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O ABISMO DA REPRESENTAÇÃO: QUANDO QUEM GOVERNA ESQUECE QUEM REPRESENTA

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Vou ser sincero: tá difícil acreditar. A gente vota, espera, e o que acontece? Quem a gente elege parece sumir num labirinto de interesses que a gente nem consegue entender. E o pior: quando aparecem, é mais pra se defender do que pra nos representar. Cadê a tal da democracia que deveria ser do povo? A verdade é que muitos dos nossos representantes acabam vivendo num mundo paralelo, muito particular. Enquanto muita gente se "vira nos trinta" pra pagar conta, eles brigam por cargos, benefícios e vantagens que nem passam pela nossa cabeça. O mandato, que era pra ser uma prestação de serviço para o povo, vira trampolim para projetos pessoais. E nós? Ficamos lá, assistindo bem de longe. Rousseau já alertava sobre isso no século XVIII: não adianta entregar nossa voz a outros e esperar que nos representem de verdade . No Do Contrato Social, ele é categórico: “a soberania não pode ser representada pela mesma razão que não pode ser alienada” (ROUSSEAU, 1762/2001, p. 89). A vontade...

QUANDO OS LÍDERES VIRAM PERSONAGENS E O POVO PLATÉIA

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O mundo parece ter mergulhado de cabeça num daqueles romances distópicos que a gente lê com um certo distanciamento cômodo, convencidos de que aquela realidade nunca chegaria às nossas portas. Mas eis que ela não só chegou como bateu com força, não com um estrondo, mas com um tuít e. A ascensão de figuras como Donald Trump não foi um acidente histórico, mas o sintoma de uma doença muito mais profunda, que corrói as entranhas das democracias modernas . É o culto à personalidade elevado à enésima potência, onde o ego do líder deixa de ser um traço de personalidade para se tornar a própria estratégia de governo. Esses líderes, veja bem, não governam – eles atuam.  A especialidade é construir realidades paralelas, um mundo onde os fatos são moeda de troca e a verdade não passa de um incômodo a ser eliminado. O grande tabuleiro das relações internacionais, que sempre demandou racionalidade e um mínimo de previsibilidade, foi reduzido a um reality show grotesco, onde humilhar um aliad...

DECIDIMOS TUDO SOZINHOS? A ILUSÃO DA AUTONOMIA HUMANA

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Vivemos tempos estranhos. A promessa de uma conexão infinita, que um dia soou como libertação, hoje se assemelha mais a uma teia invisível que nos aprisiona sem que percebamos os fios. As telas que nos unem são também os muros que nos separam, criando uma solidão barulhenta, cheia de notificações, mas sem nenhum sentido. A promessa de conexão total se mostrou uma grande farsa. Estamos o tempo todo ocupados, conversando com dez pessoas ao mesmo tempo, mas no fundo é um deserto. Você já parou para calcular o que estamos trocando por essa suposta conveniência? Me Lembra uma ideia do filósofo Paul Ricoeur que sempre me assombra. Em "O Si-mesmo como um Outro" (1991), ele defende que quem "nós somos é construído no espelho que é o outro ." Nossa narrativa pessoal é uma história que se escreve a duas mãos, na troca de palavras, olhares e presença. A tecnologia, ao intermediar e muitas vezes substituir esse encontro cara a cara, nos empurra para uma armadilha: a de começa...

