narrar nossa própria vida. Deixamos que uma "contagem de história algorítmica" defina nossos desejos, nossos medos e nosso caminho. Ricoeur afirmaria que perdemos a habilidade de “ipseidade”, ou seja, de formar uma identidade que preserva sua continuidade ao longo do tempo e das promessas, uma vez que estamos sempre respondendo a estímulos externos e passageiro.

Não estou defendendo que joguemos os celulares no lixo e voltemos a morar em cavernas. Seria hipócrita; estou escrevendo isso num computador. A questão é outra: é preciso usar essas ferramentas com uma atitude diferente, desconfiada.. É, antes, cultivar uma atitude de desconfiança hermenêutica, como propunha Ricoeur. Precisamos aprender a interpretar criticamente as ferramentas que usamos, questionar suas lógicas ocultas e resgatar espaços de comunicação não mediada. É uma recuperação intencional do tempo lento, da conversa olho no olho, do tédio fértil que gera criatividade.

Implica ressignificar a técnica. Em vez de ver a tecnologia apenas como instrumento, enxergá-la como uma forma de “revelação” que pode ser resgatada. Talvez possamos usar essas mesmas tecnologias para aprofundar, e não anestesiar, nossas experiências. Uma videochamada que permite conectar famílias distantes é diferente de um rolar infinito da barra vertical e um caminhar solitário pelas redes.

O desafio é ético. Trata-se de decidir, conscientemente, pelo outro. Por ouvir a história completa, por abraçar o incômodo do debate, por escolher o caminho mais longo porque ele promete um encontro genuíno. É uma decisão diária de não se deixar reduzir a um dado e de não reduzir ninguém a isso.

No fim, a pergunta que fica é: que tipo de seres humanos estamos nos tornando? A tecnologia não é a vilã; ela é apenas o espelho que amplifica nossas escolhas. A decadência não está nas máquinas, mas na nossa resignação, na nossa preguiça de sermos nós mesmos, com toda a carga linda e dolorosa que isso implica.

Recusar essa decadência é um ato de coragem cotidiano. No final do dia, desligo o computador e vou tentar o mais difícil: conversar com alguém sem olhar para a tela do celular. É um começo. Talvez o único que importe no futuro das relações humanas. Nosso comportamento não está escrito nos códigos de um software, mas na nossa vontade inquebrantável de narrar, juntos, uma história mais humana.





Ref.:
HEIDEGGER, Martin. A Questão da Técnica. In: Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2002.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
RICOEUR, Paul. O Si-mesmo como um Outro. Campinas: Papirus Editora, 1991.
DREYFUS, Hubert L. On the Internet. London: Routledge, 2001.
TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.
FEENBERG, Andrew. Questioning Technology. London: Routledge, 1999.
SODRÉ, Muniz. A Ciência do Comum: Notas para o método comunicacional. Petrópolis: Vozes, 2014
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