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O VAZIO QUE TENTAMOS PREENCHER COM INSENSATEZ

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Há um momento, quase imperceptível, em que nos damos conta de que estamos a interpretar um papel num palco cujo cenário desmorona a cada fala.  Percebemos que a maior parte da energia humana é despejada na construção de degraus frágeis para sustentar o que já ruiu por dentro: as nossas certezas, os nossos deuses, os nossos sentidos emprestados. Somos os únicos animais que pagam para comprar a própria jaula, e depois chamamos de templo. Vivemos obcecados com a busca de um manual de instruções que nunca foi incluído na embalagem. Esta ânsia por um sentido pré-fabricado é o que move a nossa mais profunda insensatez. Atiramo-nos de cabeça para narrativas que nos prometem um final feliz, um spoiler cósmico que justifique toda a dor, todo o tédio, toda a absurdidade de acordarmos todos os dias para repetir, com variações mínimas, os mesmos rituais. Schopenhauer talvez risse deste nosso frenesi: condenados a ser a manifestação de uma vontade cega, saltamos de desejo em desejo, como um ...

O MAL QUE HABITA AO LADO - INÉRCIA E OPRESSÃO

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A pergunta pela origem do mal não é um mero exercício teológico ou filosófico para ser debatido em torres de marfim. Ela ecoa nos nossos silêncios constrangidos, nas pequenas traições do dia a dia, na frieza com que às vezes ignoramos o sofrimento alheio. De onde vem essa capacidade, tão humana, de causar dor? Será que o mal é uma força externa e sobrenatural, ou algo que brota de dentro de nós, um produto amargo da nossa própria condição? Há séculos, Sócrates balançou Atenas com uma ideia desconcertante: ninguém faz o mal voluntariamente. Para ele, todo ato prejudicial é, em sua raiz última, um erro de cálculo . A pessoa que pratica o mal sofre de uma profunda ignorância, não de fatos, mas do que verdadeiramente é o bem. Ela confunde seu interesse imediato, seu prazer ou sua segurança com a verdadeira felicidade. Nessa visão, o malfeitor é, antes de tudo, um tolo, um ignorante que precisa ser educado, não apenas punido. É uma visão muito generosa, mas será suficiente para explicar ...

POR QUE ESCOLHEMOS A TIRANIA DA FÉ E DO ESTADO?

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A inquietação que percorre o espírito do nosso tempo não é meramente política ou econômica; é uma crise de profundidade existencial. Observa-se, com uma frequência cada vez mais alarmante, um recuo coletivo em direção a certezas absolutas, a bandeiras ideológicas incontestáveis e, sobretudo, a dogmas religiosos que oferecem um conforto barato à complexidade da condição humana. Este movimento não é orgânico, mas sim uma fuga. Uma fuga do peso esmagador de uma liberdade que não sabemos mais como carregar. Jean-Paul Sartre , em sua obra monumental, afirmou que estamos “condenados a ser livres ”. Esta condenação não é um presente, mas uma sentença que muitos se recusam a cumprir. A liberdade sartriana exige que nos reconheçamos como únicos autores de nossos valores e ações, sem a muleta de um deus, de uma tradição ou de um manual político que pense por nós . Assumir essa autoria é angustiante. É mais fácil, infinitamente mais cômodo, delegar essa responsabilidade a uma entidade superior ...

POR QUE EU SOU EU E NÃO O OUTRO? O ESPELHO SEM REFLEXO

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Há perguntas que surgem nos momentos mais improváveis, não é mesmo? Aquela quietude no trânsito, o silêncio da madrugada quando o sono te abandona, ou simplesmente ao olhar no espelho e se deparar com um estranho familiar.  De onde vem essa sensação íntima e ao mesmo tempo tão vasta de ser quem se é? Por que esta consciência, estes pensamentos, este ‘eu’ habitam este corpo e não o seu, ou o de qualquer outra pessoa que cruza a rua?   Não se preocupe, não tenho a resposta definitiva. Ninguém tem. Mas a jornada para tentar esbarrar nela talvez seja o que nos torna mais humanos.  Voltem os olhos para onde tudo começou, muito antes de Freud ou dos manuais de auto ajuda. Os pré-socráticos, aqueles primeiros filósofos gregos, já mastigavam essa angústia primordial. Parmênides, por exemplo, afirmava que o ser é, e o não-ser não é. Parece óbvio, mas é profundo: a simples existência do ‘eu’ é um fato incontornável, a primeira e mais verdadeira de todas as certezas. É o pont...