O VAZIO A SUSSURRAR E O REFLEXO DA NOSSA INAÇÃO

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O silêncio nunca foi tão barulhento. Um zumbido de desespero, um ruído de fundo que sussurra promessas de ordem. A democracia nos deu o direito de escolher, mas nos negou a paz de não precisar fazê-lo. E nesse vazio, ergue-se a sombra familiar, vestindo novas roupagens para velhos cantos de sereia. Platão já antevia o colapso: " O tirano sempre surge como protetor do povo " (PLATÃO, 2001, p. 332). A queda começa na alma, não nas instituições. Um cansaço da liberdade. Um desejo doentio por obediência. Vimos isso nos comícios de Nuremberg, mas também nos tweets perfeitamente calculados que transformam a política em espetáculo de ódio. Lembro que numa aula de filosofia, alguém soltou esta frase: estrutura do poder autoritário se constrói com o mesmo material que é o medo do diferente. Já Sartre ataca com muita precisão: "Não somos nada além do que fazemos" (SARTRE, 1997, p. 55). A neutralidade é uma farsa. Uma escolha covarde. A má-fé é o refúgio dos medíocres que, ...

CIORAN E O ABISMO QUE NOS OLHA

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Quando a história grita, depois vem aquele silêncio pesado.  Não é paz, é um buraco mesmo, tipo o eco do que sobrou depois do caos. E aí, bem no meio da bagunça que a gente faz as desculpas mal contadas, aparece Cioran com aquele olhar seco, sem dó, jogando realidade na nossa cara. Não tá ali pra salvar ninguém, só pra esfregar a sujeira que a gente tentou esconder debaixo do tapete. No tal do Breviário de Decomposição , Cioran basicamente destrói essa conversa de que o mal é só uma ideia abstrata. Pra ele, fazer besteira é rotina, é quase instinto. Todo ser vivo, de algum jeito, pisa no outro, mata, usa, abusa. Não é teoria de bar, é só olhar em volta. Rousseau  estava lá sonhando com humanidade boazinha, utopia de comercial de margarina, enquanto Cioran já enxergava a sociedade como um circo louco, onde todo mundo mostra o pior de si. Lembra do Voltaire querendo que a razão resolvesse tudo depois do terremoto em Lisboa? Cioran ri disso. Ele não pergunta “por que existe o m...

QUANDO A RAZÃO ABDICA DO TRONO

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Vivemos obcecados pela ideia de que tudo deve fazer sentido. Esta necessidade quase visceral de encontrar padrões, causas e significados por trás de cada evento, por mais caótico que seja, é um dos traços mais persistentes da condição humana. Esta busca, no entanto, quando frustrada pelo silêncio indiferente do universo, frequentemente procura refúgio em narrativas que prometem respostas simples para perguntas complexas, por mais frágeis que essas narrativas se revelem. A ciência, em sua expressão mais pura, não é um fornecedor de sentidos absolutos, mas um método para construir modelos provisórios da realidade . Ela prospera na dúvida e na incerteza, avançando precisamente porque está disposta a admitir que estava errada. Thomas Kuhn , na sua obra seminal, demonstrou que o progresso científico não é linear, mas sim uma série de revoluções onde um "paradigma" é substituído por outro (KUHN, Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. Lisboa: Guerra e Paz, 2020). Este proc...

O QUE NOS AFUNDA E A LIBERDADE IGNORADA

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A gente vive numa correria desenfreada, enchendo os nossos dias de obrigações, metas e distrações. É um ritmo muito louco, quase automático. Até que, do nada, alguma coisa nos faz despertar. Pode ser um resultado de exame, a perda de alguém que amamos, ou simplesmente aquele momento pela manhã em que nos perguntamos: onde foi parar aquele jovem que eu era? De repente, a penumbra da finitude, que sempre esteve ali, se torna visível e fica impossível ignorar. E aí a pergunta que a gente empurra com a barriga a vida inteira vem com uma força avassaladora: e quando acabar? O curioso é que aparentemente somos os únicos animais a carregar esse fardo. Você já viu um gato ter uma crise de ansiedade pensando que só tem mais sete vidas? Um elefante, por mais sábio que seja, não fica angustiado com a própria finitude. Nós, os humanos, ganhamos uma faca de dois gumes: a consciência. Ela nos deu a arte, a ciência, o amor. Mas também nos deu o conhecimento terrível de que um dia a festa acaba. E a g...