QUANDO NADA IMPORTA - E ISSO PODE SER LIBERTADOR

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Às vezes algo acontece dentro de mim. Não é tristeza, não é nem cansaço... é um peso de existir que chega do nada. Como se a vida fosse uma pergunta que eu não só não sei responder, mas também não lembro de ter me inscrito pra fazer. Li um negócio do Cioran esses dias que me cutucou: ele dizia que nascer já foi o primeiro erro. E cara, como isso soou verdade. A gente é jogado aqui. Sem manual, sem sentido e pronto! . E a única coisa que a gente ganha — essa consciência — é justamente o que mais dói. Os bichos vivem. A gente sofre porque pensa. Já imaginei como seria viver sem essa neurose de significado. Só existir. Comer, dormir, morrer sem drama. Mas a gente sabe. Sabe que vai morrer, e isso estraga a festa. Aí a gente corre atrás de trabalho, filhos, projetos... querendo deixar riscos no mundo. Querendo sussurrar: “ei, eu estive aqui!”. Só que no fundo, a gente sabe que ninguém tá ouvindo. Schopenhauer sempre me surpreende e desta vez, quando li sobre a vida ser uma engrenagem ce...

COMO A SOMBRA DO GENOCÍDIO DESTRÓI O NOSSO AGORA

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A gente gosta de achar que a humanidade evolui, que aprendemos com as tragédias do passado. Mas a verdade é que a sombra do genocídio ainda ronda o nosso presente, teimosa e cruel. Não são apenas capítulos de um livro de história; são feridas abertas que sangram até hoje, destruindo vidas e condenando gerações inteiras a um sofrimento sem fim. Figuras como Hitler e Pol Pot não foram apenas ditadores; foram arquitetos do mal puro. Eles industrializaram a morte, transformando o ódio em política de Estado. O Holocausto e os campos de morte no Camboja deveriam ser lições definitivas, mas parece que a memória do mundo é curta. A pergunta que fica é: o que realmente aprendemos com tudo isso? Hoje, diante dos nossos olhos, a história se repete . A perseguição brutal ao povo rohingya em Mianmar é um exemplo vivo e chocante. Famílias inteiras foram arrasadas, mulheres violentadas, comunidades apagadas do mapa. Os que conseguem fugir acabam amontoados em campos de refugiados, dependendo de ...

POR QUE O MEDO DA MORTE NOS AFASTA DA VIDA?

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Às vezes, deitado na cama antes de dormir, aquele pensamento surge do nada: um dia, tudo isso vai acabar. Não é só um pensamento passageiro; é uma certeza que pesa no peito, um frio na espinha que lembra que nossos dias são contados. Essa consciência da finitude, do nosso limite absoluto, é uma das experiências mais universais e, ao mesmo tempo, mais angustiantes do ser humano.  Por que algo tão natural assombra tanto? Filósofos antigos e o Budismo têm se debruçado sobre essa questão há milênios. Eles não viam a morte como um monstro, mas como um mestre – um professor rigoroso cujas lições, se aprendidas, podem libertar-nos de uma ansiedade paralisante. O problema não é a morte em si, mas o nosso relacionamento doentio com ela. Vivemos como se fôssemos eternos. Planejamos décadas à frente, acumulamos posses como se pudéssemos levá-las conosco e nos apegamos a status e até mesmo a pessoas, com uma força que nega, veementemente, a lei mais básica da existência: tudo muda, tudo pas...